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Cinematográfico, histórico e brutalista.

O ULTRAMAR: como Portugal perdeu suas colónias | DOCUMENTÁRIO

Descrição

Após quase 400 anos de domínio colonial, Portugal está à beira de perder as suas colónias. 1961 marca o início do fim do Império Português, na figura do Estado Novo de António de Oliveira Salazar. E o primeiro palco desta trágica peça é Angola. 00:00 - Introdução 06:24 - Angola: o primeiro palco 10:48 - Luanda: 4 de Fevereiro 16:10 - O Teatro 19:06 - Angola: 15 de Março 26:49 - O Ultramar 33:17 - Dias de morte 39:20 - Op. Viriato 59:18 - O Começo do Fim —--------------------------------------- REFERÊNCIAS (em ordem de importância para o documentário): - CANN, John Pearce. "Portuguese Counterinsurgency Campaign in Africa"; - CANN, John Pearce. "The Paras: Portugal’s First Elite Force in Africa"; - CANN, John Pearce. "The Fuzileiros: Portuguese Marines in Africa"; - WAALS, W.S. van Der, p. “Guerra e Paz: Portugal e Angola, 1961-1974”; - FIRST, Ruth. "Portugal's Wars in Africa"; - GOÇALVES, José Luís; MOREIRA, José Manuel (coord.). "A Campanha Militar Terrestre no Teatro de Operações de Angola"; - ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO. "Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África"; - NOGUEIRA, Alberto Franco. “SALAZAR” Vol. 5: A Resistência”; - TEIXEIRA, Bernardo, “The Fabric of Terror: Three Days in Angola"; - LIMA, Fernando Reis. “A Guerra - Angola 1961-63”; - MARTELO, David. “Conceito Estratégico do Estado Novo, 1945-1965”, Revista Portuguesa de História Militar, ano 1, dez. 2012 - CÁDIMA, Francisco Rui, “O Telejornal e a Guerra Colonial (1961-1974)", in Anuário Lusófono, 2009; - PIMENTEL, Adelino de Jesus da Mota. "Nos inícios da Guerra do Ultramar. Doutrina, Informação e Propaganda"; - MENESES, Maria Paula; MARTINS, Bruno Sena (org). "As Guerras de Libertação e os Sonhos Coloniais"; - CASTRO, Nuno. “HERÓIS DO ULTRAMAR: Histórias de Bravura nos campos de batalha da Guerra Colonial”; - ASSOCIAÇÃO TCHIWEKA DE DOCUMENTAÇÃO, “1961, memórias de um ano decisivo"; - FIGUEIREDO, Fábio Baqueiro. “Luanda, 4 de fevereiro de 1961: a visão dos Estados Unidos”; - FERNANDES, Serras; DA COSTA, Neves. “Nambuangongo: a Grande Arrancada – Partes I e II”, RTP, 1961; - SALAZAR, António Oliveira. Entrevista coletiva à TV Portuguesa, in. “Angola, Decisão de Continuar”, RTP, 1961; - BANDARRA, Victor, “O REBENTAR DA GUERRA: 15 de março”, TVI, 2021; - Revistas O Cruzeiro e Manchete, consultadas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. ELEMENTOS: Mapas criados com GeoLayers 3, ©MapBox e ©OpenStreetMap; Música e SFX fornecidos por EPIDEMIC SOUND; NENHUM elemento neste vídeo foi criado com Inteligência Artificial. #história #historiamilitar #portugal

Transcrição completa

uma produção História Hoje

OLHO POR OLHO DENTE POR DENTE É A ÚNICA LEI EM VIGOR

A GUERRA DE ANGOLA

A VERDADE SOBRE A GUERRA DE ANGOLA

O Ultramar

Aviso: Este vídeo possui descrições detalhadas de violência extrema, cenas de guerra, sofrimento e morte. Assista com discrição.

Uma produção História Hoje

O ano é 1960 e a Organização das Nações Unidas acaba de declarar na sua 15.ª reunião geral

Agradecimentos: Uilian Ries, Lucas Cabral, Arthur Santos e Lucas Cassino.

um manifesto anticolonialista na forma da sua resolução número 1514, também conhecida como Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais.

Portugal, membro da organização desde 1955, encontra-se num dilema.

Os portugueses, pioneiros das grandes navegações ainda nos séculos XIV e XV, foram os primeiros a entrar e a estabelecer colónias em África.

Agora, quase 500 anos depois, o país luta para ser o último a sair.

Sob o regime do Estado Novo, na figura de António de Oliveira Salazar, Portugal alterou as suas relações com as suas colónias ainda em 51.

De forma a promovê-las a províncias ultramarinas, com o mesmo estatuto das suas províncias europeias, ou pelo menos, em teoria.

Se, por um lado, as então colónias e os seus cidadãos seriam reconhecidos como legitimamente portugueses, por outro, os critérios eram rígidos e, muitas vezes, simplesmente inalcançáveis para a maioria dos povos nativos de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

café e algodão, completamente reféns dos fazendeiros portugueses.

Em 1954, o mundo assistiria a uma reviravolta na antiga ordem colonial.

Após anos de uma sangrenta guerrilha, a França veria uma das suas mais preciosas províncias ultramarinas,

separadas do seu império.

