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editorial noturno

China: de país pobre a superpotência | 21 notícias que marcaram o século 21

Descrição

É possível resumir as duas primeiras décadas do século 21 em apenas uma frase? Difícil. Talvez seja mais fácil resumi-las em cinco letras: China. Do comércio internacional ao aquecimento global, das novas tecnologias à exploração do espaço, a maior nação do planeta deixou sua marca em quase tudo que ocorreu de 2001 a 2020. Com 1,3 bilhão de habitantes, a China começou o novo milênio dona de um PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 1,2 trilhão. Vinte anos depois, ele batia os US$ 15 trilhões, o segundo maior do planeta, com analistas projetando que na década seguinte o país superaria os Estados Unidos como a maior economia do mundo. Neste vídeo, Camilla Veras Mota conta como, em 20 anos, nenhum país cresceu e se transformou tanto como a República Popular da China. Um avanço impressionante que, é claro, foi possibilitado por reformas iniciadas anos antes. Confira. Reportagem em texto: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55989290 Assista também aos outros vídeos da série: https://youtube.com/playlist?list=PLCX5XjxKTpTmFUo5EDX4BqeY9lRIW4uFA Curtiu? Inscreva-se no canal da BBC News Brasil! E se quiser ler mais notícias, clique aqui: www.bbc.co.uk/portuguese #BBCNewsBrasil #21Notícias #China

Transcrição completa

Os chineses que viveram a década de 1940 dificilmente imaginariam que o seu país seria hoje uma potência global, com uma influência determinante sobre a política e a economia do resto do planeta.

Naquela época, a China era um dos países mais pobres e isolados do mundo, destruído por uma guerra civil.

As décadas seguintes trariam enormes mudanças políticas, sociais e económicas que gerariam riqueza, mudariam toda a cadeia produtiva global e ficariam marcadas por muita repressão e desigualdade.

E isso transformaria não só o país, mas o mundo neste século.

Sou Camilla Veras Mota da BBC News Brasil, e o avanço acelerado da China é mais um capítulo da nossa série '21 Notícias que Marcaram o Século 21'.

Nesse início de terceiro milénio, a China viu o seu PIB multiplicar por 10, até aos atuais 15 biliões de dólares.

Fazendo daquele país pobre dos anos 40, a segunda maior economia do planeta, a apenas alguns anos de distância de ultrapassar os Estados Unidos, como apontam muitas projeções.

Vem da China quase um terço de toda a produção manufatureira do mundo.

E o apetite chinês por matérias-primas como soja e minério de ferro, faz do país o maior parceiro comercial do Brasil.

Mas para explicar essa trajetória, precisamos voltar sete décadas no tempo.

Antes de ser a República Popular da China que conhecemos hoje, o país tinha um dos 10 menores PIBs per capita do mundo, não tinha parceiros comerciais, nem relações diplomáticas com o resto do planeta e dependia basicamente do que produzia.

Os anos 1930 e 40 foram de intensos conflitos.

A guerra no leste tem-se prolongado por tanto tempo que quase se tornou parte da vida das pessoas.

A Segunda Guerra Sino-Japonesa basicamente dividiu a China em três partes: uma nacionalista, uma comunista e uma sob ocupação do Japão.

Em 1945, quando o Japão foi derrotado na Segunda Guerra Mundial, teve início uma guerra civil entre os nacionalistas e os comunistas chineses pelo controlo do país, o que só terminou em 1949 com a vitória comunista sob a liderança de Mao Tsé-Tung.

Milhões de pessoas morreram nesses anos de conflito e muitos outros milhões morreram de fome ou doenças.

1949 é um ano chave, marcou o começo do regime comunista e também de mais tragédias humanitárias.

Uma manifestação enorme em Xangai celebra a maior vitória do comunismo. Há cinco meses, as tropas de Mao Tsé-Tung marcharam sobre Xangai sem oposição.

Mao Tsé-Tung tentou modernizar rapidamente a economia camponesa da China e eliminar

o líder chinês Deng Xiaoping, que disse às pessoas para se concentrarem na economia em vez da política.

Deng Xiaoping decidiu promover o capitalismo na economia, mas sem abrir mão da centralização que marcava o comunismo chinês.

