Globo Repórter | 200 anos da imigração alemã 26.07.2024 (Completo) - TV Globo
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Olá, boa noite. Na semana em que a chegada dos primeiros colonos alemães ao Brasil completa 200 anos, o Globo Repórter faz uma viagem no tempo.
Acompanhámos um grupo que veio de uma pequena cidade da Alemanha em busca das origens no sul do Brasil.
As tradições preservadas por descendentes de alemães na cidade imperial de Petrópolis, na Serra Fluminense. Até a construção do palácio de Dom Pedro II contou com mão de obra germânica.
Que legado deixaram os imigrantes para o desenvolvimento da nossa indústria?
E a conexão solidária motivada pelas inundações no Rio Grande do Sul?
A nossa viagem começa na região de onde saíram os primeiros imigrantes há mais de dois séculos.
Hunsrück, uma região de serra muito verde. Fica no sudoeste da Alemanha, o país mais rico da Europa. Região que hoje é conhecida pela produção de energia eólica.
Além da natureza exuberante, a arquitetura típica chama a atenção. As casas cobertas de ardósia.
O turismo é um dos motores da economia local. Os visitantes conhecem algumas curiosidades da época em que os alemães deixaram o lugar para imigrar para o Brasil.
É uma forma que a comunidade tinha de comunicação, é o sino então em cima do Backhaus.
Parece uma igreja, não é? Mas na verdade é só uma casinha de fazer o pão.
Há oito anos, a gaúcha Solange guia brasileiros por aqui. Gente interessada não exactamente nas belezas do lugar, mas nas próprias origens. Como a própria Solange.
Ela faz parte da sexta geração de uma família que partiu do Hunsrück para o Rio Grande do Sul.
E estes são trajes típicos da época do Hunsrück, da época em que os nossos antepassados imigraram.
As mulheres vestiam-se normalmente desta forma e os homens também.
A aldeia de Gehlweiler tem menos de 300 habitantes.
Foi cenário para o filme alemão "A Outra Pátria - Crónica de uma Saudade", que conta a história de uma família que decidiu imigrar para o Brasil no século XIX.
Para quem não conhece a história, é difícil imaginar o que levou tantos alemães a deixarem para trás o que hoje é um dos países mais desenvolvidos do mundo em busca de oportunidades numa terra tão distante.
Vamos visitar uma das casas da aldeia e entrar numa espécie de túnel do tempo.
Por dentro, a maior parte das estruturas antigas ainda está preservada ou mantém as características originais. O Heribert mostra como este povo vivia há dois séculos.
Ele está a explicar que na época não havia aquecimento. Então o cómodo mais quente era aquele quarto ali que fica ao lado da cozinha, justamente por causa do fogo.
E quem acabava por dormir ali eram as pessoas doentes ou mais velhas.
Ele está a mostrar aqui como era o sapato de antigamente. Aqui de madeira e aqui de couro.
O Heribert conta que os sapatos eram grandes porque tinham de servir a todas as pessoas da casa. E podiam usar do lado direito ou do lado esquerdo, porque era uma fôrma só.
Era uma vida muito dura, que ficou ainda mais difícil com uma crise climática que terá sido provocada pela erupção de um vulcão na Indonésia. O ano de 1816 ficou conhecido como "o ano sem Verão", trazendo ainda mais fome e miséria.
Era muito escuro. Um tempo de muita pobreza.
As pessoas não tinham o que comer. A fome tomava conta do país.
Muitos descendentes destas pessoas que fugiram da fome deixam mensagens emocionadas no livro de visitantes.
Tem uma aqui que foi escrita parte em português, parte em alemão: "Moramos num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. Aber hier em Hunsrück fühlen uns wie zu Hause. Mas aqui em Hunsrück a gente também se sente em casa."
A coragem dos imigrantes criou duas casas para este povo. A outra fica lá no sul do Brasil.
Interessante que no início do ano um grupo de alemães aqui da região do Hunsrück refez o caminho dos seus antepassados de há 200 anos.
Porto Alegre, Fevereiro de 2024. Muito antes das inundações que fecharam o aeroporto, estamos a esperar 28 alemães que estão a chegar aqui a Porto Alegre e vamos descobrir juntos o que vieram buscar ao Rio Grande do Sul.
