Alimentos ultraprocessados: os assustadores efeitos de experiência com gémeas

Descrição

Duas irmãs gêmeas foram acompanhadas em um estudo científico seguindo por duas semanas dietas diferentes - uma com alimentos ultraprocessados e outra só com comida fresca ou pouco processada. Os efeitos foram impressionates. "Deu um pouco de medo de ver esses resultados depois de duas semanas", afirmou Aimee, de 24 anos, após se alimentar de ultraprocessados durante a duração da pesquisa, feita por pesquisadores do King's College, de Londres, para o programa Panorama, da BBC. Nancy, a outra irmã gêmea, seguiu uma dieta com exatamente a mesma quantidade de calorias, nutrientes, gordura, açúcar e fibra. Mas só com alimentos frescos ou pouco processados. Pesquisadores e especialistas dizem que nos últimos anos têm se acumulado provas de que os alimentos ultraprocessados são prejudiciais para a saúde. Eles estão presentes em muitos alimentos, incluindo desde o pão integral a fórmula de leite para bebês, passando também por comidas prontas para microondas ou sorvetes. E quais os seus efeitos? Neste vídeo o repórter André Biernath, da BBC Nws Brasil, mostra os resultados do experimento com as gêmeas e explica por que o consumo de ultraprocessados preocupa os especialistas. Leia mais sobre esta história em https://www.bbc.com/portuguese/articles/c809pyredx9o Curtiu? Inscreva-se no canal da BBC News Brasil! E se quiser ler mais notícias, clique aqui: https://www.bbcbrasil.com #nutrição #alimentação #alimentaçãosaudável #ultraprocessados #ciência #bbcnewsbrasil

Transcrição completa

Desde a hora em que saiu da cama até ao momento em que carregou no play neste vídeo, é bem possível que o seu corpo tenha consumido diversos tipos de alimentos ultraprocessados.

Estão presentes em quase todas as dietas, do pão integral a alguns leites de fórmula infantil, refeições para micro-ondas ou gelados.

Investigadores e especialistas dizem que, nos últimos anos, têm surgido evidências de que este tipo de alimento é prejudicial para a saúde.

No Brasil, um estudo apontou que os ultraprocessados foram responsáveis pela morte de 57 mil pessoas num ano.

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, por sua vez, declarou que é altamente temerário associar mortes ao consumo de alimentos e contesta os métodos do estudo.

Mas o programa Panorama, da BBC, fez uma experiência com duas irmãs gémeas para demonstrar os efeitos dos ultraprocessados. Neste vídeo, mostramos o resultado.

1. A experiência

Antes de mostrarmos a experiência, vamos explicar o que são alimentos ultraprocessados. São chamados assim porque são produzidos com níveis muito elevados de processamento industrial.

A lista é longa, mas inclui o pão integral, os cereais de caixa açucarados, sopas instantâneas, iogurtes com aromas, fiambre, salsicha, gelado, batatas fritas de pacote, bolachas, refrigerantes e algumas bebidas alcoólicas, como o gin e o rum. Mas existem muitos outros.

Estão tão presentes na nossa dieta que, no Reino Unido, estudos indicam que metade dos alimentos que uma pessoa consome diariamente são ultraprocessados.

Este é Tim Spector, professor de epidemiologia do King's College de Londres. "Na última década, têm vindo a surgir mais provas de que a comida ultraprocessada é prejudicial de formas que não tínhamos pensado antes."

Spector diz que os estudos apontam para doenças como cancro, problemas cardíacos, acidentes vasculares cerebrais e demência. Este cientista foi encarregado de supervisionar a experiência com as gémeas Aimee e Nancy, de 24 anos, e que durou duas semanas.

"O que vamos fazer durante duas semanas: Nancy, vais seguir a dieta sem processamento industrial e, Aimee, vais fazer a dieta com ultraprocessados."

A dieta das duas tinha exatamente a mesma quantidade de calorias, nutrientes, gorduras, açúcar e fibras. Mas, ao fim das duas semanas, os resultados foram surpreendentes.

"Aimee, estiveste na dieta com alimentos ultraprocessados. Os teus resultados foram realmente muito diferentes dos da tua irmã. Foram muito piores. Os teus níveis de gordura no sangue subiram. Os teus lípidos, que são marcadores de doenças cardíacas, aumentaram. Os teus níveis de açúcar no sangue ficaram notavelmente piores. Ganhaste peso, quase 1 kg, e tu (Nancy) perdeste peso."

"Assusta ver o resultado em apenas duas semanas, não é?" "Imagine o que seria em 20 anos."

E onde está a diferença? Os cientistas apontam que as substâncias usadas na fabricação de ultraprocessados, como os conservantes, os adoçantes artificiais e os emulsionantes, não são usadas na cozinha de casa.

2. Os ingredientes

Os ingredientes de alimentos ultraprocessados têm o potencial de causar mais danos ao organismo. Um dos mais usados nos alimentos ultraprocessados é o emulsionante, que melhora o aspeto e a textura dos alimentos e contribui para prolongar a vida útil dos produtos.

"Aqui temos carboximetilcelulose (CMC), um dos emulsionantes mais comuns da indústria alimentar. Vou mostrar o que acontece quando adiciono água. E, rapidamente, torna-se algo parecido com uma cola."

Mas a indústria alimentar usa cerca de 60 tipos diferentes de emulsionantes. Estão na maionese, no chocolate, na manteiga de amendoim e nas carnes.

Segundo explica a professora Marion Nestle, especialista em política alimentar e professora de nutrição da Universidade de Nova Iorque, os alimentos ultraprocessados são os que dão mais lucro às empresas.

No entanto, há cada vez mais estudos a apontar que o consumo de emulsionantes está relacionado com várias doenças.

Mathilde Touvier, da Universidade Sorbonne, em Paris, lidera investigações bastante amplas para identificar de forma mais específica o impacto dos emulsionantes na saúde. Este estudo acompanha os hábitos de 174 mil pessoas. A investigação ainda precisa de ser revista pela comunidade científica, um passo crucial para a validar. Ela contou à BBC quais foram estes resultados:

"Observámos uma associação significativa entre o consumo de emulsionantes e um aumento do risco de cancro em geral e, em particular, do cancro de mama, mas também de doenças cardiovasculares."

Outro ingrediente dos ultraprocessados que acendeu o alerta sobre os perigos é o adoçante aspartame. É 200 vezes mais doce do que o açúcar e, há alguns anos, começou a ser vendido como uma alternativa mais saudável às bebidas açucaradas por ter um baixo teor calórico.

De facto, em 2013, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos decidiu que o aspartame era seguro. Mas, seis anos depois, Erik Millstone, professor da Universidade de Sussex, decidiu rever os dados examinados pela autoridade e verificou quem tinha financiado os diferentes estudos.

Foi constatado que 90% dos estudos que defendiam o uso de adoçantes tinham sido financiados por grandes empresas que fabricam e vendem aspartame, e que todos os estudos que sugeriam que o aspartame poderia ser prejudicial foram apoiados por fontes independentes ou não comerciais.

Em 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou que, mesmo sem provas conclusivas, é preocupante o uso a longo prazo de adoçantes como o aspartame por aumentar o risco de diabetes tipo 2, de cardiopatias e de mortalidade.

Ainda que sejam necessários mais estudos, há um consenso maior sobre os prejuízos dos ultraprocessados para a saúde.

Bom, com isto ficamos por aqui. Espero que tenha gostado deste vídeo. Não se esqueça de seguir a BBC News Brasil no YouTube e nas redes sociais para ficar a par de tudo o que publicamos. Um abraço e até à próxima!