editorial noturno

A Bomba-Relógio Que o Japão Esconde: Adultos Trancados no Quarto Há 30 Anos

Descrição

Como mais de um milhão de pessoas conseguem simplesmente desaparecer, sem nunca sair de casa? No Japão, existe um fenômeno silencioso capaz de engolir uma geração inteira: os hikikomori — homens e mulheres que se trancam no próprio quarto por meses, anos, e em alguns casos por mais de uma década. Neste documentário, você vai entender o que se passa do lado de dentro dessas portas fechadas: o que significa, de verdade, ser um hikikomori; a pressão cultural — o sekentei e o ditado "o prego que se destaca é martelado" — que empurra tanta gente para dentro do quarto; a "era do gelo do emprego" que criou uma geração perdida; a rotina de quem vive de noite e dorme de dia, comendo o que os pais deixam na porta; e o mais assustador de tudo: o Problema 8050, a bomba-relógio armada em mais de um milhão de lares japoneses, prestes a estourar quando os pais idosos que sustentam esses reclusos começarem a faltar. Tudo baseado em levantamentos oficiais do governo japonês (Cabinet Office) e em reportagens e estudos sérios sobre o tema. ⏱️ CAPÍTULOS (ajuste os minutos conforme o corte final) 0:00 — Um milhão de pessoas que desapareceram sem sair de casa 2:00 — O milhão invisível 4:30 — O que significa, de verdade, se trancar 7:00 — Como se fabrica um recluso: o sekentei e a vergonha 10:00 — A crise que começa na escola 12:30 — A vida do lado de dentro do quarto 16:00 — A geração perdida e a era do gelo do emprego 18:30 — Quando o recluso envelhece 21:30 — A bomba-relógio chamada 8050 24:30 — O custo de um milhão de ausências 26:30 — A indústria de tirar alguém do quarto 29:30 — Por que isso não é só um problema japonês 📚 FONTES — Cabinet Office do Japão (levantamento nacional 2022, divulgado em 2023) — Prof. Tamaki Saitō (Universidade de Tsukuba), que cunhou o termo — Nippon.com; Japan Times; National Geographic; Unseen Japan — New Start (ONG de reintegração de reclusos) — Fundo Monetário Internacional (FMI); estudos PMC/NCBI 🎬 Ásia Desconhecida — o lado que ninguém mostra dos países asiáticos. Inscreva-se e ative o sino para não perder os próximos documentários. #Japão #Hikikomori #ÁsiaDesconhecida #Documentário #Problema8050 #Japao #LadoSombrio #SociedadeJaponesa #SaúdeMental #GeraçãoPerdida

Transcrição completa

Neste exato momento, no Japão, existem mais de 1 milhão de pessoas que simplesmente desapareceram.

Só que elas não desapareceram no sentido comum.

Elas não fugiram, não foram sequestradas, não morreram.

Elas estão ali, do outro lado de uma porta fechada, muitas vezes na casa dos próprios pais, há meses, há anos e, em alguns casos, há mais de uma década.

A comer o que lhes deixam à porta, a viver de noite, a dormir de dia, sem escola, sem trabalho, sem um único amigo.

Encolhidas dentro de um quarto que se tornou, ao mesmo tempo, o único abrigo e a prisão perfeita.

O Japão deu um nome a essas pessoas: Hikikomori.

E o que começou nos anos 70, como um punhado de adolescentes que se recusavam a ir para a escola, transformou-se 50 anos depois numa crise nacional silenciosa, capaz de engolir uma geração inteira e ameaçar o futuro do país.

E o detalhe mais assustador desta história não é o número de pessoas trancadas.

É o que vai acontecer com elas quando os pais que as sustentam, hoje já idosos, começarem a morrer.

Existe uma bomba-relógio armada em mais de 1 milhão de casas japonesas.

E hoje vai perceber como ela foi montada.

O que acontece do lado de dentro destas portas?

E porque é que o Japão, mesmo sendo um dos países mais ricos do mundo, ainda não conseguiu desarmá-la.

Antes de continuar, se gosta deste tipo de documentário que mergulha no lado que ninguém mostra da Ásia, com dados reais e fontes verdadeiras, faça duas coisas rapidamente.