A Indochina. O antigo mundo colonial dava espaço a movimentos nacionalistas de independência,

alinhados aos ideais das novas potências globais.

Os Estados Unidos e a União Soviética.

Em 55, Portugal, assim como a França, argumentou que os seus territórios ultramarinos eram províncias legítimas dos seus países.

Em 60, as Nações Unidas confrontavam diretamente essa ideia.

Os ventos da mudança sopravam pelo mundo e Portugal não ficaria de fora.

Ainda em meados dos anos 50, movimentos de independência surgiam em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

A princípio, os movimentos buscavam cooperação com o governo português.

Mas com a transformação das colónias em províncias e o estatuto do indigenato,

as portas seriam fechadas para qualquer tipo de diálogo.

Se antes advogar pela independência das colónias já era digno de perseguição pela polícia portuguesa,

após os atos de integração, era considerado legalmente como um verdadeiro ato de traição e atentado à soberania nacional.

Os nativos viam-se desapossados não somente de qualquer tipo de poder ou influência política,

mas também da sua terra e de direitos tão fundamentais como o de controlar as suas próprias vidas.

Eram forçados a abandonarem as suas casas para cumprir quotas de produção em fazendas a centenas de quilómetros de distância,

longe das suas famílias, onde eram alojados em senzalas, não muito diferentes das de 200 anos atrás.

No final daquela década de 50, as tensões das províncias ultramarinas aumentavam

com prisões arbitrárias e extensa repressão policial.

Para Portugal, a luta não era apenas para manter as rédeas nos seus territórios,

mas contra uma nova ordem mundial.

E o primeiro palco do conflito que por anos efervescia nas colónias foi em Angola.

Parte II Angola: |

Entre os movimentos de libertação fundados em todas as províncias ultramarinas, em Angola, havia dois principais.

A União das Populações de Angola, a UPA, nacionalista e alinhada aos Estados Unidos,

que posteriormente seria fundido com outros movimentos e passaria a ter o nome de Frente Nacional de Libertação de Angola,

FNLA.

O seu líder, Holden Roberto, receberia apoio de inteligência e financeiro americano

como forma de travar o avanço dos movimentos de esquerda em Angola.

O movimento também era frequentemente tomado por divisões internas, de conflitos étnicos e tribalistas.

Em particular, por ser formado quase integralmente por Bakongos, o grupo étnico predominante no norte do país.

Facto que viria a trazer graves consequências.

O jornalista brasileiro Mário de Moraes, que esteve em Angola naquele 61, descreveu:

Holden Robert, por muitos considerado comunista, na verdade tem conseguido apoio e mesmo dinheiro

de fortes agremiações ocidentais que o defendem,

alegando que ele merece ser ajudado.

Uma delas chegou a dar-lhe 110 mil dólares, como auxílio para os refugiados de Angola.

Os que conhecem Holden Robert pessoalmente consideram-no um homem inteligente, de forte personalidade, com todos os atributos de líder.

O outro era o Movimento Popular de Libertação de Angola, MPLA, alinhado à esquerda internacional e ligado aos até então clandestinos Partido Comunista Português e o Partido Comunista Angolano.

Inicialmente composto maioritariamente por Quimbundos, um grupo étnico da região de Luanda, o MPLA logo expandiu células por todo o território angolano e, ao longo dos anos, estabeleceu fortes ligações com a União Soviética.

Moraes também descreveu: Segue a UPA em importância, o MPLA, de tendência nitidamente comunista.

O seu presidente é Mário Coelho Pinto de Andrade, médico residente no estrangeiro.

Pelo caráter internacional que está revestido, pela forma como foi organizado e pelo grau de cultura dos seus dirigentes, é também um dos mais fortes movimentos emancipacionistas de Angola.

Mais intelectual que a UPA, procura conseguir novos adeptos à custa de doutrinação.

Prega a união de todas as fações rivais, na formação de um só e mais forte movimento.

Mário Pinto de Andrade é o grande rival de Holden Roberto, com quem não mantém boas relações.

Apesar de politicamente opostos, ambos UPA e MPLA partilhavam o objetivo comum da independência de Angola.

Em 1959, uma grande operação conduzida pela Polícia Internacional de Defesa do Estado, a PIDE, prendeu diversas figuras-chave ligadas ao MPLA.

Dentre eles, o Padre Joaquim Pinto de Andrade, irmão de Mário de Andrade, e Agostinho Neto, que seriam libertados tempos depois.

Em 8 de junho de 1960, Neto seria preso novamente, o que levaria a população da capital da província, Luanda, às ruas para protestar contra a prisão.

As manifestações seriam duramente reprimidas, levando à morte de mais de 200 pessoas.

No dia seguinte, membros da PIDE iriam até às vilas de Ícolo e Bengo e prenderiam ou matariam todos os presentes e ateariam fogo em ambas as vilas.

Em novembro daquele mesmo ano de 1960, oito líderes nacionalistas seriam executados na prisão militar de Luanda.

A situação seria mais um ato de contrarrevolução portuguesa, se não fosse por um menino de 14 anos, que escalaria os muros da prisão para testemunhar a execução.

