MARCOLA: A HISTÓRIA DO PADRINHO DO PCC FT. JOEL PAVIOTTI | #ACHISMOS HISTÓRIAS #1
Descrição
Pra você que cansou de fazer perguntas sobre seus achismos, agora também temos histórias pra contar. A história de hoje vai ser contada por Joel Paviotti, que vai abrir o caso do “Marcola” e contar quem é e como é a vida do chefão do PCC. JOEL PAVIOTTI @joelpaviotti https://www.instagram.com/joelpaviotti/ Índice do vídeo 0:00 - Joel Paviotti apresenta MARCOLA 0:12 - O início de um líder 1:32 - Carandiru e PCC: tudo a ver? 6:03 - Salve! 9:09 - Como é ser o CEO do crime? 10:18 - Já não sou mais o mesmo? 14:37 - Poderoso chefão? Roteiro e Direção: Reneu Marcos @marcaoreneu Produção: Francielly Vidal @francielly.vidal Montagem e Finalização: Luis Fernando de Almeida @luisera Cinegrafista: Leone Paiva @leone.jpg Captação de Som: Luiz Emidio @luiz_emidio Metadata: Aline Soares @withlinesoares Ah! Você já conhece nosso canal de CORTES DO ACHISMOS TV? Bora ver o melhor dos vídeos lá: youtube.com/@CortesAchismosFM #achismos #conversa #podcast #mauriciomeirelles #maumeirelles #achismospodcast #3continentes #achismosopinião #achismostech #achismoshistorias #marcola
Transcrição completa
acordou um dia stressado, tirou a vida de dois tipos que moravam com ele, trocou os corações dos tipos de lugar de tanto ódio que ele sentia.
Sou Joa Paviot, sou cientista político, historiador.
Nome completo do senhor?
Marco William Zeba Camacho.
O senhor tem direito constitucional ao silêncio, isso não o prejudica.
O senhor também é conhecido como Marcola?
Sou.
É, o Marcola nasce e cresce no centro de São Paulo.
Perde a mãe muito novo, não é?
A mãe morre afogada, numa situação bastante trágica.
E ele cresce criado por uma tia, mas em grande parte do tempo a viver na rua.
Onde ele conhece ali alguns comparsas e ele vai tendo uma evolução no crime e destacando-se.
Até se tornar assaltante de banco ali com os seus 15, 16 anos de idade.
É nesse período que ele conhece, por exemplo, o César Augusto Rodrigues, o Cezinha que vai ser bastante importante na altura em que ele fundar o PCC.
O próprio apelido dele era Marcola, porque ele cheirava muita cola.
Ele era carteirista, que é o que todo o miúdo acaba por começar no mundo do crime.
E através do carteirismo, aí você vai subindo um pouco, vai ficando mais velho.
Até chegar ao topo do crime, da criminalidade antigamente, não é, nos anos 80, que era o assaltante de banco.
Na capital paulista, ser assaltante de banco, era gozar de um grande estatuto no mundo do crime.
Muito provavelmente, ele pagou por algum assalto cometido.
Ou na grande ABC, ou aqui mesmo na capital paulista, que eram os principais redutos de assalto a banco da época.
Nós temos aqui uma fase antes do PCC, uma fase depois do PCC.
O que é que mais ou menos o PCC faz? Ele cria uma monopolização da violência e cria uma hegemonia de ideias dentro da prisão.
Então, o crime na prisão, ele sempre tentou organizar-se.
Mas você poderia chegar a uma prisão em 1987 e poderia ser executado no primeiro dia por uma palavra errada.
Ou poderia sofrer, por exemplo, uma violência sexual.
Em 1987, isso era muito claro.
E ao longo dos anos, vários presos foram tendo contactos com os debates democráticos, com os debates de legislação.
Da nova Constituição de 1988.
Traidor da Constituição é traidor da pátria.
E eles absorveram isso.
O Mizel, que era um dos fundadores do Primeiro Comando da Capital, participou de comissões junto com a Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo.
Que eram comissões que debatiam os direitos dos presos.
Então esses presos mais influentes tinham uma noção de direito, uma noção de como se organizar.
uma primeira greve de fome de três dias, batendo com uma caneca nas grades.
E isso demonstrou que, na verdade, os presos estavam a organizar-se.
