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ITADORI e a DEPRESSÃO SORRIDENTE | Psicologia Jujutsu Kaisen

Descrição

Itadori não possui "depressão sorridente", porém todo o seu contexto no anime me fez refletir sobre o tanto que as vezes escondemos o que estamos sentindo, para não impactar o outro, a ponto de negligenciarmos a nós mesmos. Muitos protagonistas de anime costumam demonstrar o clássico sentimento de "empatia", mas nem todos eles demonstram a chamada "Empatia Assertiva", empatia é a habilidade de conseguir ver o mundo através dos olhos do outro, mas ela é excesso pode fazer com que você se sinta sobrecarregado em alguns momentos, não compreendido. Itadori parece sofrer com isso, é sempre os outros primeiro, e com isso vem outros sentimentos como afastamento e culpa, vamos refletir hoje sobre um dos melhores protagonistas dos últimos tempos. 📝 LINKS E REFERÊNCIAS: Richards, J. M., & Gross, J. J. (1999). Composure at any cost? The cognitive consequences of emotion suppression. Personality and Social Psychology Bulletin, 25(8), 1033-1044. Gintis, H., Henrich, J., Bowles, S., Boyd, R., and Fehr, E. (2008). Strong reciprocity and the roots of human morality. Soc. Justice Res. 21, 241–253. doi:10.1007/s11211-008-0067-y Green, S., Lambon Ralph, M. A., Moll, J., Deakin, J. F., and Zahn, R. (2012). Guilt-selective functional disconnection of anterior temporal and subgenual cortices in major depressive disorder. Arch. Gen. Psychiatry 69, 1014–1021. Deffenbacher JL, Oetting ER, Lynch RS. Development of a Driving Anger Scale. Psychological Reports. 1994;74(1):83-91. doi:10.2466/pr0.1994.74.1.83 Figley, C. R. (Ed.) (1995). Compassion fatigue: Coping with secondary traumatic stress disorder in those who treat the traumatized. NY: Brunner/Mazel. https://www.researchgate.net/publication/278412995_The_Costs_of_Hiding_and_Faking_Emotions_The_Case_of_Extraverts_and_Introverts Hermes M, Hagemann D, Naumann E, Walter C. Extraversion and its positive emotional core--further evidence from neuroscience. Emotion. 2011 Apr;11(2):367-78. doi: 10.1037/a0021550. PMID: 21500905. ✍🏻 Rafael Beserra - Psicólogo Clínico e Organizacional - CRP-01/23540 ME MANDE MENSAGEM! 📧 Instagram: https://www.instagram.com/rafaelbeserra.psicologiaanimes/ 📧 Facebook: https://www.facebook.com/psicologiadosanimes/ MEU CANAL DE ANÁLISE DE SÉRIES! 🎬 https://www.youtube.com/channel/UCpnnZeBp4hTshGdhSjM21tA/featured

Transcrição completa

Existem certas ocasiões em que um homem tem de revelar metade do seu segredo para manter oculto o resto.

Eu sou o Rafael, psicólogo, e sim, existem extrovertidos solitários.

Hoje é dia de refletirmos sobre um dos protagonistas mais carismáticos dos animes: Yuji Itadori. Há spoilers do anime, não do mangá. Vamos lá. O grande herói da série tem dentro de si o maior vilão.

Não no sentido de que o Itadori é uma pessoa má, mas sim que o Sukuna, teoricamente, a maldição mais forte da série, está dentro do Itadori.

Itadori é outro protagonista que discorre bastante sobre o sentido de empatia e de sacrifício pelos outros. Só que no caso dele é um pouco diferente. Não é bem uma empatia assertiva. Existe empatia má?

Sim, quando ela é em excesso.

A síndrome de desgaste por empatia, termo cunhado pelo psicólogo Charles Figley, é exatamente quando alguém tem uma exaustão emocional, justamente pelo excesso de empatia, que às vezes pode ocasionar sentimentos de autoculpa.

Por se sentir sempre mal quando não consegue ajudar alguém, por exemplo, a ponto de ter um desgaste.

E é isso que poderia estar a acontecer com o personagem de hoje.

Coisa, inclusive, de que o Nanami está a fugir, não é?

Como eu disse no vídeo dele.

Está bem, mas vamos pensar no contexto dele, olhe só.

Itadori tem de apanhar todas as partes do Sukuna. Com isso, o Sukuna ficará completo, e depois o Itadori vai acabar por ser sacrificado, porque vai morrer junto com o Sukuna.

E nesse intervalo de tempo, o Itadori vai tentar salvar o máximo de pessoas possível.

Para depois, no final, ele ser sacrificado.

Só que antes, não era assim.

Itadori, a princípio, era alguém que não tinha poder algum.

Só que ele tem muitas qualidades de um atleta.

Força, velocidade. Ele é quase um super-humano, tipo o Capitão América.

E além disso tudo, ele é muito bom em questões sociais.

O tipo simplesmente faz amigos de forma muito fácil.

E assim como o Satoru Gojo, ele é extremamente extrovertido.