Os fluxos globais de investimentos passaram a voltar-se cada vez mais para a China, de olho num mercado com mão de obra barata e baixos custos produtivos.

A população, até então predominantemente rural, começou a migrar em massa para as cidades, que passaram por um processo rápido de urbanização.

O gigantesco êxodo rural faria com que a população urbana do país passasse de 191 milhões em 1980 para 691 milhões em 2011.

Como resultado de todo esse processo, a China cresceu rapidamente ao longo dos anos 90 e integrou-se ao mundo.

Um marco dessa integração foi a entrada em 2001 na Organização Mundial do Comércio, que regulamenta o comércio entre países.

A China começa a reduzir barreiras e tarifas comerciais.

Com custos mais baixos de produção, os fabricantes chineses de roupas, brinquedos e equipamentos eletrónicos ficaram extremamente competitivos.

Não demorou para que, neste século XXI, os produtos "Fabricado na China" estivessem por toda a parte.

O crescimento da economia veio acompanhado da modernização das cidades chinesas.

O primeiro comboio de alta velocidade chinês começou a operar em 2008, entre Pequim e Tianjin.

Em 2019, segundo a rede de notícias estatal chinesa CGTN, o país tinha mais de 35.000 km de linhas de comboio que viajam até 350 km/h.

Essa rede ferroviária de alta velocidade é maior do que a de todos os outros países juntos.

Daxing, o novo aeroporto internacional de Pequim, é considerado o maior do mundo e estima-se que será também em breve o mais movimentado do planeta.

Um exemplo ilustrativo da escala da modernização chinesa é a cidade de Shenzhen, na costa sul.

Olha o tamanho da mudança: em 1979, Shenzhen era uma pequena cidade rural de 50 mil habitantes.

Um ano depois, o governo fez de Shenzhen uma das zonas económicas especiais do país, onde o capitalismo chinês seria testado com legislação económica e tributária desenhadas para atrair investimentos estrangeiros.

Shenzhen teve décadas de crescimento ininterrupto e tornou-se um polo de fábricas de todo o tipo de produto, de sofás a eletrónicos.

A população ultrapassou os 12 milhões de pessoas em 2020.

Mas, em meio a todo esse avanço, surgiram denúncias a respeito das condições de trabalho nas enormes fábricas espalhadas pela China.

O olhar estrangeiro voltou-se em particular para a Foxconn, fornecedora de gigantes como a americana Apple.

Em junho de 2006, o jornal britânico O Correio de Domingo investigou a produção de iPods na unidade da Foxconn em Shenzhen e expôs as péssimas condições de trabalho dos funcionários.

Que incluíam desde jornadas diárias de 15 horas e salários irrisórios.

O que inicialmente pareciam ser casos isolados tornou-se uma crise.

Em 2010, pelo menos 10 trabalhadores da Foxconn em Shenzhen cometeram suicídio.

O avanço económico também trazia custos ambientais: com a economia fortemente dependente do carvão, a China tornou-se em 2006 o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.

Como era de esperar, essa combinação de poluição com o abuso dos direitos humanos e trabalhistas começou a moldar a perceção internacional do mundo a respeito da China.

Não à toa, o Partido Comunista voltou os seus esforços para construir uma nova imagem do país, mais moderna e organizada.

Os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 tiveram um papel chave nisso.

Depois de meses de tensos preparativos, incluindo protestos a favor da independência da província do Tibete durante a passagem da tocha pelo país, a China realizou uma cerimónia de abertura vista por um...

mil milhões de pessoas.

E ainda abocanhou 48 medalhas de ouro nas competições, 12 a mais do que os Estados Unidos, ficando na liderança.

Um dos símbolos dos jogos foi o estádio das cerimónias de abertura e encerramento, conhecido como Ninho de Pássaro.

A estrutura tinha sido desenhada pelo artista Ai Weiwei,

uma obra que alimentava o orgulho nacional e do regime comunista.

Mas não demorou para que Ai Weiwei também se tornasse um símbolo da repressão política na China.

Conforme internacionalmente, Ai tornou-se um dos maiores críticos do regime comunista.