Alguns já vieram várias vezes, outros estão aqui pela primeira vez. Antes de seguirem para a cidade de Igrejinha, dão uma rápida passagem por Porto Alegre.
O Cleberson é o guia. Descendente dos primeiros imigrantes, fala o mesmo dialecto que os visitantes.
O Otto conta que a viagem demorou 22 horas. Quando os imigrantes vieram, foram meses até chegar ao destino.
Imaginar vir, sair da sua terra, sair do seu estado, sair do Hunsrück, e vir de lá num barco até aqui, desembarcar aqui, e aí ter de enfrentar tudo o que enfrentaram aqui, sem saber exactamente o que seria, como seria...
O primeiro grupo de alemães chegou em 1824. Ficaram hospedados na Real Feitoria do Linho Cânhamo, hoje São Leopoldo. As levas de imigrantes que vieram depois foram ocupando o Vale do Rio Paranhana e fundando novas cidades, inclusive Igrejinha, que é o nosso destino.
Igrejinha tem hoje 40 mil habitantes. No século XIX, o único prédio era este casarão, conhecido como Casa de Pedra.
Este prédio foi o começo de tudo? Isto, aqui então que os alemães chegavam aqui na nossa região, onde tinham as mercadorias, nós temos o rio aqui próximo...
...então era um ponto de referência, a Casa de Pedra. Os imigrantes vinham de São Leopoldo para aqui para a região e tinham a referência Casa de Pedra, que era o único bem, o único imóvel de pedra aqui neste espaço.
A Marga tenta imaginar como foi a construção de tudo isto aqui. Foi com muito esforço e trabalho duro para conseguir um novo lar.
Na paragem da câmara municipal de Igrejinha, encontram um painel de um lugar bem conhecido: a cidade de onde vieram, Simmern, que também fica no Hunsrück.
A imagem pintada na parede reproduz uma pintura do século XVII. A torre lá no canto é chamada de Bastião. Era a antiga cadeia. De lá tem-se uma vista linda da cidade.
Na Idade Média, a cidade de Simmern, hoje gémea de Igrejinha, era uma cidade importante. A Andrea mostra o lugar onde mora. Lá em cima, atrás da igreja.
Esta é a igreja que a Andrea citou quando estava no Brasil. A casa dela é por ali, mas agora vamos encontrá-la num teatro.
O marido da Andrea é diretor de teatro. O Michel convidou-nos para um ensaio. A peça conta como os alemães foram parar ao sul do Brasil, incluindo no contexto a declaração de independência.
Independência ou morte!
A cena mostra Dom Pedro I a mandar um emissário para trazer os colonos. Para o diretor, os 200 anos da imigração são a oportunidade de contar esta história.
O Brasil precisava de colonos, agricultores, precisava de pessoas que fossem voluntariamente. E aqui havia muita carência. Nunca deve perder de vista a sua própria história, porque quem não valoriza a história, na verdade não tem futuro.
O interesse de Simmern por Igrejinha é evidente. A cidade gaúcha virou até nome de rua.
É claro que a cidade gémea também virou nome de rua em Igrejinha.
A próxima paragem é um culto especial, um culto de Kerb. O Kerb era uma festa que era realizada na inauguração da igreja numa determinada localidade.
O primeiro prédio que as famílias de imigrantes construíram era um galpão. Dormiam aí todos juntos. Depois, em mutirão, construíram as casas de cada família. Quando as casas estavam prontas, o galpão era transformado em igreja.
Era feito um culto de Kerb, o culto da inauguração da igreja. E depois uma grande festa que se repetia todos os anos.
Aqui do lado de fora, o grupo é esperado pela retreta, que é este pessoal de uma banda típica alemã. Eles vão acompanhá-los para uma grande festa.
O cortejo deixa a igreja para trás e percorre as principais ruas da cidade até chegar ao clube 10 de Novembro. É aqui que vai ser o Kerb.
Muita comida, música alemã... Nas antigas colónias, estas festas duravam dias. Nestes lugares, o Kerb é até hoje a mais importante das festas.
Do outro lado do Atlântico, as notícias demoravam a chegar. O que estava a acontecer com os imigrantes depois de se irem embora? O museu Hunsrück, o principal de Simmern, reuniu curiosidades.