E então eles começam a andar pelo sistema, levando uma constituição do PCC, um estatuto, que é:
Olha, nós não devemos matar-nos. Nós devemos ter motivos para tirar a vida um do outro.
Então começa a burocratizar-se a morte dentro da cadeia.
Eu fiz isso. Espera aí, vai ter de ter um julgamento, vai para as ideias e vamos debater o que é que vai receber de castigo.
Antes disso, antes de as organizações do PCC tomarem os lugares, meu, era: veste-se, pega-se na tua faca,
eu pego na minha, e vamos trocar facadas.
Ou a meio da noite corto-lhe a garganta.
Não, é simplesmente dormir numa cadeia sem saber se ia acordar.
E para o preso começar a cumprir a pena, ele saber que pode dormir e acordar, se tiver uma certa postura,
isso toda a gente começou a aderir.
[Música]
O Marcola, ele sempre teve uma característica dentro das prisões paulistas de ser liderança.
Então ele era um preso bastante influente, que tinha conhecimento de legislação e influenciava outros presos.
Quando o PCC é fundado em 1993, na casa de custódia de tratamento de Taubaté,
o Marcola estava lá, mas ele não estava no jogo de futebol de fundação do PCC.
O PCC foi fundado num jogo de futebol em que presos da capital acabaram por tirar a vida de presos do interior.
E então eles fazem uma organização entre eles e dizem, olha, precisamos fazer com que este crime que cometemos não seja punido
e que consigamos organizar certos direitos.
Então vamos formar um grupo aqui.
O Marcola, a princípio, não era fundador do Primeiro Comando, mas ele estava na prisão onde o Primeiro Comando foi formado.
Ele entra como um dos principais líderes.
Ele é muito importante para a expansão do Primeiro Comando da capital,
porque ele era um preso altamente respeitado e que inseriu nas prisões a ideia do PCC
através de uma organização política, de ideias.
[Música]
Você quer livrar-se desse estigma, é isso que quer?
Seria, seria perfeito se fosse assim, mas estou disposto a ir para qualquer lugar
que seja longe do PCC para que não digam que sou líder do PCC.
O Marcola, ele era uma liderança do Primeiro Comando desde o início.
Ele não era um fundador.
Eram estatutos diferentes. Os fundadores gozavam de privilégios maiores. A decisão final era deles.
Mas o Marcola já se destacava como uma liderança, assim como o Edemir Ambrósio, que era o Sombra,
que foram dois tipos que inseriram dentro das prisões a ideia do PCC através do convencimento.
O Marcola começa a destacar-se na organização quando começa a ser transferido
e nessas transferências consegue batizar uma quantidade enorme de pessoas.
Então era como se o Sombra e ele fossem representantes comerciais que faziam esse batismo desses tipos.
Aí, aí eu teria de explicar porque é que sou Marcola, percebe?
Tive um problema com esses presos que eram os líderes do PCC,
eles mandaram assassinar a minha esposa, assassinaram a minha esposa, Dra. Ana Maria, que era uma advogada
e tentaram matar-me também, mandaram assassinar-me.
Eu declarei uma guerra contra eles, o sistema penitenciário, cansado de ser oprimido por eles,
acabou por repudiá-los.
Quando eles foram repudiados, passei a ser visto pelo sistema penitenciário como líder do PCC, percebe?
[Música]
Ele decreta o Geleia e o Cezinha e tira os tipos do Primeiro Comando
e há uma das maiores guerras do Primeiro Comando, que é mais ou menos de 2003, 2004.
E então o Marcola reúne-se com os presos ali mais pesados do sistema e o Marcola ascende como um grande chefe liderança.
E o PCC acaba por receber um áudio de que o Godofredo
Bitencourt, que na altura era chefe do DEIC, não é, do Departamento de Investigações Gerais, aqui de São Paulo,
que o governo do Estado de São Paulo tinha um planeamento para transferir 700 líderes para prisões de segurança máxima.
E quando eles ficam a saber disso, eles dão a ordem, o famoso 'salve', que é para virar as prisões. E é aí que São Paulo se torna uma confusão.
E ele acabou por dizer que realmente poderiam acontecer algumas coisas, aí que não seria bom para ninguém.
Porque os tipos mandam executar agentes de segurança. Durante o fim de semana, perto do Dia da Mãe, eles executam pelo menos 50 pessoas ligadas à segurança pública.