Ou seja, o oposto de introversão.

O Itadori consegue conversar com qualquer pessoa.

Convida para sair, independentemente de há quanto tempo ele conhece aquele indivíduo.

Para ele, tanto faz.

A mãe do Junpei, que ele tinha acabado de conhecer, convida-o para almoçar em casa.

E ele simplesmente aceita.

Poxa, quando eu ia a casa de um amigo, quando estava com fome, eu fingia que não estava.

Dizia que comia pouco, não queria repetir mesmo querendo.

A Nobara diz uma coisa interessante sobre ele.

O Itadori é aquela pessoa que traz a sua própria cadeira e senta-se.

Sabe aquela pessoa que entra na sua vida e quando se apercebe, já é amigo dela?

Então, este é o Itadori.

Muitos estudos sugerem que pessoas extrovertidas são mais felizes, mais ativas, assertivas.

Enquanto os introvertidos são descritos como mais calmos, passivos e menos sociáveis.

Uma hipótese para isso é que tendências extrovertidas, como mostrar ter uma grande energia, comunicar-se muito bem, como é o caso do Yuji.

Yuji, aí estou a falar de Yuji, é o PlayStation, não é?

Essas características são muito valorizadas em muitas sociedades.

E o que muitos estudos sugerem é que os extrovertidos são felizes porque vivem em culturas que recompensam o seu comportamento.

Basta pensarmos, de forma rápida, olhando, parece que o Gojo e o Itadori são mais felizes que o Nanami e o Megumi, por exemplo.

Mas a questão do Itadori é um pouco ou muito mais profunda que isso.

Porque como ele próprio se define, ele é alguém sozinho.

Ele define-se como um lobo solitário, alguém que não se abre muito.

E que, apesar de falar bem e de fazer muitos amigos, ele expressa-se pouco sobre ele mesmo.

Tanto que não sabemos nada sobre o passado dele.

Até do Megumi já mostrou um flashback, dele não.

Só que dois acontecimentos ocorrem na vida dele e são extremamente impactantes.

Na verdade, seria impactante para qualquer pessoa.

Que é a perda de um ente querido e uma mudança drástica na sua própria essência.

Itadori perde o seu avô.

Como ele mesmo diz, era como se fosse um pai para ele.

A morte de alguém marca-nos e, dependendo da pessoa, marca de forma profunda.

E dependendo da forma como acontece, aquilo pode mudar a sua perceção por muito tempo.

são afetados por um luto significativo até aos 16 anos.

Lutos significativos são classificados como uma perda próxima que vai desde a morte de um animal de estimação, que é o primeiro contacto com a morte que geralmente uma criança tem, até à perda de uma figura parental.

Só que tudo isso para ele acontece de forma rápida, tanto a perda do seu avô, quanto conhecer um novo mundo, o mundo dos feiticeiros.

Onde ele tem uma nova visão do que é a realidade, porque as pessoas comuns no anime meio que não conhecem a verdade do mundo.

Ele literalmente sai da Matrix.

Tanto que nem dá tempo de lutar e passar por um luto.

A impressão que dá é que essa fase dele vai sendo encaixada noutros momentos de maior reflexão.

Então o Itadori rapidamente decide viver para proteger as pessoas.

O seu avô diz-lhe antes de morrer que ele deveria fazer isso porque é forte.

E esse é o gatilho para ele, no início, se sacrificar tentando salvar os seus amigos.

E ele acaba por comer um dos dedos amaldiçoados do Sukuna.

E aí, como eu disse, esse ser passa a viver dentro dele.

A questão é que a culpa, sentimento esse que está ligado à empatia, e que a maldição que está dentro dele não tem um pingo, nada, zero, intensificou-se nele devido a esse novo propósito de vida dele, de querer dar no mínimo uma morte digna para todos.

O Itadori resolve digerir uma parte do Sukuna, muito por influência desse novo modo de vida dele, que é colocar as outras pessoas acima dele mesmo.

Ele começa a sentir-se demasiado responsável pelas outras pessoas.

E com isso ele passa, em alguns momentos, a esconder o que de facto está a sentir.

É como se ele quisesse que ninguém se preocupasse com ele de facto.

Sabe aquela pessoa que não gosta de preocupar ninguém? Não, está tudo bem. Despreocupa, não.

Mas no fundo está a sofrer. Esse é o Itadori.

E esconder sentimentos autênticos pode levar-nos a uma espécie de dissonância emocional,

que surge em situações que criam inconsistência entre o autoconceito e o comportamento.

Ou seja, quando a pessoa passa repetidamente a expressar emoções que não condizem com o que ela está a sentir.

O Itadori tenta alegrar as pessoas ao seu redor.

Pensa mais nos outros do que nele mesmo.

Ele tenta sempre alegrar os outros com o seu astral e tenta não mostrar esse lado mais deprimido dele, não mostrar que está a sofrer.

As pessoas geralmente escondem as suas emoções por várias questões.

Em alguns momentos fazemos por questões sociais, do tipo, não quero parecer fraco.