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Tudo o que vai ouvir aqui está baseado em levantamentos oficiais do governo japonês e em reportagens sérias sobre o assunto.

Pode seguir comigo.

Quando se pensa no Japão, a imagem que vem à cabeça é quase sempre a mesma.

Tecnologia, eficiência, comboios que chegam no segundo exato, ruas lotadas e limpas, uma sociedade que parece funcionar como um relógio perfeito.

Mas todo relógio perfeito tem um preço e parte deste preço está escondida atrás de milhões de portas fechadas.

Em 2023, o governo japonês divulgou o resultado de um levantamento nacional feito no ano anterior e o número assustou até quem já estudava o assunto.

Cerca de 1.460.000 japoneses, com idade entre 15 e 64 anos, viviam em algum grau de reclusão social severa.

Isso equivale a aproximadamente 2% de toda esta faixa da população.

Dois em cada cem adultos em idade produtiva, trancados.

Para dar uma dimensão, é como se uma cidade inteira, do tamanho de uma grande capital, tivesse decidido fechar as cortinas e nunca mais sair de casa.

Só que estas pessoas não estão reunidas num só lugar.

Elas estão espalhadas, uma a uma, dentro de quartos comuns, em bairros comuns, em casas que, por fora, parecem absolutamente normais.

E é justamente esta invisibilidade que torna o problema tão difícil de enxergar e tão fácil de ignorar.

Mas para perceber como alguém chega a este ponto, primeiro é preciso entender exatamente o que significa ser um Hikikomori.

Porque não é simplesmente ser tímido ou gostar de ficar em casa.

A palavra Hikikomori foi popularizada nos anos 90 pelo psiquiatra japonês Tamaki Saito, que percebeu que estava diante de um padrão novo e alarmante.

Não era depressão comum, não era apenas ansiedade, não era preguiça, como muita gente ainda insiste em dizer.

Era um recolhimento extremo, prolongado, que se alimentava de si mesmo.

E é importante separar bem uma coisa da outra.

Ser introvertido, gostar de ficar em casa, precisar de um tempo sozinho, nada disso é Hikikomori.

Toda a gente, em algum momento, sente vontade de se recolher do mundo.

O Hikikomori é outra escala completamente diferente.

É quando este recolhimento deixa de ser um descanso e se transforma numa prisão.

Quando a pessoa não sai mais nem para aquilo que gostaria, quando perde os amigos, o trabalho, os estudos e mesmo

a sofrer com isso, ainda assim não consegue reverter.

Não é a escolha confortável de quem ama a própria casa, é a incapacidade dolorosa de conseguir atravessar a porta dela.

Oficialmente, o governo japonês considera Hikikomori a pessoa que se mantém em reclusão social por mais de 6 meses.

Mas 6 meses é só o começo.

O que impressiona é a escala desse isolamento, que tem níveis.

No grau mais leve, a pessoa ainda sai de casa, mas apenas para tarefas mínimas e solitárias, como ir até à loja de conveniência do bairro de madrugada quando não há ninguém na rua.

Num grau mais profundo, ela não sai mais de casa, mas ainda circula pelos cómodos quando os outros estão a dormir.

E no grau mais severo, ela praticamente não sai do próprio quarto.

Come ali, dorme ali, vive ali.

O mundo inteiro reduz-se a quatro paredes.

E aqui está o ponto que torna o Hikikomori tão difícil de entender de fora.

Estas pessoas, na maioria, não têm nenhuma deficiência física que as impeça de sair.

Elas poderiam abrir a porta a qualquer momento.

O que as prende não é uma tranca de metal.

É uma tranca invisível, feita de vergonha, de medo e de uma sensação esmagadora de fracasso.

Quanto mais tempo a pessoa passa isolada, mais difícil fica voltar, porque a cada dia trancada, a ideia de encarar o mundo lá fora cresce e vira um monstro.

É um poço que se aprofunda sozinho.

E a pergunta que naturalmente surge é: o que empurra alguém para dentro desse poço para começar?

A resposta não está num único evento.

Está na própria estrutura da sociedade japonesa e numa palavra que resume boa parte da pressão que existe por lá: Sekentei.

Sekentei é, mais ou menos, a sua reputação aos olhos dos outros.