Foi nesse período, inclusive, o que é interessante, que começámos a ficar traumatizados com dois tipos numa mota. Porque a maioria das execuções eram dois tipos com uma pistola que passavam e executavam.
E geralmente eram jovens de 18, 19 anos que iriam ganhar créditos no crime por poder, por terem cometido aquilo nessa situação.
E é aí que os tipos começam a mostrar o Marcola, que o Marcola parece que vai falar no DEIC, e ele sempre com aquela postura de dizer assim: 'Eu sou apenas uma voz do que a procura dos prisioneiros'.
Capítulo III
Sintonia Final Geral. Marcola. Marco Williams. Herbas Camacho. Abel Vida Loka. Abel Pacheco do Andrade. Gegê do Mangue. Rogério Jeremias de Simone. Tiriça. Roberto Soriano. Cego. Daniel Vinícius Cordeiro. Branco ou Paca. Fabiano Alves de Souza. Biroska. Edilson Borges Nogueira. Julinho Carambola. Júlio César G. de Moraes.
Quando ele faz este pacto com outros presos famosos, como por exemplo, Biroska, o Tiriça, o Gegê do Mangue,
ele toma o poder do Geléia e do Cezinha e distribui esse poder.
Ele faz o que muitos filósofos sobre poder e política diziam: dividir para governar.
Então, dá-se um pedaço a cada um, e essa pessoa, para não perder esse pedaço, vai dar o melhor de si para conseguir ficar nesse espaço.
O que podemos entender na literatura é que esses presos tiveram contacto com presos mafiosos, por exemplo.
Se pegarmos a máfia russa, se pegarmos a máfia italiana, são estruturas bastante parecidas.
Então não é muito difícil para um criminoso conseguir entender que para ele conseguir isso, ele precisa organizar a situação.
As centrais telefónicas também, que foram importantes para construir isso, eles, os tipos conseguiram aprender com o Spencer,
que foi o tipo que sequestrou o Abílio Diniz aqui no Brasil e ficou preso com eles.
Então eles aprenderam a fazer todas as centrais telefónicas, que era basicamente a comunicação de dentro para fora da prisão para dar os 'salves', que é o elemento básico de ordem do primeiro comando, com pessoas que já sabiam fazer isso.
Capítulo IV. Já não sou mais.
Quando conversei com ex-criminosos, ex-chefes do crime, para fazer alguns conteúdos,
eu perguntava-lhes assim: 'Meu, qual foi a coisa mais interessante que fizeste quando saíste do crime?'
Ele disse: 'Foi andar na rua'.
Gegê do Mangue.
Excelência, estou há 16 anos, hoje, 16, direto, hoje estou, estou há 16 anos e 3 meses.
No período em que estiveste preso, fizeste algum curso?
Não, curso não. Até porque o presídio aqui não oferece curso nenhum.
Pá, aí não há trabalho, nada?
Não, não há, Excelência, não há trabalho, não há escola, não há absolutamente nada.
Ah, estás a explicar a máfia, não é?
Chega lá por 2007, 2008, o que é que o Marcola começa a pensar?
Olha, estamos a ganhar dinheiro, mas o nosso financiamento é através das rifas. O que são as rifas?
São as contribuições que as pessoas, os membros davam por mês, está bem?
Essa era a maior forma de obtenção de dinheiro para a organização.
E claro que assaltantes de banco, quando assaltavam, davam uma percentagem, mas nunca se sabia qual era a percentagem e tal.
Dentro da prisão, havia um tipo chamado Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue.
O Gegê do Mangue, ele foi criado na favela do Mangue, perto da Vila Madalena, então ele conviveu muito com o 'playboy', e ele começou a entender o processo da chegada da droga no Brasil e da droga de qualidade aqui em São Paulo e da erva.
E o Gegê do Mangue propõe ao Marcola e ao Roberto Soriano, conhecido como Tiriça, que eles montem um sistema em que consigam cortar um intermediário.
E esses tipos começam a organizar-se dentro da prisão para criar esse sistema de...
apanhar a substância ali e não a trazer para cá, mas sim exportá-la em dólares.
E eles criam a sintonia do progresso. E então o primeiro comando começa a ser financiado pelo tráfico de estupefacientes, pelo comércio de estupefacientes.
Hoje estima-se que anualmente eles exportam milhares de milhões de dólares para fora do país.