Entre os objectos que os primeiros alemães teriam levado para o Rio Grande do Sul está um espeto. Definitivamente houve uma troca. Claro que as pessoas aqui dizem que nós inventámos, mas os brasileiros dizem que foram eles. Um belo exemplo de intercâmbio cultural. Pois, no fim está tudo orgulhoso do seu próprio churrasco.
O mais impressionante é que aqueles alemães bem simples faziam parte da primeira geração que sabia ler e escrever.
Aqui há cartas originais escritas há praticamente 200 anos. Aqui há uma troca de mensagens muito emocionante, porque pai e filho, pai no Brasil, filho aqui na Alemanha, ficaram quatro anos e meio sem ter notícias um do outro.
E aqui o pai diz: "Meu amado filho, estou tão feliz por finalmente ter notícias novamente."
Hoje, as notícias chegam depressa. A região de colonização alemã foi atingida pela inundação de Maio no Rio Grande do Sul.
Igrejinha enfrentou a sua maior cheia. O que vimos foram pessoas profundamente tocadas.
É muito difícil reconstruir as coisas, a vida social, os sonhos, os jovens. Tudo se perde na água e por isso emociona-me muito tudo o que o Brasil está agora a sofrer.
Agora a peça de teatro vai ser usada para angariar fundos. E a pequena Simmern mobilizou-se para ajudar a sua irmã no Brasil.
Estou em lágrimas. É uma grande preocupação nossa. Mas estou feliz por a cidade aqui estar a fazer o que pode e ter decidido ajudar.
O dinheiro enviado pelos alemães vem principalmente para esta escola de educação infantil aqui de Igrejinha, que foi muito afetada pela inundação de Maio.
Este é o vídeo que atravessou o Atlântico e comoveu os alemães: entulho, salas reviradas, lama e o esforço dos voluntários e funcionários para limpar o lugar.
Depois de limpo nem imaginamos o que era... Não há como imaginar. E quando se chega àquela lama, por onde começar? Por onde começar. Sempre que entrávamos nestes corredores a caminhar era lama de uns 15 cm...
Esta sala é a nossa sala do berçário 1. Nós tínhamos então aqui nesta sala um piso flutuante térmico, já que é usada pelos bebés, e hoje estamos a iniciar a manutenção desta sala.
A ajuda é de 43 mil euros, o equivalente a cerca de 250 mil reais.
Esta ajuda da Alemanha é ajuda de família mesmo. É maravilhosa, é como se víssemos uma luz ao fundo do túnel e pudesses sentir assim 'agora vamos conseguir chegar perto daquilo que tínhamos antes'.
Com este abraço, não é? Ai, ele é alemão! Há algumas semanas, o Cleberson foi visitar os amigos Otto e Marga, que juntos organizaram o grupo que foi ao sul.
Eles que nos acolheram com muito capricho e cheios de abraços. Beijo em alemão é "Kuss" e abraço é "Utermung".
Alemães tão conectados com o Brasil que já têm um jeitinho bem brasileiro. O Cleberson lembra-se da primeira vez que esteve na Alemanha.
No aeroporto, falou no dialecto que aprendeu em casa. E aí quando entreguei o meu passaporte a ele, a primeira coisa que me disse foi: 'Bem-vindo de volta a casa'.
Então isso deixou-me muito emocionado naquele momento, ouvir alguém da Alemanha a dizer 'Bem-vindo de volta'. O pequeno Christopher, filho do Cleberson, ainda não notou muita diferença desde que chegou à Alemanha.
É uma conexão que... os alemães... parece que ainda estou no Brasil.
Para o Otto são 25 anos a organizar viagens para conectar Brasil e Alemanha, passado e presente. Ele é presidente da Associação Amigos do Brasil em Simmern. Queria que 2024 fosse só alegria, mas a inundação mudou tudo.
Se nós não estivéssemos a 10.000 km, entravamos no carro e íamos para lá com os nossos trabalhadores, os nossos reformados. Nós íamos ajudar a cidade. Daqui só o que podemos mandar é dinheiro. Gostaríamos de estar só a comemorar. A nossa viagem no início do ano foi tão maravilhosa, divertimo-nos muito com os nossos amigos no Brasil.
Nas lembranças deles ficaram os passeios de Fevereiro, como este ao miradouro de Serra Grande. Para quem veio para cá pela primeira vez, foi a brasilidade que mais encantou. "As pessoas são muito carinhosas, abraçam a gente, e aqui é tudo como uma família. Isso eu realmente não esperava. É fantástico."