O menino seria alvejado e morreria ali mesmo.

As ações dos portugueses não passariam sem uma resposta.

Parte III Luanda: 4 de fevereiro de 1961

Na madrugada entre 4 e 5 daquele mês, revoltosos ligados ao MPLA tomariam de assalto a cidade de Luanda.

Após meses de planeamento, cerca de 400 militantes atacaram coordenadamente esquadras de polícia, emissoras de rádio, prisões e outros pontos-chave da capital da província.

Armados primariamente de facões e outras ferramentas, vários pontos da cidade foram atacados.

Antes de qualquer notícia chegar aos jornais, um telegrama disparado naquela madrugada da Embaixada Americana em Luanda para o Departamento de Estado dos Estados Unidos, relatou:

Relatórios fiáveis indicam três ataques coordenados de nativos contra instalações policiais em Luanda entre as duas e as três desta madrugada.

Um grupo de 20 nativos e 4 europeus atacou a prisão de Penedo, matando ou ferindo seriamente dois guardas.

Relatório da Embaixada Americana.

Os atacantes foram repelidos e mais tarde encurralados entre a polícia e as tropas do exército, e alguns foram mortos ou capturados.

Um segundo grupo atacou a esquadra de polícia da estrada do Catete, havendo notícia de cinco a oito polícias mortos.

Esta ação foi observada a alguma distância por George High e mais de perto por europeus não portugueses que vivem nas redondezas e viram africanos mortos.

O terceiro ataque aparentemente emboscou um carro-patrulha da polícia que foi atraído para um bairro nativo.

Há notícia de cinco polícias mortos.

Ao todo, cerca de 20 militares portugueses seriam vítimas mortais dos ataques.

O que geraria uma resposta enérgica e imediata das forças ali presentes.

Estima-se que nada menos de 3.000 militantes seriam mortos, estivessem eles envolvidos nos ataques ou não.

A notícia chegaria a Portugal somente no dia 7, na edição da noite do telejornal.

Apresentado por Henrique Mendes, a matéria intitulada 'Funeral em Luanda', Mendes glorificava a memória dos polícias mortos no levante.

Henrique Mendes, ao 'Jornal da Noite', 07/02/61. 'Heroicos defensores da ordem que tombaram para fazer frente a agitadores políticos de filiação comunista...'

...Espólios sagrados de uma pátria ameaçada, eles resgataram com o seu sangue, como o seu exemplo, a afronta com que um bando de vendidos tentou atingir a unidade nacional.

O seu sacrifício, o supremo sacrifício de um soldado, cumprimento heroico do dever, sublima e santifica o lema que encerra a decisão maior da honra que passa.

'A vida não importa, Portugal continuará.'

A revolta não ocorreria somente em Luanda, mas ataques semelhantes aconteceriam em diversas outras vilas, em muitas, com a adesão da população civil.

O combate aconteceu no caminho. Em Teka Dya Kinda, no dia 4 de fevereiro. A tropa aparece às 5 horas.

Os carros iam passar, mas não ultrapassaram o bairro: durante a noite caiu lá um pau grande que fechou a estrada com a ventania.

Eles vinham com os carros, não podiam passar e foram chamar os povos para tirar esse pau.

O povo não aceitou. Eles perguntavam 'o que é que vocês querem?', e o povo respondeu: 'o seu tempo de mandato já acabou, mesmo.

Nós já não queremos mais. Vamos mandar-nos entre nós.'

Aí, o capitão mandou abrir fogo. Depois mandou disparar as metralhadoras.

Foi assim que limparam o povo de Teka Dya Kinda no dia 4 de fevereiro.

O jornal brasileiro, O Estado de São Paulo, também noticiou.

David Davidson. Na noite daquele dia, a polícia e o exército haviam recuperado da surpresa. Juntamente com colunas armadas, invadiram os bairros africanos em Luanda, espancando e fuzilando africanos indiscriminadamente.

Uma testemunha polaca, partida de Luanda a 7 de fevereiro, afirmou ter contado 49 cadáveres de africanos, centenas de feridos e trezentos de prisão de outras centenas de africanos.

A revista Time informou que um motorista de táxi de Luanda havia afirmado a um jornalista que vira cinco camiões carregados de cadáveres que se dirigiam para o mato, onde eles seriam enterrados numa cova.

Apesar da revolta ter sido efetivamente contida e ter levado à morte de milhares de revoltosos,

o 4 de fevereiro anunciava a passagem de um ponto do qual não era mais possível retornar.

O sangue...

de ambos os lados fora derramado e os nacionalistas não pretendiam mais recorrer ao diálogo.

Parte IV

O Teatro

Em 1961, Portugal não era um dos países mais ricos, muito menos dos mais desenvolvidos entre os seus pares europeus.

Naquele ano, o país possuía um orçamento de defesa de aproximadamente 93 milhões de dólares, ou 995 milhões de dólares em 2025.

E montava uma força total de cerca de 79.000 efetivos, dos quais 58.000 pertenciam ao exército.

Em Angola, os portugueses montavam um efetivo de aproximadamente 5.000 militares, recrutados e treinados localmente.

Somados a outros 1.500 caçadores, com treino em operações especiais e treinados na Europa.