A sua arte passou a denunciar ao mundo as consequências devastadoras de um terramoto na província central de Sichuan,

em maio de 2008, em que cerca de 69 mil pessoas morreram.

O número inclui mais de 5 mil crianças, soterradas pelos edifícios das suas escolas que sucumbiram ao tremor.

O episódio expôs um escândalo de corrupção na estrutura do governo.

As escolas teriam sido construídas fora dos padrões de segurança e qualidade.

Ai Weiwei contou que foi censurado pelo governo chinês, teve o seu estúdio demolido e passou um período preso até migrar para a Europa, onde vive atualmente.

Essa faceta repressiva do Partido Comunista Chinês, aliás, tem sido vista em vários momentos da sua história.

Desde o massacre de milhares de estudantes que protestavam por democracia na Praça da Paz Celestial em 1989, até à mão de ferro com que são tratadas as minorias étnicas, como os uigures,

e o duro controlo sobre a internet no país.

Se até aqui falámos de mudanças internas na China para acomodar o seu crescimento económico, é importante lembrar que a influência externa de Pequim também cresceu exponencialmente,

principalmente na África e na América Latina.

Desde os anos 2000, a China investiu dinheiro em centenas de projetos em mais de 20 países africanos, como Nigéria, Angola e Quénia.

Alguns projetos são grandes obras de infraestrutura, como ferrovias e portos, que facilitam o escoamento das matérias-primas de que a China tanto necessita.

Outros são a exploração de petróleo e gás e a extração de minérios, principalmente ferro, cobre, urânio e cobalto.

E no Brasil?

Nas duas primeiras décadas do novo milénio, o Brasil recebeu um enorme volume de investimento direto chinês.

Para comprar empresas de setores como energia, distribuição de água, infraestrutura e mineração.

Empresas petrolíferas chinesas arremataram diversos lotes nos leilões de campos de águas profundas na costa brasileira.

Em 2019, a China respondia por mais de 65% de todo o saldo comercial da balança brasileira.

A vasta expansão chinesa em quase todos os cantos do mundo despertou críticas de que o governo usa esse poder económico para fortalecer a sua posição geopolítica global

e, segundo críticos, também obter benefícios em fóruns supranacionais como a ONU.

O novo papel da China no mundo também criou focos de rivalidade com outra grande potência global: os Estados Unidos.

Aqui vou fazer um pequeno parêntese com uma breve história da relação entre estes dois.

Os Estados Unidos tinham apoiado os nacionalistas na guerra civil chinesa que eu mencionei lá no começo do vídeo, que perderam a disputa para os comunistas.

Os países ficaram em lados opostos durante a Guerra da Coreia, um apoiando o Sul e o outro o Norte, em plena Guerra Fria.

Foi a chamada diplomacia do pingue-pongue que aproximou os dois países novamente em 1971, culminando numa famosa visita do presidente Richard Nixon à China no ano seguinte,

e anos mais tarde, na normalização dessa relação.

empregos no país, a terceirização da produção americana para a China.

A retórica de que a China estaria a roubar empregos aos americanos

foi explorada pelo ex-presidente Donald Trump ainda na campanha eleitoral em 2016.

os nossos empregos estão a fugir do país.

Vejam o que a China está a fazer ao nosso país em termos de fabricar o nosso produto, eles estão a desvalorizar a sua moeda e não há ninguém no nosso governo para os combater.

Já no poder em 2018, Trump impôs tarifas sobre importações vindas da China, que respondeu com sobretaxas a produtos americanos.

Uma guerra comercial entre as duas maiores potências globais.

Um balanço da consultoria americana China Briefing de agosto de 2020, calculou que até aquele momento, os Estados Unidos haviam imposto tarifas sobre importações chinesas que valiam 550 mil milhões de dólares.

Pequim, por sua vez, havia taxado um total de 185 mil milhões de dólares em produtos americanos.

Em janeiro de 2020, Trump e o vice-primeiro-ministro chinês Liu He assinaram a primeira fase de um acordo para gradualmente desescalar a guerra comercial.

Trump também investiria contra a China noutras frentes.

Vamos explorar aqui duas delas.

O caso da empresa de tecnologia chinesa Huawei e a pandemia do coronavírus.