Laços que se renovam em 200 anos de história.
Daqui a pouco, a delícia dos doces alemães. "Olha só... Isso é muito bom."
E o conhecimento que os imigrantes trouxeram na bagagem e que ajudaram a desenvolver o país. A gente volta já.
Petrópolis. A cidade imperial foi um dos primeiros lugares no Brasil a receber imigrantes germânicos. Eles criaram raízes e ainda estão por aqui, perpetuando tradições.
Esta é a Bauerfest, a festa do colono alemão. Cerveja há aos montes.
Olha o palácio, que lindo. Salsichão branco, vermelho, croquete, salada de batata... Tem para todos os gostos.
Nesta barraca, o sanduíche de joelho de porco é o que mais sai. "É o prato principal da casa."
E há os doces. Os alemães sabem tudo de confeitaria. Agora, picada de abelha? "Esta nunca ouvi falar." "É uma picada doce, deliciosa, não faz mal nem dá alergia."
O nome picada de abelha, Bienenstich, é porque a pessoa que estava a fazer lá na Alemanha levou uma picada de abelha.
Gente, agora esta picada de abelha quero conhecer melhor quem a faz. Então vamos lá.
A Roseli vai mostrar-nos como se faz. "Vamos começar?" "Vamos começar. A primeira coisa é bater as claras em castelo, o açúcar, seis ovos, 250 g de açúcar..."
A receita completa encontra no site receitas.com. Fácil, não é? "É fácil. Toda a gente pode fazer receita alemã em casa."
Estas amêndoas têm açúcar, manteiga e mel. E aí distribuímos aqui em cima. Pois, picada de abelha tem de ter mel na história, não é? Tem de ter, se não não vale.
A Roseli adora preparar as receitas que aprendeu com a mãe. Ela é da quinta geração de uma família que chegou a Petrópolis em 1845. "Uma brasileira com coração alemão." "De coração, com certeza."
Chegámos agora... E o cheiro? Maravilhoso! Ai meu Deus, não têm ideia. Gostou?
Olha só, isso é muito bom. Esta picada de abelha está a valer, não é? Não dói nada, pois não? Não, esta não dói.
O traçado destas ruas foi desenhado por um alemão, o engenheiro Júlio Köhler. Encarregado das obras de construção da cidade, o fundador de Petrópolis foi também responsável por trazer tantos alemães para cá. A primeira leva chegou quase por acaso.
Em 1837, germânicos que estavam a viajar para a Austrália aportaram aqui no Rio de Janeiro e desentenderam-se com a tripulação. Sabendo dessa situação, Júlio Frederico Köhler, encarregado das obras desta área de Petrópolis, convenceu estas pessoas a permanecerem no Brasil e virem para Petrópolis.
O diretor do Museu Imperial tem orgulho em preservar e incentivar o conhecimento desta história. Aqui estão guardados documentos que mostram o interesse da família imperial em substituir a mão de obra escravizada pela europeia.
A intenção de trazer colonos germânicos para o Brasil fez parte de um programa, uma tentativa que costumamos chamar de 'branqueamento' do país. Na verdade, o Brasil era um país mestiço, com um grande contingente de pessoas escravizadas, e a ideia do governo era justamente trabalhar nesse sentido, ou seja, tentar diminuir esse percentual de pessoas mestiças no país.
Numa reforma recente no museu, um operário encontrou uma preciosidade.
Ele retirou a peça e percebeu uma inscrição e trouxe. Nós observámos que era um presente de dois funcionários que trabalharam na construção do palácio, porque deixaram os seus nomes e as suas funções.
Aqui temos o Simon Bäschlus de Flonheim e a data 1847. E aqui o Peter Schmitt de Colónia. Nós conferimos, os nomes deles constam no livro de receita e despesas da Fazenda Imperial de Petrópolis, portanto funcionários que trabalharam na construção do palácio e deixaram este presentinho para nós.
Poucas coisas são tão simbólicas da imigração alemã como as casas em enxaimel. Elas são o legado arquitetónico desta história. Mas quando veio a Segunda Guerra Mundial, qualquer referência à Alemanha passou a soar mal também por aqui, e o enxaimel caiu no esquecimento.
Até falar alemão, costume entre os descendentes, passou a ser reprimido pelo governo de Getúlio Vargas.