Para Portugal, Angola era uma das suas maiores provedoras de riqueza, sendo um dos maiores produtores de café do mundo, além de outras atividades de agronomia e extração.

Com um território 14 vezes maior do que o próprio Portugal, maior que as áreas somadas da França, Espanha e Itália, e a mais de 7.300 km de Lisboa,

Angola possuía apenas infraestruturas básicas, voltadas para a plantação e exploração de recursos; poucas linhas férreas ligavam o interior do país ao litoral e, via de regra, era completamente tomada por densas florestas tropicais.

Em particular, na sua porção norte, onde se encontra a fronteira com o Congo ex-belga.

A chamada Região dos Dembos, a área é constituída por mais de 2.000 km de serras, pântanos, savanas, matas fechadas e tomada por densas formações de capim-elefante, uma espécie de capim tão grande e denso que facilmente ultrapassa 2 metros de altura.

Foi esta porção norte que a União das Populações de Angola, a UPA, tomaria como a sua base de operações.

O seu líder, Holden Roberto, aproveitando-se da instabilidade e das ligações com rebeldes no Congo, estabeleceria o seu quartel-general no país vizinho, fora da jurisdição portuguesa.

Nas proximidades de Leopoldville, lá a UPA treinaria milhares de nacionalistas.

Contando com poucas armas de fogo, a principal ferramenta dos revoltosos é o facão, chamado pelos locais de catanas.

O movimento de Roberto observara as ações de 4 de fevereiro com atenção e, assim como eles, concluiu que o tempo para diálogo havia acabado.

A UPA faria o seu movimento um mês depois.

Parte V

Angola: 15 de março de 1961

A manhã de 15 de março seria uma qualquer para os fazendeiros do norte de Angola. Era o fim da estação das chuvas e os trabalhadores preparavam-se para iniciar os trabalhos nas fazendas de café e algodão.

Colono Português

Dono do Talho em Quitexte

Nós abrimos a nossa loja às 8h, mas eu sempre acordo às 6h para dar de comer aos animais, cortar a carne e separar os peixes. Eu sempre tomo um grande pequeno-almoço às 7h30... Mas naquela manhã, quando a minha mulher Maria e a minha filha Lourdes nos sentámos para o café, eu não consegui comer, nem sequer a minha sopa.

(in, TEIXEIRA, Bernardo, "The Fabric of Terror: Three Days in Angola", p. 35-37)

A minha filha disse:

"Está tão quieto lá fora!"

E era engraçado, pois às 7h30, todos os nativos e fazendeiros saíam para fazer as suas compras e trocas e estão sempre a falar alto e a dar risadas à espera que as lojas abrissem.

Todos os nativos e fazendeiros saíam para fazer as suas compras e trocas e estão sempre a falar alto e a dar gargalhadas em grupos à espera que as lojas abrissem.

Agora são quinze para as oito. Há um grupo de oito nativos à frente da minha porta. Eu olho pela janela e cumprimento-os.

Não sei quem são, mas senti que havia algo errado.

Sussurro à minha filha para trazer as espingardas e a munição.

Eu e ela somos bons caçadores.

Faltam apenas alguns minutos para as oito. E eu não abrirei as minhas portas.

O sino da igreja bateu. Oito horas. E as portas das lojas começaram a abrir e todos os nativos e os poucos fazendeiros brancos começaram a entrar.

A minha cabeça está de fora, mas eu não mostro a minha espingarda.

Um dos nativos sorriu para mim e diz: "Abra a porta, chefe!" Eu sorrio de volta e digo: "Num minuto!"

Apenas uns minutos depois das oito e, de repente, é como um furacão no inferno.

Os mais terríveis gritos de todos os lados da vila! Gritos horríveis, na maioria de mulheres e crianças!

Percebi que os terroristas começaram a matança dentro das lojas e nas outras casas ao mesmo tempo.

Os gritos são tão perfurantes que por um momento os meus dedos e os da Lourdes congelam nos gatilhos.

Os nativos na minha janela sacam catanas e armas e começam a gritar: "Mata, mata! Upa! Upa!" e começam a arrebentar a porta.

Digo à Lourdes para ficar calma e não errar nenhum tiro.

Em trinta segundos rebentámos a cabeça de oito terroristas sobre a minha janela.

Algumas vítimas, todas ensanguentadas, correm pelas ruas, mas os bandidos vão atrás delas, a gritar como loucos e a matá-los, cortando os seus braços, ou pernas, ou cabeças.

A cena que o talhante de Quitexe descreve ao jornalista Bernardo Teixeira é apenas uma das incontáveis cenas de brutalidade que ocorreram naquele 15 de março de 1961.

De forma sincronizada, cerca de cinco mil militantes da UPA, somados a aproximadamente vinte mil recrutas nativos, atacaram todas as vilas, cidades e fazendas da região norte de Angola.

Armados na sua maioria com catanas, armas improvisadas ou contrabando.

O empregado de uma fazenda, Manuel Lourenço Neves Alves, também se lembrou.

Às seis da manhã acordei com um barulho e vi pela janela a casa do dono da fazenda a ser atacada por centenas de negros, talvez quatrocentos.