É a preocupação constante com a imagem que a sua família, os seus vizinhos e a sociedade têm de si.

E no Japão, essa preocupação não é um detalhe.

É uma força que molda vidas inteiras.

Existe um ditado japonês muito conhecido que resume essa mentalidade: o prego que se destaca é martelado.

A ideia é que quem foge do padrão, quem se sobressai demais ou fica para trás demais, será pressionado de volta para a linha.

E o martelo que faz esse trabalho, na prática, é a vergonha.

Numa cultura assim, fracassar não é apenas uma frustração pessoal.

É uma humilhação pública.

É algo que mancha não só a si, mas a sua família inteira e o Japão oferece muitas oportunidades de fracassar publicamente.

O caminho esperado de um jovem japonês é rígido e estreito.

Ir bem na escola, passar num vestibular difícil,

Entrar numa boa universidade, conseguir um bom emprego numa grande empresa, de preferência para a vida toda.

Cada uma destas etapas é um funil, e quem escorrega em qualquer uma delas, quem sofre bullying na escola, quem reprova no exame de admissão da universidade, quem se forma e não consegue o emprego que a família esperava, carrega o peso de ter falhado onde quase todos, aparentemente, conseguem.

Não é à toa, as raízes do Hikikomori remontam aos anos 70 e 80, a um fenómeno chamado Futoko, a recusa escolar.

Crianças e adolescentes que por bullying ou por pressão insuportável, simplesmente paravam de ir à escola.

Muitos destes casos foram a semente do que hoje é a reclusão adulta.

Para quem chega a esse ponto, encarar o mundo passa a doer mais do que se esconder dele.

E aí a pessoa toma uma decisão que parece pequena, mas que muda tudo.

Ela fecha a porta do quarto.

Mas, na maioria das vezes, esse gesto teve um ensaio anos antes, ainda na infância, dentro da escola.

Para entender o Hikikomori adulto, é preciso voltar no tempo e olhar para as escolas japonesas,

porque é ali muitas vezes que a primeira porta se fecha.

O nome desse fenómeno é Futoko, a recusa escolar, crianças e adolescentes que faltam à escola por 30 dias ou mais ao longo do ano, por razões que não são doença nem falta de dinheiro.

Elas simplesmente não conseguem ou não suportam entrar naquele prédio.

E os números japoneses aqui são de arrepiar.

No ano letivo de 2024, o

O Japão registou um recorde histórico: 353.970 crianças do ensino básico classificadas como Futoko.

E não é um número isolado; é o décimo segundo ano consecutivo de aumento e mais do que o dobro do que era há apenas uma década.

A razão mais comum, apontada pelos próprios dados oficiais em mais de metade dos casos, é descrita como apatia ou ansiedade.

Crianças que, muito cedo, já perderam a vontade ou a força de participar.

E o que é que está a empurrar tanta gente para fora da sala de aula?

Um dos grandes fatores aparece na mesma pesquisa oficial e também é um recorde.

No mesmo período, o Japão reconheceu cerca de 769.000 casos de bullying nas escolas, o maior número da história.

O Ijime, como os japoneses chamam o bullying, é uma das forças mais cruéis por trás desta fuga silenciosa das salas de aula.

Por trás de cada estatística fria de abandono escolar, existe muitas vezes uma criança a ser esmagada por uma pressão que os adultos à sua volta nem sempre conseguem ver.

E uma parte destas crianças que fecham a porta da escola nunca mais consegue abrir por completo a porta para o mundo.

Elas apenas trocam a sala de aula pelo quarto.

E do lado de dentro deste quarto, começa uma rotina tão silenciosa quanto perturbadora.

O que é que uma pessoa faz trancada num quarto por meses ou anos a fio?

A resposta para a maioria dos hikikomori gira em torno de um único ponto de luz: a internet.

É pelo ecrã que eles preenchem as horas.

Videojogos, redes sociais, fóruns, vídeos, mangás, música.

A internet torna-se, ao mesmo tempo, a única companhia, a única distração e a única janela que ainda os liga de forma frágil ao resto da humanidade.

É por ela que muitos conseguem, no mínimo, não enlouquecer completamente de solidão.