Chegou ao ponto de já não se saber nada de como fazer uma casa destas. E o senhor decidiu que queria fazer uma casa? E como fez? Tive de recorrer a um alemão e ele trouxe livros e ferramentas para fazermos da forma correta.
E quão complexo é construir e montar uma casa em enxaimel? Para comparar, na Alemanha um curso técnico equivalente à carpintaria de enxaimel leva cerca de três anos de formação.
Mão amiga, emenda de canto, emenda francesa, espiga com pino.
Em Blumenau, a família Volles trabalha no resgate da técnica construtiva criada na Alemanha da Idade Média, só com madeiras encaixadas, sem o uso de pregos. Eles já fizeram 50 casas nos últimos 15 anos.
É como um grande jogo de quebra-cabeças. Todas as peças são numeradas e marcadas para justamente identificar onde vai, em que conjunto vai e como vai ser montada.
A Rota do Enxaimel, na cidade de Pomerode, perto de Blumenau, concentra o maior acervo deste estilo arquitetónico no Brasil. E se depender dos Volles, vai espalhar-se por aí.
O negócio é fazer o enxaimel renascer. Sim, resgatar isso de forma ampla. É difundir mais o enxaimel, fazê-lo crescer novamente como era nos tempos antigos.
Há coisas que são feitas do mesmo jeito há muito tempo. A arte secular de soprar uma bola incandescente de vidro é uma delas. Chegou ao Brasil pelo Vale do Itajaí, com cristaleiros alemães.
O legado segue vivo nesta fábrica em Pomerode, com a habilidade de sopradores como o Denis. Quanto fazer cristal é tradição da sua família?
Isso veio do meu avô, passou para o meu pai, do meu pai passou para os meus tios, meus primos, e eu sou o último da linhagem, o último vidreiro. Vamos ver se o meu filho vai seguir esta carreira também.
O que a gente faz é arte. Uma arte coletiva, com muitas habilidades. Exige concentração. Se faltar concentração, a gente perde a peça.
Não se forma um soprador de cristal da noite para o dia. Menos ainda de um minuto para o outro.
Bem difícil de conseguir. Um exemplo é pegar numa vela, acendê-la e ficar a soprar para que a chama deite e não se apague. Isso é tentar soprar uma peça.
Os sopradores dão forma ao bojo de copos e taças. Gambistas habilidosos fazem as hastes e os pés. As peças vão para um forno onde a temperatura é regulada. Aí entra o talento dos lapidadores. Todo o processo do cristal artístico leva até quatro horas.
Eu amo demais. É a profissão que mais... Não tenho muitas palavras, mas deu-me uma família, consegui uma casa... Criei tudo o que tenho graças ao cristal. O cristal deu-me tudo. Não me vejo sem o cristal.
Os nossos antepassados aprenderam, passaram para nós, e agora temos o privilégio de passar esta chama para o resto, para o pessoal mais novo.
Esta historiadora conta que os imigrantes que vieram para a colónia de Blumenau tinham conhecimentos que ajudaram no desenvolvimento da região. E foi assim também noutros povoamentos alemães pelo país.
Vieram oleiro, carpinteiro, veterinário, médico. E naturalmente, num primeiro momento, o que desenvolveram? Ser o colono, lidar com a terra, a sua subsistência. A partir do momento que vencem essa etapa, passam a pôr em prática aquilo que sabiam fazer. E estes saberes são os embriões das nossas cidades e das nossas empresas.
Foi o que aconteceu em Jaraguá do Sul, no norte de Santa Catarina, quando três amigos descendentes de imigrantes juntaram forças.
O meu pai, seu Eggon, era um bancário, mas com cabeça de administrador. Ele conhecia o seu Geraldo, um mecânico de mão cheia. E o seu Werner era um amigo eletricista na cidade. Um dia os três num bar, no final do expediente a conversar, não havia cerveja gelada. O motor ia demorar três dias para vir de São Paulo. 'Está aí, vamos fazer uma fábrica de motores'.
Mas havia um problema: como fabricar motores elétricos numa cidade que vivia basicamente da agricultura? O modelo veio da Alemanha: criaram uma escola para ensinar os filhos de produtores rurais e de comerciantes.