Peguei a minha espingarda de caça e comecei a atirar contra eles, mas estava a começar a ficar sem munição.

E o meu ajudante africano, João, correu para a casa ao lado para tentar pegar mais.

Ele nunca chegou lá. Um bando de terroristas pegou-o e mataram-no com golpes de catana, depois arrancaram-lhe a cabeça e os órgãos sexuais.

Eles traziam outros homens capturados até ao pátio em frente às instalações e massacravam-nos das formas mais horrendas.

As vítimas, a gritar, ainda estavam vivas quando as bestas lhes arrancaram os olhos, as mãos, castraram-nos e depois abriram-lhes as barrigas e puxaram-lhes as entranhas.

Eu estava a tremer de horror e medo.

As cenas são verdadeiramente aterrorizantes. Para a UPA, um ataque de tamanha brutalidade forçaria os portugueses a abandonarem Angola de uma vez por todas.

A resposta é exatamente o contrário.

Não só brancos portugueses...

O jipe foi tombado pelos terroristas. E a patrulha portuguesa recolhe os cadáveres de dois oficiais e nove soldados lusos.

Mas boa parte dos nativos e mestiços reprovava as ações da UPA, ainda mais considerando que a maioria das vítimas dos militantes, no fim, foram nativos de outros grupos étnicos, diferentes dos Bacongos.

Em especial, Bailundos, oriundos de regiões centrais de Angola.

A estimativa de vítimas mortais dos ataques de 15 de março ronda os mil brancos,

nada menos que seis mil negros.

Cerca de setecentas quintas foram atacadas em mais de cem circunscrições administrativas

e vilas foram completamente arrasadas ou tomadas.

Comunicações foram cortadas ou danificadas,

e milhares de refugiados agora amontoavam-se nas ruas de Luanda.

Novos atos de terrorismo em Angola praticados em perfeito sincronismo com as provocações de propaganda desenroladas nas Nações Unidas

e sem dúvida inspiradas e estimuladas pelas mesmas vozes sinistras que no areópago de Nova Iorque incitam à violência voltaram a ensanguentar a terra cinco vezes secular da portuguesíssima Angola.

Grupos de terroristas, capitaneados ou instruídos por agentes estrangeiros especializados em tal género de ações, assaltaram,

saquearam e incendiaram casas comerciais e quintas agrícolas isoladas, assassinando homens, mulheres e crianças.

Portugal e, até certo ponto, o mundo chocava-se com os ataques.

A UPA, embora tivesse conseguido o seu objetivo principal, não coordenava efetivamente os seus recrutas

e por semanas o interior norte de Angola continuaria a ser pilhado.

De imediato, milícias civis foram formadas e africanos leais a Portugal armados.

O plano de Holden Roberto de obter a independência de Angola através de um choque de violência tinha fracassado.

E agora, a UPA perdia o seu ímpeto inicial.

De entre uma das vilas atacadas naquele dia, uma em particular foi escolhida para ser a base de operações da UPA: Nambuangongo.

A sua população de aproximadamente trezentos habitantes foi completamente dizimada ou fugiu.

A cerca de cento e oitenta quilómetros de Luanda, a vila oferecia acesso total ao interior agrário do país.

Ao mesmo tempo, que era protegida por densas florestas e colinas íngremes.

Dali, os rebeldes continuariam uma campanha de ataque no interior e nela proclamariam a sua capital.

Para muitos, a localidade recebeu a alcunha de Reino de Nambuangongo.

Parte VI

O Ultramar

Sejam quais forem as dificuldades que nos deparem no nosso caminho, e os sacrifícios que nos imponham para vencê-las, não vejo outra atitude que não seja a decisão de continuar.

Essa decisão é imperativo da consciência nacional, que eu sinto em uníssono com os encarregados de defender lá longe pelas armas, a terra da pátria.

Essa decisão é-nos imposta, por todos quantos brancos, pretos ou mestiços, lutando, morrendo ou vendo despedaçar os seus, autenticam,

pelo seu mesmo martírio que Angola é terra de Portugal.

A decisão portuguesa de confrontar os rebeldes em vez de deixar os territórios em Angola, precipita o início de uma guerra, a guerra do Ultramar.

Um editorial da revista brasileira A Manchete relatou:

O governo de Lisboa diz: só há uma explicação para isso:

«O Governo de Lisboa diz: só há uma explicação para isso:

os nacionalistas de Angola recebem armamento dos russos. Por trás dos atos de terrorismo, há o dedo dos comunistas.»

Na ONU, a União Soviética dá total apoio aos nacionalistas de Angola.

Mas os Estados Unidos também assim procedem,

provocando, aliás, manifestações hostis em Lisboa e no Porto. E desde os acontecimentos de fevereiro,

Portugal fora colocado na agenda das Nações Unidas.

A União Soviética rapidamente afirma o seu apoio aos rebeldes

e os blocos africanos e asiáticos juntam-se no apoio.

Para a raiva e desespero dos portugueses, os Estados Unidos também se uniram

aos soviéticos na resolução condenando a política portuguesa em África.

Não apenas isso, mas as potências impunham restrições na comercialização de armas ao regime português.

