Personalidade Borderline: Uma Cura pelo Amor | João Carlos Melo | TEDxLisboa
Descrição
João Carlos Melo propõe-nos um olhar mais humano, mais terno e mais esclarecido sobre as pessoas com personalidade borderline. O médico psiquiatra, autor do livro “Reféns das próprias emoções – um retrato íntimo das pessoas com personalidade borderline” trata pessoas com esta perturbação há mais de trinta anos. O que nos podem ensinar estes pacientes sobre o fascinante mundo da psiquiatria e sobre os mistérios da nossa mente? Médico psiquiatra, psicoterapeuta e grupanalista de origens açorianas, atualmente em Lisboa. Desde a sua juventude, nutre um fascínio profundo pelo funcionamento da mente humana, uma paixão que o levou a uma carreira notável no campo da psiquiatria. Atualmente, é Assistente Graduado no Hospital Fernando Fonseca, onde coordena o Hospital de Dia do Serviço de Psiquiatria, e trabalha também em consultório privado. Mais do que títulos e credenciais, João Carlos é uma manifestação viva da sua própria filosofia de compaixão e dedicação ao sofrimento humano. As palavras de Albert Solnit, referidas a Ralph Grenson, que foi psicanalista de Marilyn Monroe, capturam a essência da sua abordagem: uma preocupação incansável pelos que enfrentam dificuldades, fracassos e sofrimentos na vida. This talk was given at a TEDx event using the TED conference format but independently organized by a local community. Learn more at https://www.ted.com/tedx
Transcrição completa
📺 Ver na TV VintageAndam para aí a lançar um boato que diz que a mais velha profissão do mundo é a prostituição.
Não liguem, é mentira.
A mais velha profissão do mundo é a de parteira. Porquê? Porque nós somos a única espécie que precisa de ajuda para nascer.
E isto porquê? Porque, à medida que nos fomos desenvolvendo na evolução das espécies,
e à medida que ganhamos o bipedismo, andarmos em pé, o canal de parto estreitou.
Ao mesmo tempo que o cérebro se foi desenvolvendo num crescimento sem precedentes em toda a história da vida.
Isto criou aquilo que alguns autores chamam dilema obstétrico.
Podem ver aqui do vosso lado direito, o círculo escuro corresponde à cabeça do bebé, e depois à volta, o canal de parto.
Ali os outros que veem ao lado são os animais mais próximos de nós geneticamente, os outros símios.
Que aquilo é muito fácil, portanto, no nosso caso é em rés-vés.
Como é que a natureza, através do processo de evolução, resolveu este dilema?
Antecipando, entre aspas, o momento do parto.
Quer dizer, quando nós nascemos, 40 semanas mais ou menos, o corpo está, enfim, como é preciso estar, a necessitar de cuidados, evidentemente, mas é assim, nem antes nem depois, mais ou menos às 40 semanas.
Mas o cérebro só se desenvolveu 23% daquilo que há de vir a desenvolver-se.
Ao passo que, por exemplo, no caso do gorila, já atingiu 50% e outros animais ainda mais.
Se a gente vir a coisa de outra perspetiva, para que o nosso cérebro ao nascimento tivesse tão desenvolvido como o da maioria dos mamíferos, o tempo de gravidez humana seria de 21 meses.
Portanto, isto é impossível.
O que é que isto determinou? Determinou que à nascença o nosso cérebro está muito pouco desenvolvido.
Dentro do útero, os alimentos eram os nutrientes através do cordão umbilical, cá fora é também os nutrientes através dos alimentos e para o desenvolvimento do cérebro, as interações humanas e a aprendizagem e tudo isso que fez do nosso cérebro esta maravilha que é hoje em dia.
E que permitiu todas as realizações que a gente vê realmente à face da Terra, mas isto tem um reverso da medalha.
Precisamente por o cérebro ter, ah, aparecido de uma forma tão pouco desenvolvida, ah, isto gera necessidades humanas muito profundas, para além da necessidade de sermos cuidados, necessidades muito profundas e únicas.