Ninguém me vai entender mesmo. Tipo esses pensamentos.

Os benefícios de esconder emoções negativas ou fingir emoções positivas podem ser baseados nas suposições de que pessoas que expressam mais emoções negativas são vistas como pessoas menos agradáveis,

menos amigáveis e menos populares do que aquelas que escondem essas emoções ou fingem emoções positivas.

Os psicólogos Richard Gross concluíram dois estudos investigando os efeitos da supressão das emoções no funcionamento cognitivo.

Pessoas que tendem a manter pensamentos reprimidos e sentimentos engarrafados ou bloqueados são mais propensas a desenvolver problemas de saúde,

como exaustão emocional, baixa imunidade e depressão.

O Itadori meio que quer passar uma imagem de alguém feliz, que está tudo bem, mas no fundo parece que não está.

Ele pergunta ao Gojo se muitas pessoas desaparecem por causa das maldições.

E ele acaba por descobrir que era pior, que as pessoas tinham mortes horríveis por elas.

E isso para ele daria ainda mais sentido a esse propósito dele.

Mais do que isso, na cabeça dele torna-se uma obrigação.

Esse senso de proteção dele faz o Nanami surpreender-se.

Tanto que o Nanami olha para o Itadori e pensa: é sempre os outros primeiro.

Só que o processo de desenvolvimento dele é bem amplo, porque ele passa a culpar-se bastante por todo o mundo que ele não consegue salvar.

Ele pensa: eu sou o único, a chave principal para selar o Sukuna.

E ao mesmo tempo que essa questão lhe deu um propósito maior de escolha, afinal agora ele não precisa escolher, ele já tem um propósito fixo para ele,

só que isso ao mesmo tempo lhe deu um senso de responsabilidade muito grande e acabou por vir com esse sentimento de culpa.

Pessoas com transtorno depressivo maior são mais propensas a experimentar emoções morais relacionadas à autoculpa.

E sim, pessoas alegres que se mostram alegres, podem sim estar com depressão.

Não é o caso do Itadori.

Há um termo chamado depressão sorridente.

A pessoa demonstra alegria, felicidade num determinado momento, mas depois volta ao estado original.

A depressão sorridente entra ali no DSM-5 como outro transtorno depressivo

está deprimido, mas aparenta estar feliz. Esconde sintomas angustiantes, como elevada autodesvalorização, baixa autoestima e desesperança, que não são percebidas socialmente.

No momento mais triste da primeira parte do anime, o Itadori confronta essa falta de omnipotência dele, já que falha em dar uma morte digna a alguém.

E essa pessoa era alguém próximo a ele. O Junpei era alguém que ele tinha acabado de conhecer, o que não significa muito para o Itadori.

E acredito que ali foi um dos momentos mais honestos do Itadori. O Mahito é justamente a personificação de alguém que não quer saber desse conceito de boa morte do Itadori.

E além disso, tem ali a presença do Sukuna dentro dele, a rir daquela situação também, junto com o Mahito.

As próximas palavras proferidas pelos meus lábios vieram tão profundamente do meu íntimo que quase fizeram com que todas as coisas que eu já disse parecessem uma mentira.

O Itadori diz esta frase e eu achei-a mágica, porque exprime justamente os sentimentos que o Itadori tinha dentro de si, que ele estava a esconder.

E um desses sentimentos era a raiva. O psicólogo Jerry Daffenbacher diz que a raiva é a combinação de um evento desencadeador.

No caso do Itadori, a morte do seu amigo por uma maldição, também pelas características de um indivíduo, ou seja, certas características que tornam as pessoas mais propensas a sentir raiva.

Como, por exemplo, baixa tolerância à frustração, e também quando as pessoas estão cansadas, ansiosas ou já stressadas previamente.

E o último fator é a avaliação cognitiva. Ficamos com raiva quando avaliamos uma situação como culpada, injustificada, punível.

E tudo isso levou o Itadori a agir e a ficar num estado de fúria. É curioso porque o Itadori aprende com o Megumi que tem de ter ali uma prioridade.

Em quem ele vai salvar. Depois ele aprende com o Gojo que a força seria ali uma autonomia para ele poder salvar mais pessoas.

E depois ele aprende com o Nanami que ele não tem controlo sobre algumas coisas e que não vai conseguir salvar toda a gente.

E que há coisas que simplesmente estão fora do controlo dele. E quando o Itadori percebe isso, o Nanami diz que agora ele se tinha tornado um feiticeiro Jujutsu.

O Itadori é um dos protagonistas que mais me marcaram, porque eu já perdi pessoas que eram alegres por fora, mas sofreram muito por dentro.

E eu acabei, de certa forma, a ver essas pessoas no Itadori. Ajudar os outros é algo incrível, fundamental.

A empatia é algo incrível, mas pense em si primeiro. Se estiver a sentir-se assim, procure ajuda.

Afinal, não é obrigado a colocar-se em chamas para manter os outros aquecidos. Goste, subscreva, partilhe.

Em outubro... É apenas o começo.

(Efeitos sonoros) Death Note.