O ultramar seria um desafio a ser encarado sem aliados. Os portugueses estavam sós,

ou pelo menos perante o mundo. Salazar encontraria aliados

na África do Sul e na Rodésia, dispostos a contribuir com armamento para a contrainsurgência.

Na metrópole, a situação também não era boa para o regime.

No final daquele mês de março, o Ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, dirigia-se a Salazar:

«A gravidade do atual momento político internacional enche de preocupações o País,

a que as Forças Armadas não podem ser indiferentes [...]

É sentimento geral que a ação política da nossa diplomacia desde há muito tempo se revela inadequada,

e que os factos demonstram não ter estado à altura da sua missão histórica.

No que mais propriamente diz respeito às Forças Armadas, a situação destas é angustiosa

e caminhamos para uma situação insustentável, onde poderemos ficar à mercê de um ataque frontal,

com forças dispersas por quatro continentes, sem meios bastantes e com uma missão suicida da qual não seremos capazes de sair.»

Alas do governo viam a insurreição em Angola como um sinal dos tempos,

a hora de afastar Salazar e implementar reformas.

O general Botelho Moniz, que anos antes fora adido em Washington e notoriamente partilhava

de uma certa visão anticolonialista, fora um dos instigadores da intentona.

A 12 de abril de 1961, o general pressionara o Presidente da República,

Américo Tomás, a demitir Salazar do cargo de Presidente do Conselho de Ministros e precipitar a queda do regime.

Tomás, leal a Salazar, recusou compactuar com o golpe

e alertou o Presidente do Conselho, que assume de imediato a pasta da Defesa

e logo despacha a exoneração de Moniz e de diversos outros oficiais generais igualmente amotinados.

Salazar sai da comoção com um regime endurecido e uma política resoluta: destruir a rebelião em Angola.

«Se é precisa uma explicação para o facto de eu assumir a pasta da Defesa Nacional [...]

a explicação pode concretizar-se numa palavra, e esta é: Angola.

Por ser que a concentração de poderes, da Presidência do Conselho e da Defesa Nacional,

bem como a alteração de outros postos no alto escalão das Forças Armadas, facilitaria

e abreviaria as providências necessárias para a defesa eficaz da província

para que Portugal faça todo o esforço que lhe é exigido a fim de defender Angola e, com ela, a integridade da nação.

Na mesma ocasião, o novo Ministro do Ultramar, empossado ainda naquele 13 de abril, declarou:

Não existirão meias medidas em Angola: os habitantes serão ou portugueses, ou então serão exterminados.

O regime levaria quase um mês para reagir diante da crise.

E durante esse ato, milícias e poucas forças de segurança presentes em Angola, notoriamente os poucos marinheiros portugueses e da Força Aérea,

empreenderiam incursões subindo os rios que desembocavam no Atlântico e pequenas campanhas de bombardeio em áreas povoadas pela UPA.

Dessa forma, seriam capazes de segurar os avanços rebeldes em direção ao sul.

O mesmo não poderia ser dito do norte.

Ainda naquele abril, milhares de tropas seriam enviadas para a África, na sua maioria, conscritos do recrutamento obrigatório português.

De avião, os portugueses enviaram as primeiras companhias de caçadores especiais, que chegariam ainda no fim daquele mês.

Os primeiros grandes números de tropas, entretanto, chegariam somente em 1º de maio, transportados por navios.

Mas tão somente em meados de junho, teriam forças e coesão suficiente para montar operações.

Em meados de julho, finalmente, é desenhado um plano para atacar as instalações em Nambuangongo, exterminar ou expulsar de vez os rebeldes de Angola e terminar de uma vez por todas com a guerra.

A operação era ousada, empregaria um número considerável de tropas vindas da metrópole. O seu codinome: Operação Viriato.

Parte VII. Dias de morte.

Quase 40 anos haviam-se passado desde que Portugal disparou o seu último tiro de guerra, ainda na Primeira Guerra Mundial.

E considerando a situação financeira do país, montar uma contrainsurgência de tamanha robustez seria, no mínimo, um grande feito de armas.

Naquele junho de 61, os portugueses contavam com aproximadamente 30.000 homens em Angola, dos quais cerca de 27.000 pertenciam ao exército e os demais divididos entre aeronáutica e marinha de guerra.

De modo algum, o exército português é uma força moderna.

E o armamento da infantaria consistia numa mistura de equipamento proveniente de diversas nações do mundo,

e adquirido ao longo de muitos anos, como pistolas Parabellum 9 mm, espingardas Mauser K98, fuzis FAL 7.62, submetralhadoras FBP 9 mm, metralhadoras Madsen, Dreyse, Breda e Browning.

Sendo este material praticamente todo obsoleto.

E com o processo de modernização severamente dificultado pelos bloqueios das Nações Unidas.

Sob o comando do teatro de operações em Angola, fora designado o general Carlos Miguel de Lopes da Silva Freire,

que de imediato começaria a implementação de um sistema de cooperação entre entidades militares, policiais e civis para a pacificação da província.

O primeiro passo para alcançar a pacificação, é claro, começaria com a remoção das forças rebeldes dos Dembos.