E, com o tempo, esse mundo digital pode tornar-se mais real e mais confortável do que o mundo lá fora.

Muitos reclusos constroem, dentro de jogos e comunidades online, uma vida paralela inteira.

Têm amigos que nunca viram pessoalmente, conquistas, uma reputação, uma identidade, um lugar onde são aceites e onde ninguém lhes cobra um diploma ou um emprego.

O problema é que esse mesmo ecrã que alivia a solidão também remove o último motivo para atravessar a porta.

Se tudo o que a pessoa precisa – companhia, entretenimento, comida entregue à porta – chega até ao quarto, para que sair?

A tecnologia, que poderia ser uma ponte de volta para o mundo, acaba por se transformar no muro mais confortável de todos.

Com o tempo, o corpo desses reclusos adapta-se ao mundo fechado.

Um dos padrões mais comuns é a inversão completa do relógio biológico.

Eles passam a dormir durante o dia e a ficar acordados durante a noite.

E isso não é por acaso.

A noite é o horário em que a casa está em silêncio, em que os pais estão a dormir, em que não há risco de encontrar ninguém.

A escuridão torna-se um escudo.

É de madrugada que muitos se sentem seguros o suficiente para sair do quarto, ir até à cozinha, tomar banho.

Ou, no máximo, caminhar até uma loja de conveniência aberta 24 horas, escolhida justamente porque ali é possível comprar comida sem trocar uma palavra com ninguém.

E como é que eles se alimentam?

Na maioria dos casos, quem cuida disso são os pais.

É uma cena que se repete em mais de um milhão de lares japoneses.

Uma bandeja de comida é deixada silenciosamente do lado de fora da porta do quarto, que só é recolhida quando o filho tem a certeza de que o corredor está vazio.

Pai e filho podem passar dias, semanas, sem se verem diretamente, a morar na mesma casa, separados por uma porta e por um abismo que ninguém sabe como atravessar.

Outros hikikomori dependem inteiramente de entregas pela internet, recebendo comida e o que mais precisarem, sem nunca precisarem encarar um rosto humano.

Um dia típico para muitos deles é o exato avesso do nosso.

Enquanto o mundo acorda e sai para trabalhar, o hikikomori dorme.

Quando a casa finalmente silencia e a noite cai, ele desperta.

Passa as horas escuras de

do ecrã, come sozinho o que encontra, evita qualquer barulho que possa denunciar que está acordado.

E quando o sol começa a nascer e a família se levanta, ele recolhe-se de novo para não se cruzar com ninguém no corredor.

Vive, literalmente, nas sombras da própria casa, dia após dia, ano após ano, um fantasma que ainda respira

ocupando um quarto que a própria família, muitas vezes, já não sabe como alcançar.

É uma existência suspensa, nem morta, nem viva de verdade.

E durante muito tempo, o Japão preferiu acreditar que isso era um problema passageiro, coisa de adolescente rebelde,

uma fase que acabaria sozinha quando o jovem crescesse.

Foi aí que o país cometeu o seu maior erro de avaliação, porque esses jovens cresceram e não saíram.

E para entender porque tantos reclusos hoje já são adultos de meia-idade, é preciso olhar para um capítulo específico da história económica do Japão.

No fim dos anos 80, o país vivia um dos maiores booms económicos do mundo, o da economia da bolha.

Até que no começo dos anos 90, essa bolha estourou.

E o que veio depois ficou conhecido como a década perdida, um longo período de estagnação do qual o Japão levaria muitos e muitos anos para se recuperar.

Para cortar custos e, ao mesmo tempo, proteger os empregos dos funcionários mais velhos e vitalícios, as grandes empresas japonesas simplesmente fecharam as portas para os recém-formados.

E assim nasceu o que os japoneses chamam de era do gelo do emprego.

Uma geração inteira de jovens que se formou na hora errada e bateu de frente com o mercado de trabalho congelado.

No auge dessa crise, por volta de 2003, a taxa de desemprego entre os recém-formados chegou a quase 10%,

praticamente o dobro da média nacional.

Muitos desses jovens nunca conseguiram um emprego estável.

Passaram a vida a saltar de um trabalho temporário e mal pago para outro, sem segurança, sem carreira, sem futuro.

