Manuscrito proibido, ocultismo brutalista e propaganda de guerra vintage

O Mito das Teorias da Conspiração (maçonaria, satanismo e ocultismo na política – Parte 4 de 6)

Descrição

Propagandas ideológicas sempre empregam teorias da conspiração, figuras de monstros, animais peçonhentos e criaturas diabólicas para atribuir um sentido nefasto ao adversário. Inscreva-se http://bit.ly/canaldoAndre Este vídeo analisa uma série de imagens utilizadas na fabulação de teorias da conspiração no século XX. Série completa https://bit.ly/mitosemitologias (Parte 1) Religião e política se misturam? https://bit.ly/3IscECX (Parte 2) Política, religião e o inconsciente https://bit.ly/3uBls3H (Parte 3) A teoria da conspiração judaica https://bit.ly/3NTeGNu (Parte 4) O mito das teorias da conspiração https://bit.ly/3ywOD8S (Parte 5) O mito do heroi salvador https://bit.ly/3IrEwXI (Parte 6) O mito da era de ouro https://bit.ly/3nSqFjy Referências bibliográficas GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Cia das Letras, 1987. ----- Nas mais diversas peças de propaganda ideológica da história do século XX, a gente pode observar que o padrão das narrativas das teorias da conspiração, em geral, reproduzem, essencialmente, as imagens míticas da descida progressiva para o abismo, para o subterrâneo e para as trevas. Capitalistas contra comunistas. Antissemitas contra judeus. Liberais contra socialistas. Nazistas contra comunistas e vice versa. Todas as doutrinas ideológicas se empenharam para utilizar esses tipos de imagens para carregar o inimigo com um espectro sombrio, maléfico e diabólico. É quase sempre à noite que os conspiradores combinam de se encontrar para tramar os seus planos secretos. Esses inimigos usam vestimentas escuras e sombrias. Os homens de preto são a representação clássica da organização secreta que atua no controle do planeta. E a noção de que eles atuam no subterrâneo e todas as suas variações – a caverna, a cripta, o porão, o andar secreto no subsolo – tudos esses símbolos têm um papel essencial na construção do discurso da conspiração. Escritores de livros de aventuras sabem disso e utilizam essas imagens com muita desenvoltura. Eles percebem que as pessoas se impressionam muito com essas descrições. Escritores envolventes sabem manipular a angústia dos leitores com tanta segurança, que muitos passam a desconfiar, acreditar e mesmo jurar que aquela história é verdadeira. A partir de imagens arquetípicas, que nos causam temor desde sempre, como a escuridão, a sombra, o nevoeiro, a tempestade que se anuncia, escritores introduzem os leitores em um mundo incompreensível e, exatamente por isso: amedrontador. Surgidos sempre de lugares longínquos, misteriosos, os homens de preto têm a função de encarnar a ameaça do não-familiar, do Outro, do Estrangeiro no sentido mitológico do termo. A ameaça que essas figuras inspiram é aquela que jamais deixou de assombrar os pesadelos das cidades pacíficas e ordeiras: a do vagabundo , que com a sua simples presença rondando os bairros já ameaça os lares felizes. Ou do forasteiro misterioso que traz a doença e a epidemia, e que faz a colheita apodrecer e o gado morrer. Ou a do intruso que invade as casas das famílias e provoca perturbação e a ruína. “A insegurança e o medo começam com a passagem dos desconhecidos que vagueiam na noite” E é na sombra também que se escondem os animais imundos. É da sombra que eles surgem. Não é à toa que as imagens cuidadosamente escolhidas para representar os inimigos de modo repulsivo procuram sempre associar o outro a um bestiário mítico que causa arrepios no inconsciente. Esse bestiário reúne todo animal que rasteja, se infiltra e se esconde, que é ondulante e viscoso, que é portador da sujeira e a infecção. A serpente, o rato, a sanguessuga, o polvo... e entre os animais repulsivos, a imagem da aranha é uma das mais poderosas. E não é por acaso. A aranha é o animal peçonhento que tece a sua armadilha com uma paciência meticulosa, envolve as suas vítimas, entrelaçando a presa no emaranhado de suas teias, até devorá-la lentamente. Pela sua capacidade de se multiplicar silenciosamente e espalhar a doença de forma invisível, a imagem da praga foi amplamente utilizada nas propagandas ideológicas para atribuir um sentido repulsivo e instigar o ódio e o desejo de extermínio do inimigo. O porco que se alimenta do lixo, da podridão e da sujeira, e também o lobo assassino, de olhos de fogo e sedento de sangue, são outros animais que costumam fornecer imagens poderosas nas disputas simbólicas da propaganda ideológica. Mas em uma perspectiva mitológica, as propagandas criadas para associar uma imagem torpe ao adversário político podem evoluir muito rapidamente desse bestiário sombrio e repulsivo para uma representação literalmente maléfica e diabólica do outro. #Mito #Conspiração #Ideologia

Transcrição completa

No vídeo anterior, falámos sobre o mito da conspiração judaica para ilustrar alguns padrões que conseguimos encontrar em várias narrativas da mitologia do complô.

Neste vídeo, vamos analisar vários exemplos históricos da presença de animais peçonhentos, monstros e criaturas demoníacas no imaginário político do século XX.