Os três fundadores iam às escolas municipais e convidavam os alunos para vir no segundo turno para aprender elétrica, mecânica e eletrónica. Assim formaram as pessoas. Eu fui aluno da primeira turma.
A Stela fez o curso de eletrotecnia. Foi a primeira da turma de 98. Na minha época eram só quatro meninas, e agora olha só, temos várias meninas. Está muito diferente, está muito fixe.
Agora ela é gerente de projetos internacionais. Aquela menina que sonhava em viajar pelo mundo hoje está a viajar bastante como engenheira.
Esta relação íntima com a Alemanha, principalmente no início, foi fundamental para moldar o nosso modelo de gestão e formação de pessoas, para o nosso desenvolvimento tecnológico e também o nosso desenvolvimento de mercados.
A seguir, o naturalista alemão que viveu em Santa Catarina e ajudou a descrever a riqueza da biodiversidade brasileira. É já a seguir.
Em 200 anos de imigração germânica, é até difícil estimar o legado que os colonizadores deixaram ao país. No século XIX, as principais colónias estabeleceram-se em São Paulo, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Entre os cerca de 250 mil imigrantes, um foi chamado de "príncipe dos observadores da natureza".
A morar na colónia de Blumenau, com uma estrutura muito precária, um microscópio muito rudimentar e à luz de velas, ele conseguiu publicar mais de 200 trabalhos na Nature e na Science, que até hoje são as principais revistas da área biológica do mundo. Isso mostra a importância do legado de todo o trabalho dele.
Ele era Fritz Müller, que veio viver para a recém-fundada colónia de Blumenau, província de Santa Catarina. O ano era 1852.
Ele é formado em Filosofia e em Medicina, portanto um intelectual. E vem viver como um colono aqui. Isso, tem de derrubar a mata, plantar mandioca, plantar verduras para sustentar a família numa estrutura inexistente. Ao mesmo tempo encontra esta floresta linda aqui. E que acaba por instigá-lo, e ele vai tornar-se no futuro um grande observador e descritor desta natureza.
E fez isso andando com os pés descalços na Mata Atlântica do Vale do Itajaí. A certa altura, foi convidado para ser professor de Ciências Naturais em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis.
E aqui em Desterro chega às mãos do Fritz Müller um livro chamado 'A Origem das Espécies', do Charles Darwin, que é um dos livros mais importantes da história da humanidade. E a partir daí tudo muda para o Fritz Müller.
Fascinado, o naturalista começa a observar os crustáceos para testar a nova teoria. Isto aqui é uma craca e isto aqui é um camarão. E o Fritz Müller é a primeira pessoa no mundo que descobre que estes dois organismos têm o mesmo tipo larval. O que é uma evidência, portanto, de que os crustáceos têm um ancestral comum e isso é congruente com a teoria da evolução.
Os estudos foram reunidos no livro "Para Darwin", em que Fritz Müller apresenta uma série de argumentos a favor da teoria da evolução das espécies. O Darwin fica encantado com este livro, ele paga a tradução deste livro para o inglês e aí começa uma intensa correspondência entre o Fritz Müller e o Charles Darwin.
E é nessa época que o Darwin dá esse apelido muito carinhoso ao Fritz Müller de 'o príncipe dos observadores'. E essa correspondência vai durar até à morte do Darwin em 1882.
Tudo isso chamou a atenção do Museu Nacional no Rio de Janeiro, referência na produção científica no Brasil Império. Fritz Müller foi contratado para o cargo de naturalista viajante. Já estava com 54 anos e só então teve condições financeiras para se dedicar exclusivamente ao que mais gostava de fazer: pesquisar a fauna e a flora de Santa Catarina.
É deste tempo, quando volta a viver em Blumenau, um dos principais trabalhos de Müller.
Ele observou que estas borboletas, que são de espécies e géneros diferentes, têm um padrão de coloração muito parecido. E todas estas borboletas têm um gosto muito amargo para as aves, o que evita que sejam predadas. Os cientistas modernos chamam a este fenómeno mimetismo mulleriano, em homenagem a Fritz Müller.
O naturalista dos pés descalços nunca regressou à Alemanha. Morreu aos 75 anos. Está enterrado ao lado da mulher e das filhas no cemitério luterano de Blumenau. Mas o legado do príncipe dos observadores segue vivo.
Para todo o mundo um ótimo fim de semana e até ao próximo programa.