E uma parte deles, esmagada pela sensação de fracasso num país que valoriza tanto o sucesso profissional, foi-se recolhendo aos poucos para dentro de casa.

Essa geração perdida, que hoje está justamente na casa dos 40 e 50 anos, é o coração do problema mais grave ligado ao Hikikomori.

São pessoas que nunca tiveram a oportunidade de construir uma vida independente

e que agora envelhecem, dependendo dos pais, enquanto o Japão tenta, tarde demais, encontrar uma forma de as trazer de volta.

E isso leva ao lado mais silencioso e cruel desta história.

O que acontece quando esses reclusos e os pais que os sustentam envelhecem juntos.

Durante muitos anos, a imagem do Hikikomori foi a de um adolescente ou de um jovem na casa dos 20 anos, trancado no quarto a jogar videojogos.

E essa imagem hoje está perigosamente ultrapassada.

Porque o tempo passou. E aqueles jovens dos anos 90 e 2000 não se transformaram magicamente em adultos funcionais.

Muitos apenas envelheceram dentro do mesmo quarto.

Os dados do governo revelam essa mudança de forma brutal.

Das pessoas em reclusão, cerca de 613.000, têm entre 40 e 64 anos de idade.

Não são adolescentes, são adultos de meia-idade,

muitos com 30, 40 anos de vida, praticamente inteiros passados longe da sociedade.

E, ao contrário do estereótipo, isso não é mais um problema só de homens.

Nessa faixa dos 40 aos 64 anos, as mulheres já representam mais de metade dos casos, 52%.

segundo o levantamento mais recente.

A reclusão não escolhe idade, nem género.

Ela apenas se acumula, década após década.

E esse dado desmistifica um dos maiores mitos sobre o assunto.

Durante muito tempo, o Hikikomori foi tratado como preguiça, como frescura de jovem mimado que não quer trabalhar.

Mas é impossível olhar para uma mulher de 55 anos, trancada há três décadas, e chamar aquilo de preguiça.

O que existe ali é uma pessoa que, em algum momento, foi engolida por uma dor que não

nomear e que a sociedade em redor não soube ou não quis ver a tempo.

Não é falta de vontade de trabalhar.

É um excesso de medo de viver.

E é nesse ponto que a crise deixa de ser uma tragédia individual

de cada família isolada e torna-se uma ameaça para o país inteiro, porque um jovem recluso é sustentado pelos pais na força da vida.

Mas um adulto de 50 anos recluso é sustentado por pais que já estão na casa dos 80.

E foi exatamente dessa conta que nasceu o nome do problema mais assustador ligado ao Hikikomori.

Um nome frio feito apenas de números: 8050.

O chamado problema 8050 é provavelmente a face mais sombria de toda essa história.

O nome vem de uma combinação simples e devastadora de idades.

Pais na casa dos 80 anos sustentando financeira e emocionalmente, filhos Hikikomori na casa dos 50.

Imagina a cena.

Um casal de idosos, reformados, a viver de uma pensão modesta, a cuidar de um filho adulto que há 20, 30 anos não trabalha,

não sai, não interage com o mundo.

Estes pais envelhecem, ficam doentes, precisam, eles próprios, de cuidados.

E ao mesmo tempo continuam a ser a única coisa que mantém aquele filho vivo.

Segundo os levantamentos, um em cada três Hikikomori de meia-idade depende inteiramente do sustento dos pais idosos.

Não tem rendimentos, não tem poupança, não contribuíram para a reforma, não tem para onde ir.

E aqui está a bomba-relógio.

O que acontece quando estes pais morrem?

De um dia para o outro, a pessoa reclusa perde não só quem ela ama, mas a única fonte de comida, de dinheiro, de habitação, o último fio que a ligava à sobrevivência.

Uma pessoa que não fala com ninguém há décadas, que não sabe como pedir ajuda, que sente pavor de qualquer contacto humano,

vê-se subitamente sozinha no mundo.

E os casos mais trágicos já começaram a aparecer no Japão.

Reclusos encontrados mortos em casa, tempos depois da morte dos próprios pais, às vezes sem que ninguém sequer soubesse que eles existiam.

E há um detalhe que torna tudo ainda mais silencioso:

a vergonha.