Silva Freire desenhou uma operação coordenada e com o objetivo de destruir a insurreição e as suas rotas de fuga pela região dos Dembos e tomar a base rebelde em Nambuangongo, incorporando avanços de infantaria e suporte aéreo.

O plano da Operação Viriato era convencional e baseado em coordenação.

Em meados de julho, o esquadrão de cavalaria número 149, junto...

de outros elementos de infantaria, sob o comando do capitão Rui Abrantes, deveria partir de Ambriz, a 150 km do objetivo.

Esta coluna contaria com cerca de 250 soldados.

A segunda coluna era um batalhão composto pelas companhias de caçadores número 114

e reforçado por elementos da 115 e 117, comandado pelo coronel Oliveira Rodrigues, acompanhada de engenheiros e componentes de artilharia.

Sairia de Luanda no mesmo dia e prosseguiria para o nordeste.

Seguindo a coluna de Oliveira Rodrigues, possuía cerca de 500 soldados.

Por fim, o terceiro grupo, composto pela companhia de caçadores número 96, comandado pelo tenente-coronel Armando Maçanita.

Que seria enviada antes de Luanda, em direção a Úcua, e depois seguiria para Dange, de onde deveria partir no dia 15 para Nambuangongo.

Vindo pelo leste.

O 96 de Maçanita ficaria com o caminho mais longo e não teria o mesmo suporte de blindados do 149.

Ao arrancar da operação, o comandante dispara:

Perguntávamo-nos, a nós próprios, como é que a gente vai chegar lá?

A operação é uma corrida entre as unidades, e o vencedor marchará triunfante sobre Luanda.

No quartel-general, a aposta é no batalhão 114 de Oliveira Rodrigues.

Rodrigues é um comandante convencional, aluno do curso de Estado-Maior em Lisboa.

Um soldado versado nas estratégias ensinadas nos cursos do oficialato português.

Maçanita, por sua vez, era um oficial de carreira famoso por detestar o trabalho em gabinetes, e adepto do improviso em campo de batalha, e conhecido por ser um homem duro, mas preocupado com os seus homens.

Abrantes, por sua vez, comandante da 149, é um homem técnico, um observador da natureza e sempre vigilante das condições de seus soldados.

Os três comandantes contariam com o pleno auxílio de observação da Força Aérea, que utilizariam para conduzir ações de artilharia e para encontrar acampamentos inimigos.

E sendo assim, a Operação Viriato contaria com um efetivo de aproximados 1300 homens.

A operação, de forma alguma, foi lançada em condições ideais.

E a falta de equipamentos é nítida.

O médico Fernando Reis Lima, pertencente ao batalhão número 114 de Oliveira Rodrigues, comentou:

Desembarcamos sem nenhum equipamento, a não ser as armas individuais distribuídas a bordo do Niassa, barco que nos transportou.

A desorganização era total nessa fase inicial de junho de 1961.

A ordem era para 'pegarmos' o que precisássemos, escolhendo o material necessário de entre o que encontrássemos.

Vistoriei o carro sanitário e constatei que a quantidade de material e medicamentos era exígua e incompleta para as necessidades previsíveis em campanha.

A Farmácia Militar forneceu-nos o que pôde, mas mesmo assim muito pouco para as necessidades que antevíamos.

Para a imprensa portuguesa, o início da operação é noticiado como a grande arrancada.

A partida das três forças ocorre quase simultaneamente entre 11 e 12 de julho.

A ação para o batalhão 114 de Oliveira Rodrigues começa logo no dia 15.

Nas proximidades de Quanda Maua, enquanto passavam por uma picada na floresta, estreita e ideal para uma emboscada.

A coluna avança lentamente, sem tiros, quando surgem da mata, cem.

apenas de guerrilheiros que se atiram contra os soldados e dos jipes.

Durante 25 minutos, o caos toma conta da selva.

Os rebeldes atacam, empunhando pequenos canhões de mão, os canhangulos,

improvisados com canos de metal que disparam estilhaços contra os soldados portugueses, como caçadeiras.

Os que não empunham armas, atiram-se contra os soldados com catanas.

Fernando Reis Lima estava lá.

Quando o Batalhão se deslocava na arrancada para Nambuangongo, as Companhias de Caçadores 115 e 117 foram atacadas por um grupo de guerrilheiros [...].

Nunca pensei que fosse tão impressionante o barulho produzido por tantas armas a fazer fogo!

Lembro-me de me encontrar no chão, aterrorizado com o que assistia.

Somente quando me trouxeram os primeiros feridos é que reagi, esquecendo o que me rodeava e passando a ser apenas médico.

Naquele combate, a crueza da guerra foi-me apresentada na sua pior expressão, pois sofremos 6 mortos e 15 feridos, a quem prestei assistência em condições de campanha com os parcos meios disponíveis.

As nossas tropas reagiram com galhardia e coragem, abatendo cerca de duzentos guerrilheiros, a tiro e em combates à baioneta, em corpo-a-corpo.

O caminho percorrido pelo 114 seria, de entre os três batalhões, o que encontraria maior resistência.

Por vezes, enfrentando centenas de rebeldes em enormes emboscadas.

O médico continua.