As necessidades de sermos compreendidos, reconhecidos, aceites como somos, ah, especiais e únicos para alguém e, ao mesmo tempo, para nós próprios. E estas necessidades são tão profundas que nós passamos a vida a procurar satisfazê-las, quer tenhamos consciência disto, quer não.
Nomeadamente, através das relações amorosas e de outras relações, e quando estas coisas não correm bem, geram angústia, ah, uma angústia muito específica nossa também, nossa da nossa espécie, que é a angústia de rejeição.
Ah, que se manifesta em muitas situações, nomeadamente nas relações, mas também, ah, em relações amorosas, outro tipo de relações sociais, relações íntimas, etc.
Ah, mas há outras angústias próprias também da nossa espécie, angústia de separação e a angústia de abandono. Ah, estas angústias manifestam-se em todas as pessoas, nomeadamente também nas relações amorosas, mas noutras situações como, ah, o medo da morte.
Enfim, não vou entrar por aqui, mas penso que também tenha a ver com isto. Todas as pessoas têm este tipo de angústias, mas há um grupo de pessoas em que estas angústias são predominantes.
Acontecem muitas vezes, em muitas situações, são as pessoas que têm perturbação borderline. Ah, a perturbação borderline é uma doença pouco conhecida, mas é muito frequente.
Ah, para terem uma ideia, são 2 a 6% da população, enquanto que a esquizofrenia e a doença bipolar é 1%, para terem ideia.
É uma doença, ah, muito grave, ah, com complicações, enfim, o mais grave que, que possam pensar, e são pessoas que, além de terem sido vitimizadas pela doença, são pessoas maltratadas, vítimas de estigma, não propriamente da sociedade, que a sociedade ainda conhece pouco,
ah, mas através de uma certa mentalidade que ainda existe na psiquiatria e na psicologia.
Qual é a fama que estas pessoas têm? De serem, ah, conflituosas, manipuladoras, mentirosas, mau caráter.
É isto que, é esta fama que as pessoas têm. Não é nada disto. Em relação ao mau caráter, é assim, ah, há uma linha divisória, a maior linha que existe no mundo, que separa a humanidade em dois grupos: as pessoas com bom caráter e as pessoas com mau caráter.
E, portanto, eu, ah, há pessoas com mau caráter dentro do grupo das pessoas com perturbação borderline, e há dentro do grupo das pessoas que têm diabetes, dos padeiros, dos canalizadores, dos médicos, enfim, por aí fora. Estas pessoas, ah, não são nada disto.
Embora o sofrimento delas se manifeste, não em pedidos de ajuda tranquilos, mas de uma forma muito exuberante e com apelos e, às vezes, com crises, enfim, de uma, de uma certa, de uma certa gravidade.
Apesar de não parecer, estas pessoas são hipersensíveis. Hipersensíveis em que aspeto? Se nós tomarmos como analogia uma alergia, os pólenes, o ácaro do pó, não nos faz mal nenhum à maioria das pessoas.
São estímulos inofensivos, mas para as pessoas que têm alergia pode dar reações muito exuberantes. Aqui a mesma coisa, só que os estímulos são outros, são sobretudo frustrações, ah, contrariedades e estímulos interpessoais como aqueles que desencadeiam as angústias de rejeição, de separação, de abandono, como eu falei há pouco.
Como é que estas pessoas reagem quando são atacadas? É assim que se sentem. Ah, reagem automaticamente com desregulação das emoções.
Ah, e pronto, as pessoas não têm culpa. Desregulação das emoções, crises de raiva, irritabilidade, ah, impulsividade, para além de terem, ah, outros sintomas como vazio interior, ah, problemas de identidade, dificuldades nas relações com as outras pessoas, sobretudo nas relações íntimas, precisamente por causa disso.
Ah, e, e, portanto, ah, tudo isto faz destas pessoas, pessoas difíceis, digamos assim.
Há um artigo de um psiquiatra americano, já antigo, que mostra isto, o título mostra isto, ah, os pacientes de quem os psiquiatras não gostam.