Em muitas famílias japonesas, ter um filho Hikikomori é vivido como um segredo, algo que não se conta aos vizinhos, aos parentes, a ninguém.

Pais passam anos, décadas, escondendo a existência daquele filho recluso, com medo do julgamento, daquela mesma reputação social, o Sekentei,

que ajudou a criar o problema lá atrás.

E este silêncio cobra um preço altíssimo.

Significa que incontáveis casos nunca chegam a uma estatística, nunca chegam a um serviço de ajuda, nunca chegam a lugar nenhum.

A pessoa desaparece duas vezes.

Primeiro, para dentro do próprio quarto.

Depois, para dentro do segredo da própria família.

É o encontro de duas das feridas mais profundas da sociedade japonesa:

a reclusão e a morte solitária.

E este problema não fica contido dentro de cada família.

Ele transborda e atinge o país inteiro.

Pensa na conta.

Mais de 1 milhão de pessoas em plena idade produtiva que não trabalham, não pagam impostos, não contribuem para a reforma,

e que, pelo contrário, muitas vezes vão precisar ser sustentadas pelo estado, quando os pais que hoje as mantêm não estiverem mais por perto.

Em qualquer país, isso já seria grave.

No Japão é quase uma sentença.

Porque o Japão já vive a mais severa crise demográfica do planeta.

É um país que envelhece em ritmo acelerado com cada vez menos crianças a nascer e que já enfrenta uma escassez crónica de mão de obra.

Algumas projeções apontam que até 2040, o país pode ter uma falta de cerca de 11 milhões de trabalhadores.

Ou seja, o Japão precisa, com urgência, de cada pessoa em idade de trabalhar.

E ao mesmo tempo, tem mais de 1 milhão delas reclusas em quartos,

fora da força de trabalho, muitas delas para sempre.

Visto assim, o Hikikomori deixa de ser apenas um drama humano e psicológico e torna-se também um problema económico de escala nacional.

Cada recluso é alguém que poderia estar a produzir, a consumir,

sustentando justamente o sistema de reformas que o Japão terá cada vez mais dificuldade em pagar.

O milhão e meio de reclusos não é a causa deste problema, mas é, sem dúvida, um agravante silencioso

que empurra o país ainda mais rápido em direção a este abismo.

Diante de uma tragédia desta escala, é natural perguntar: e o Japão, um país tão rico e organizado, não faz nada?

A verdade é que faz.

E algumas das soluções que surgiram são tão inusitadas quanto o próprio problema.

Diante de um problema tão delicado, surgiu no Japão uma solução que, à primeira vista, parece estranha, mas que revela muito sobre a natureza da crise.

São as chamadas irmãs de aluguer, em japonês, algo próximo de Renta Oneshan, que significa irmã mais velha de aluguer.

Funciona assim.

Famílias desesperadas que já tentaram de tudo e não conseguem sequer fazer o filho abrir a porta, contratam mulheres treinadas para se aproximar do recluso aos poucos.

O Fundo Monetário Internacional já alertou que o envelhecimento e o encolhimento da população vão pressionar de forma violenta as finanças públicas japonesas nas próximas décadas.

Elas não invadem, não gritam, não forçam.

Elas começam devagar, muitas vezes apenas conversando através da porta fechada, dia após dia, semana após semana, com uma paciência quase infinita, tentando construir um mínimo de confiança com alguém que perdeu a capacidade de confiar.

O custo deste serviço gira em torno de 100.000 ienes por mês, algo perto de 1.000 dólares por visitas semanais de cerca de 1 hora.

Uma das organizações mais conhecidas neste trabalho chama-se New Start.

E o processo que ela descreve mostra o tamanho do desafio.

Não se trata de tirar alguém do quarto numa semana.

Leva-se, em média, de um a dois anos apenas para conseguir que a pessoa saia daquele cómodo.

A reintegração acontece em passos minúsculos, quase invisíveis.

Primeiro, conseguir que o recluso apenas abra a porta.

Depois que ele aceite fazer uma refeição junto com a família.

Mais adiante, que ele aceite dar uma curta caminhada do lado de fora, sempre de madrugada, no horário em que as ruas estão vazias e o risco de encontrar outra pessoa é mínimo.