O combate em que o Exército Português fez frente a mais de 500 centenas de terroristas que nos emboscaram no dia 15 de julho de 61, no local de Quanda-Maúa, junto da ponte de Anapasso em Angola.

Foram abatidos mais de duzentos inimigos, a tiro e em combate corpo a corpo.

em que as baionetas foram vitais e tiveram franca preponderância.

O combate foi tão violento que um dos soldados, de alcunha 'O Espanhol', ficou com a baioneta torcida e completamente inutilizada.

Para o Batalhão 96, a realidade não era muito diferente.

O Comandante Maçanita, entretanto, inventou uma técnica para evitar emboscadas em passagens como estas.

As metralhadoras iam apontadas para a esquerda e direita.

Se houvesse paragem, fazia sempre apalpações de fogo para criar medo.

Dessa forma, o 96 cobria porções de terra maiores, até mesmo que o batalhão motorizado.

Criando confusão e antecipando emboscadas.

Com o Esquadrão número 149, estavam os repórteres Serras Fernandes e Neves da Costa, pela Rádio Televisão Portuguesa.

No fim de julho, eles encontraram a primeira emboscada rebelde e ali revelaram um dos principais aspetos da guerra.

Às primeiras horas do dia 28 de julho, já em Quimbundo, a 80 km do Ambriz, um pelotão de reconhecimento sofreu um encarniçado e rápido ataque.

Ficaram feridos dois soldados, mas o inimigo foi localizado e o esquadrão pôde reagir com êxito.

O ataque veio realçar uma das características destas operações tão valentemente enfrentadas pelos nossos soldados.

Não é possível flagelar o inimigo sem sofrer primeiro alguns revezes.

Para tentar localizar os atiradores inimigos, é necessário aguentar o seu fogo e sofrer as primeiras baixas no combate.

Os primeiros tiros, sempre certeiros, partem do capim, do emaranhado da floresta ou do cimo das árvores.

O avanço do Esquadrão 149 é lento e diariamente interrompido por árvores e outros obstáculos que bloqueiam a estrada.

Tornando-os sempre suscetíveis a emboscadas.

A quantidade e o emaranhado de galhos, troncos, pedras e valas era tanto que mesmo os veículos blindados não eram capazes de os remover.

A única saída era a força do braço e do serrote, que logo esgotava os homens e obrigava o esquadrão a despender incontáveis horas e horas a cada paragem.

Pior que os entulhos eram as minas. Na época, em 61, ainda poucas, mas presentes.

todas as nossas previsões cumpriram-se. Efetivamente, chegou a altura de seguirmos para a frente, para acompanhar mais de perto toda a ação do exército português que enlutou o norte de Angola.

A coluna móvel partiu esta manhã de Luanda. Vamos agora a caminho de Ucuá.

Um local que os ouvintes já conhecem, cujo nome já têm escutado várias vezes nos noticiários e que tem sido uma das povoações mais martirizadas do norte de Angola.

A certa altura, dentro da mata, ouviu-se um emissor-recetor, emanando e recebendo ordens.

Era deles. Olhámos para o Capitão Teixeira de Morais, deitado ao nosso lado, e ambos sorrimos de sarcasmo.

Compreendemo-nos bem. Aquela era a guerra de catanas, em que tantos insistem. Guerra de catanas.

E a luta continuava, acesa, impossibilitando a coluna de avançar.

Eu não consigo mais.

Alô Peres, alô Peres, alô Peres, alô Peres, alô Peres, daqui Machado que responde. Daqui Machado que responde. Estou a ouvir em boas condições.

OK, Machado, OK, Machado, já sei que estás em boa posição, pois ouvi as tuas comunicações com Magalhães Monteiro. Eu chego agora com a coluna da missão de reconhecimento e vamos dentro de momentos a entrar para a picada que me dá acesso ao caso, exatamente, o caso, o objetivo, não sei qual é, exatamente, nenhum de nós sabe, só saberemos quando chegarmos ao local. Oxalá que tudo corra bem. Diz-me se estás OK.

Na boleia de um jipe com o Batalhão número 96 estava o jornalista Fernando Farinha, à época com apenas 19 anos.

Ele disse:

A viagem não se contava por horas, mas por troncos de árvores abatidos nas estradas. A cada 3 metros tínhamos um na estrada. Levávamos 24 horas para andar 6 km.

Para o 114, a situação parecia pior.

Após os primeiros combates, a coluna de Oliveira Rodrigues inundava-se de feridos, o que impedia o avanço pleno do batalhão.

Em determinado momento, o 114 encontra-se completamente obstruído.

O comando tinha pedido imediata evacuação de todas as baixas, mas, quando uma patrulha tentou passar, constatou que estávamos encurralados por dezenas de árvores gigantescas, que impossibilitaram a passagem do transporte nas ambulâncias requisitadas. E assim ficamos, três longos dias, isolados, junto da ponte de Anapasso e do Rio Lifune.

Fernando Lima também comentou sobre a situação do tratamento dos feridos.

As seringas, à época de vidro, e as agulhas a utilizar tinham previamente sido introduzidas num pequeno tacho e fervidas em água. Foram as mesmas para todos os feridos sem serem novamente esterilizadas (tínhamos quatro seringas e seis agulhas).

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