As diferenças entre política e religião são mais nebulosas do que costumamos admitir.

Nas mais diversas peças de propaganda ideológica da história do século XX, podemos observar que as narrativas das teorias da conspiração...

...em geral reproduzem essencialmente a imagem mítica da descida para o abismo, para o subterrâneo e para as trevas.

Capitalistas contra comunistas, antissemitas contra judeus, liberais contra socialistas, nazistas contra comunistas e vice-versa.

Todas as doutrinas ideológicas se empenharam em utilizar estes tipos de imagens para carregar o inimigo com um espectro sombrio, maléfico e diabólico.

É quase sempre à noite que os conspiradores combinam encontrar-se para tramar os seus planos secretos.

Estes inimigos usam vestimentas escuras e sombrias. Os homens de preto são a representação clássica da organização secreta que atua no controlo do planeta.

A noção de que eles atuam no subterrâneo e todas as suas variações - caverna, cripta, porão, andar secreto no subsolo - todos estes símbolos têm um papel essencial na construção do discurso da conspiração.

Escritores de livros de aventuras sabem disso e utilizam estas imagens com muita desenvoltura. Eles percebem que as pessoas se impressionam muito com estas descrições.

Escritores envolventes sabem manipular a angústia dos leitores com tanta segurança que muitos passam a desconfiar, a acreditar e mesmo a jurar que aquelas histórias são verdadeiras.

A partir de imagens arquetípicas que nos causam temor desde sempre, como a escuridão, a sombra, o nevoeiro, a tempestade que se anuncia, os escritores introduzem os leitores num mundo incompreensível e, exatamente por isso, amedrontador.

Surgidos de lugares longínquos, misteriosos, os homens de preto têm a função de encarnar a ameaça do não-familiar, do outro, do estrangeiro no sentido mitológico do termo.

A ameaça que estas figuras inspiram é aquela mesma que jamais deixou de assombrar os pesadelos das cidades pacíficas e ordeiras: a do vagabundo...

...que, com a sua simples presença rondando os bairros, já ameaça a felicidade dos lares;

a do forasteiro misterioso que traz a doença e a epidemia, que faz a colheita apodrecer e o gado morrer;

a do intruso que invade as casas das famílias e provoca a perturbação e a ruína.

E é na sombra também que se escondem os animais imundos. É da sombra que eles surgem. Não é em vão que as imagens cuidadosamente escolhidas para representar os inimigos de modo repulsivo procuram sempre associar o outro a um bestiário mítico que causa arrepios no inconsciente.

Este bestiário reúne todo o animal que rasteja, se infiltra e se esconde, que é ondulante e viscoso, que é portador da sujidade e da infeção: a serpente, o rato, a sanguessuga, o polvo...

E, entre os animais repulsivos, a imagem da aranha é uma das mais poderosas.

Não é por acaso. A aranha é o animal peçonhento que tece a sua armadilha com uma paciência meticulosa, envolve as suas vítimas entrançando a presa no emaranhado das suas teias até devorá-la lentamente.

Pela sua capacidade de se multiplicar silenciosamente e espalhar a doença de forma invisível, a imagem da praga foi amplamente utilizada nas propagandas ideológicas para atribuir um sentido repulsivo e instigar o ódio e o desejo de extermínio do inimigo.

O porco, que se alimenta do lixo, da podridão e da sujidade, e também o lobo assassino, de olhos de fogo e sedento de sangue, são outros animais que costumam fornecer imagens poderosas nas disputas simbólicas da propaganda ideológica.

Mas, numa perspetiva mitológica, estas propagandas utilizadas para associar uma imagem torpe ao adversário político podem evoluir muito rapidamente deste bestiário sombrio e repulsivo para uma representação literalmente maléfica e diabólica do outro.

E é assim que as propagandas começam a criar e disseminar imagens para associar o adversário ao reino das trevas.

E aí o defensor da outra ideologia deixa de ser um adversário para se tornar um inimigo.

O outro é aquele que se apodera das crianças à noite, é o assassino torpe e o estrangulador, é o bárbaro que mata com prazer, é o inimigo desumano e, mais do que isso, inumano, que parece não pertencer mais à espécie humana.

E assim o outro passa a ser representado de forma sucessivamente degradante: primeiro como um veemente psicopata;

depois como um monstro antropomórfico, uma fera literalmente sanguinária;

e finalmente como um espírito sobrenatural, um fantasma, uma entidade apocalíptica...

...até alcançar o mais baixo nível de representação: a besta, o demónio integrante das legiões de Satanás, ou então o diabo em pessoa.

Quando as representações políticas alcançam este grau de intensidade, estas propagandas ideológicas acabam simplesmente por retomar aquele horror primitivo que é sempre atualizado nos mais diversos períodos históricos, justamente porque é uma imagem primordial, constitutiva do nosso inconsciente.

E diante de toda esta angústia, as sociedades tendem a experimentar uma efervescência mitológica que deixa as pessoas particularmente sensíveis e prepara o terreno para a criação do mito que vai anunciar-se como aquele capaz de combater a conspiração em nome do povo.

E é assim que surge o mito do herói salvador, aquele que vai libertar o povo das correntes, da opressão e do mal. Esse é o assunto do próximo vídeo.