Cada um destes passos pode levar meses.

Organizações assim relatam que, com este acompanhamento, uma parcela significativa dos casos consegue, aos poucos, voltar a viver de forma independente.

E não são apenas as famílias que tentam.

O próprio governo japonês, diante do tamanho da crise, passou a investir em centros de apoio, linhas de ajuda e programas de reintegração espalhados pelo país.

Existem casas de transição onde os reclusos passam a viver juntos e reaprendem, no seu próprio ritmo, tarefas simples da vida em sociedade, como fazer compras, cozinhar ou trabalhar poucas horas por dia.

Mas todos estes esforços esbarram sempre no mesmo obstáculo.

O hikikomori, por definição, é alguém que não quer ser ajudado ou que sente pavor de pedir ajuda.

Não se pode resgatar quem não abre a porta.

E é por isso que, apesar de todo o dinheiro investido e de toda a boa vontade, o número de reclusos no Japão continua, ano após ano, teimosamente a crescer.

Mas nem tudo neste mercado é bem intencionado.

A procura desesperada das famílias também abriu espaço para negócios obscuros, empresas que prometem resgates rápidos e usam métodos forçados, arrancando pessoas de casa à força, o que muitas vezes só aprofunda o trauma.

E o simples facto de existir um mercado inteiro dedicado a convencer pessoas a saírem do próprio quarto já diz tudo sobre o tamanho e a gravidade do que o Japão está a enfrentar.

No fim, o hikikomori não é uma história sobre pessoas preguiçosas ou antissociais.

É uma história sobre o que acontece quando uma sociedade cobra perfeição, pune o fracasso com a vergonha e não deixa espaço para quem escorrega no caminho.

É o retrato de um país que construiu uma das máquinas sociais mais eficientes do mundo e que agora precisa lidar com mais de 1 milhão de pessoas que...

essa máquina deixou para trás e que preferiram desaparecer por não conseguirem acompanhar.

E talvez o mais perturbador seja perceber que o Hikikomori já não é um problema exclusivamente japonês.

Nas últimas décadas, investigadores passaram a identificar exatamente o mesmo padrão de reclusão extrema em dezenas de outros países.

Estados Unidos, Coreia do Sul, China, Itália, França, Índia, e sim, também aqui em Portugal.

Um amplo estudo internacional que ouviu psiquiatras de nove países diferentes, chegou a uma conclusão impressionante.

Os padrões de isolamento encontrados eram tão parecidos entre si que as diferenças de um país para o outro eram quase irrelevantes.

Ou seja, isto não é uma simples esquisitice cultural japonesa.

É algo que parece nascer da própria vida moderna.

E faz sentido,

porque a matéria-prima do Hikikomori, a pressão para ter sucesso, o medo do julgamento,

a vergonha do fracasso, a solidão, somada a um ecrã conectado que permite viver sem nunca sair de casa, existe hoje em praticamente todo o canto do mundo conectado.

O Japão apenas chegou primeiro e em maior escala a um destino para o qual muitas outras sociedades, talvez a nossa inclusive, podem estar a caminhar sem perceber.

A versão japonesa é apenas a forma mais avançada de um mesmo processo.

É apenas a versão mais extrema e mais visível de uma pressão que existe de formas diferentes no mundo inteiro.

A solidão, o medo do julgamento, a sensação de não ser bom o suficiente, a vontade de simplesmente fechar a porta e desaparecer.

Por isso, talvez a lição mais importante que o Japão tenha a oferecer ao resto do mundo, não seja sobre tecnologia, nem sobre comboios pontuais.

Talvez seja um alerta.

O alerta de que uma sociedade que transforma cada pessoa num número de desempenho, que trata o fracasso como uma vergonha imperdoável e que quase não abre espaço para quem precisa de mais tempo ou de uma segunda oportunidade, acaba por criar, sem perceber, gente demais que prefere desaparecer a continuar a tentar.

O Hikikomori não é uma esquisitice de um povo distante.

É o sintoma mais extremo de uma pressão que, de uma forma ou de outra, já bate à porta do mundo inteiro.

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Acha que uma pessoa se torna Hikikomori por escolha própria? Ou é a sociedade que a empurra para dentro do quarto?

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