No caso da Huawei, Trump pressionou países em todo o mundo, incluindo o Brasil, a rejeitar a tecnologia chinesa para a internet de quinta geração.

O 5G.

Trump alegava haver riscos de segurança, acusando a Huawei de facilitar a espionagem chinesa, algo que a China sempre negou.

Um dos países que cederam à pressão americana foi o Reino Unido, proibindo que as suas empresas de telefonia comprassem novos equipamentos da Huawei a partir de 2021.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro inicialmente disse que atenderia ao pedido de Trump e também excluiria a Huawei dos planos de 5G do país, o que não aconteceu.

No fim das contas, embora a empresa não tenha participado do leilão de 5G em novembro, por não ser uma operadora de telefonia, ela poderá ser fornecedora de equipamentos para as operadoras que venceram o concurso.

Agora vamos à pandemia.

Donald Trump culpou diretamente a China pelo SARS-CoV-2, coronavírus que foi identificado pela primeira vez num mercado da cidade chinesa de Wuhan e se espalhou pelo mundo.

Travámos uma batalha feroz contra o inimigo invisível, o vírus chinês.

Durante meses, referiu-se ao coronavírus como vírus da China e disse que o país asiático pagaria um preço alto pela pandemia.

O seu sucessor Joe Biden mudou completamente a abordagem dos Estados Unidos no que se refere à pandemia, mas manteve um tom crítico com a China.

Sob Biden, os Estados Unidos tornaram-se o primeiro país a dizer que a China comete crimes contra a humanidade e genocídio contra a população uigur, maioritariamente muçulmana que vive no noroeste do país.

As denúncias apontam que milhões de uigures sofrem com prisões arbitrárias, esterilização forçada e repressão religiosa.

Por enquanto, porém, nem as denúncias nem as críticas à China têm abalado o poder crescente do atual presidente chinês, Xi Jinping,

que comanda o país há quase uma década numa era de nacionalismo, expansionismo e também autoritarismo.

Nesta década, o PIB per capita chinês avançou de 4.600 dólares para 10.400 dólares em 2020.

Em novembro de 2020, o governo chinês anunciou ter acabado com a pobreza extrema no país.

Segundo Pequim, 93 milhões de pessoas tinham sido retiradas da pobreza desde 2012.

Mas isso é contestado por muitos especialistas que argumentam que a China inflaciona esses números usando parâmetros incompatíveis com os do Banco Mundial para medir a pobreza extrema.

Além disso, a desigualdade social continua a ser um problema grave no país, a ponto de uma das principais políticas

política de Xi Jinping, que é a da prosperidade comum.

Na prática, esta política tem-se traduzido em combate à evasão fiscal pelos mais ricos e na acumulação de riqueza pelos bilionários.

O objetivo é encurtar a enorme distância entre os chineses mais ricos e os mais pobres.

Xi Jinping também tem liderado uma aposta chinesa na geração de energia limpa.

Em setembro de 2020, Pequim anunciou o seu plano de reduzir o total das emissões de dióxido de carbono até 2030.

A promessa é que até 2060 a China atinja a chamada neutralidade de carbono.

Ou seja, não emita mais carbono do que a quantidade absorvida por florestas, solo ou oceanos.

Mas ambientalistas e críticos dizem que isso não está a acontecer à velocidade necessária para manter o aquecimento global dentro de limites aceitáveis.

Na mais recente conferência climática da ONU em Glasgow, a China foi um dos países que pressionaram por mudanças no acordo final.

Do trecho que, antes da alteração, falava da eliminação do carvão e dos subsídios a combustíveis fósseis.

Isto fez com que ambientalistas e analistas vissem um enfraquecimento no acordo final da conferência, potencialmente dificultando o controlo de emissões de gases de efeito estufa.

Isto, com certeza, ainda vai gerar muitas discussões, assim como, claro, o papel económico e político da China no mundo.

que, segundo especialistas, só tende a aumentar nas próximas décadas.

Eu fico por aqui. Para assistir a outros vídeos da nossa série "21 Notícias que Marcaram o Século XXI",

visite o nosso canal no YouTube, que tem uma playlist lá com todos os episódios. Obrigada.

E até à próxima.

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