O que acontece? O GG do Manga sai da prisão, recebe um habeas corpus e vai aproveitar a vida dele porque tem mansões, tem uma série de coisas.
E o GG do Manga é executado, está bem? E executado a mando de alguém de dentro do primeiro comando.
E então descobriu-se, ainda está a ser investigado, está bem? Ainda não foi comprovado, é uma teoria do Ministério Público.
De que um indivíduo chamado Fuminho, que era um grande exportador de estupefacientes, mas não ligado ao primeiro comando, mas amigo do Marcola, teria mandado tirar a vida do GG do Manga.
E então o Marcola, de certa forma, para toda a massa carcerária, teria concedido um perdão tácito ao Fuminho, que foi o indivíduo que toda a gente pensou que teria mandado executar o GG do Manga, só porque era amigo dele.
Isso ajudou a prejudicar um pouco a liderança do Marcola, além de já estar desgastada com o tempo que passava.
Ele teve uma discussão com o Birosca, que era um dos presos mais respeitados, era um preso que pagava pensão para filhos de presos, pagava autocarros, uma série de coisas, e o Birosca foi executado e até hoje ninguém sabe bem porquê.
Mas ele andava a dizer que o Marcola e a esposa poderiam estar a ceder informações, ele estava a dizer algumas coisas contra o Marcola, está bem?
E então ele foi executado e isso fez com que as pessoas se focassem ainda mais nesse desgaste que ele estava a ter na liderança.
Lá dentro da prisão, o Tiriça estava a ser julgado por alguns atentados que aconteceram contra agentes prisionais federais.
E os advogados usaram um áudio em que o Marcola estava a conversar com um guarda prisional, dizendo que o Tiriça era psicopata.
Eu sou um tipo perigoso de verdade. Sou mesmo. Mas não no sentido que vocês imaginam. De violência gratuita. Eu poderia tornar-me um psicopata desses.
Isso de certa forma quebrou a tese do Tiriça de que não era ele, o Marcola ficou ainda mais prejudicado.
Os indivíduos teriam tentado expulsar o Marcola e o Marcola, mesmo moribundo, conseguiu reverter isso e expulsou os indivíduos que se levantaram contra eles.
Mas ainda está em guerra, ainda está em conflito, é algo que ainda está a desenrolar-se na história.
Capítulo Final Padrinho Poderoso?
Estou desanimado, não percebeste isso. Não estou.
Eu sei que não, amor. Achas que estou desanimado? Achas que tenho cara de desanimado?
Pode ter p... muralha, pode ter tanque de guerra, pode ter ponto 50, pode ter o... Tenho cara de derrotado?
Então, quer dizer, estou vivo. Tu disseste-me, vive.
Eu já não queria viver.
Então, o que acontece? No Brasil, geralmente, hoje cumpre-se apenas, cumpre-se 40 anos em regime totalmente fechado, está bem?
Antigamente eram 30.
Então, as pessoas dizem, ah, o Marcola está preso desde 87, daria aí mais ou menos 36 anos, 37 anos preso, certo?
Só que ele foi condenado outras vezes.
Ele teve uma condenação na Operação Ethos, que era uma operação que, enfim, eh, tinha advogados envolvidos, uma série de coisas.
E o Marcola foi condenado e então apanhou mais 60, 80 anos, o que fez com que a pena dele começasse a contar de novo.
Pelo nosso ordenamento jurídico e pelas denúncias do Ministério Público, muito provavelmente o Marcola talvez passe o resto dos seus dias dentro de uma prisão.
Hoje o Marcola encontra-se na prisão de Brasília porque foram descobertos dois planos para o tirar de lá, um de 60 milhões.
Que em Brasília, além de ter uma muralha na penitenciária federal, tem ali o Quartel-General do exército, tem a Polícia Federal, a base da Polícia Federal, tem a Polícia Legislativa, a Força Nacional, a Polícia...
Federal, a Polícia Militar de Brasília, e tem todas as polícias e guardas municipais da cidade, satélite e arredores.
E tem o COT, o setor do COT que é a unidade antiterrorista da Polícia Federal, que são os tipos altamente preparados.
Seria muito difícil ter mercenários no mundo que conseguiriam enfrentar um COT da vida,
que são tipos que praticamente só vão trabalhar em situações que são muito graves mesmo.
Eles vão socorrer a elite da elite da polícia.
O meu medo é que eles o matem.
Vai ver o perder?
Não.