E há pessoas, ah, depois de eu ter publicado aquele livro em 2021, enfim, apareceram muito mais pessoas com perturbação borderline, embora eu já trato pessoas com esta doença há mais de 30 anos, ao ponto de haver pessoas que me perguntam: "Mas por que é que tu gostas desses doentes? Tu és borderline? Tu tens pessoas na família com borderline?"
E eu assim, enfim, não, não sou, não tenho, enfim, e durante um tempo eu não soube responder a esta pergunta. Mas depois de conhecer as pessoas, de me conhecer a mim, de refletir, a conclusão a que eu cheguei foi esta:
ah, é porque estas pessoas, não são todas, naturalmente, não são as únicas, mas são aquelas que tiram o melhor de mim.
E, portanto, eu, ah, consigo ir para lá da aparência ao sofrimento da pessoa, à fragilidade da pessoa, e de uma forma empática,
para além, evidentemente, da medicação que é preciso em muitos casos, da psicoterapia, técnicas psicoterapêuticas destinadas especificamente a cada caso, a cada pessoa,
e empatia, compaixão, uma vontade, um, um desejo profundo, ah, de, por compreender o sofrimento destas pessoas, ir ao encontro delas e dar o melhor de mim para as ajudar.
Isto é amor. Não é um amor romântico, erótico, fraternal, paternal, não é nada disso,
mas eu chamo amor porque é amor. Vou dar-vos um exemplo concreto.
Ah, eu tenho uma paciente que, além de perturbação borderline, tem outras duas doenças que eu chamo as doenças malditas.
Uma chama-se perturbação factícia, ah, factício quer dizer artificial, também conhecida por síndrome de Munchausen. O que é que isto é? As pessoas fabricam, produzem, ah, criam, não é imaginam, criam verdadeiramente sintomas, doenças, queixas, com mentiras, com exageros, com falsificação de, ah, análises, relatórios de, ah, exames de imagem, etc., etc., etc.
São pessoas que, ah, não aceitam ser tratadas, ah, são queimadas, entre aspas, em vários hospitais porque mentem, porque escondem as coisas, ah, e quando sentem que estão prestes a ser apanhadas, fogem e vão para outro hospital e passam a vida nisto.
É a doença psiquiátrica com pior prognóstico que existe, pior prognóstico do que, por exemplo, a esquizofrenia.
Ah, portanto, síndrome de Munchausen.
A outra doença de que eu falei, doença maldita, oficialmente ainda não é considerada doença, mas, ah, sê-lo-á em breve, chama-se mentira patológica.
Ah, ou seja, a pessoa mente profusamente, mente em tudo, ah, tem um caráter impulsivo, ou seja, a pessoa está a falar e, ah, sem dar por isso já mentiu.
E continua com a mentira e quando vê que está a ser apanhada, ah, diz mais mentiras, mentiras mais elaboradas por cima.
Ah, e além disso tem um caráter compulsivo. Síndrome de Munchausen e a mentira patológica tem um caráter compulsivo. O que é que isto significa? Significa que se tornou um vício.
E as pessoas sentem sintomas físicos até, um sofrimento enorme, que só é apaziguado da única forma que as pessoas sabem fazer para apaziguar esse sofrimento: indo a urgências, mentindo.
Isto gera um ciclo vicioso muito complicado. Como é que é possível ajudar estas pessoas?
Quando elas aceitam ser ajudadas, muitas fogem porque temem serem maltratadas e algumas são. Ah, é preciso que a pessoa queira ser ajudada, o que não é fácil, mas no caso desta minha paciente, isso aconteceu.
Para além da medicação, para além de uma psicoterapia intensiva há dois anos e tal e que há de continuar, ela está bem.
Ela está bem, ah, e tudo isto se deve, para além das técnicas que eu falei, ao poder do amor.
Afinal, como disse um dia o Sigmund Freud, a psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor.
Estes desenhos que estão aqui a ver foram feitos por esta minha paciente que, que eu referi, ah, por quem eu tenho uma grande estima e que me tem ensinado muito de, de, de, de muitas coisas e para a ajudar a ela e também as outras pessoas, porque um dos objetivos que ela tem é poder ajudar outras pessoas que sofrem igualmente.
Muito obrigado.
Obrigado.
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