Tudo o que você precisa saber sobre TDAH
Descrição
Compreenda o que acontece no cérebro de quem possui a perturbação – e saiba por que a nossa distração com o telemóvel não é suficiente para um autodiagnóstico. A lista completa de sintomas de PHDA, de acordo com a edição mais recente do DSM, pode ser consultada aqui: https://super.abril.com.br/saude/tdah-o-que-o-tiktok-nao-conta Siga a Super no Insta: https://instagram.com/revistasuper Assine a Super a partir de R$ 9,90 por mês: https://super.abril.com.br/ofertas/super/ 00:00 - Homem obtuso 01:54 - História do diagnóstico 03:47 - O cérebro de quem tem PHDA 5:47 - Por que a PHDA persistiu ao longo da evolução? 7:15 - O tratamento
Transcrição completa
📺 Ver na TV VintageO grego Anais Thetus não tinha uma vida fácil lá em Atenas.
Ele não sabia fazer cálculos, esquecia compromissos importantes,
e ficava aborrecido sempre que ia ao teatro.
Na hora de cozinhar, era um desastre. Ele estragava sempre as receitas por excesso de sal,
já que não se lembrava se tinha posto ou não o tempero.
O Anais Thetus não era uma pessoa de verdade. Na verdade, esta palavra significa homem obtuso em grego antigo.
Ele é um dos 30 arquétipos do filósofo Teofrasto, um discípulo de Aristóteles que descreveu a sociedade ateniense no século IV antes de Cristo.
Havia o homem falador, o cobarde, o agressivo.
Recentemente, um estudo sugeriu que o Anais Thetus pode ser a descrição mais antiga dos sintomas que pertencem ao Transtorno do Défice de Atenção com Hiperatividade, o famoso TDAH.
É claro que não dá para cravar um diagnóstico só com este texto em grego, mas não dá para negar que o homem obtuso reunia as características que associamos hoje à perturbação.
Desatenção, desorganização, dificuldade em aprender, inquietação e impaciência.
O TDAH atinge 5,3% das crianças e adolescentes em todo o mundo e 2,5% da população adulta.
Graças às redes sociais, nunca falámos tanto sobre TDAH.
E dá para entender porquê. Quem é que nunca se esqueceu de uma carteira em casa, perdeu o foco graças ao Instagram, ou procrastinou até ao último dia para entregar um relatório no trabalho?
Episódios pontuais, porém, não bastam.
O TDAH é uma condição séria que, se não for tratada da maneira certa, pode trazer uma série de problemas.
Pessoas com TDAH sofrem mais acidentes, demissões no trabalho e reprovações na escola.
Também se divorciam mais e são mais propensas a desenvolver ansiedade, depressão, alcoolismo e obesidade.
Vamos entender tudo o que precisa de saber sobre a perturbação.
No século XVIII, o fisiologista alemão Melchior Weikard dedicou um capítulo inteiro de um dos seus livros para descrever pessoas desatentas. Para ele, a causa estaria na má educação recebida durante a infância.
Weikard sugeriu vários tratamentos. Alguns eram bem razoáveis, como fazer exercício e criar um ambiente de estudo sem distração.
Mas outros não faziam o menor sentido, como tomar banhos frios e beber leite azedo.
No início do século XX, o médico George Still mudou o rumo das pesquisas na área. Em vez de colocar a culpa nos pais, ele supôs que a desatenção e a impulsividade tinham raízes biológicas,
por hereditariedade ou por conta de alguma lesão cerebral.
Na altura, as pessoas ainda sabiam pouco sobre genética, então a maioria dos pesquisadores apostou na segunda hipótese, mas com o passar do tempo, essa ideia caiu por terra.
Na segunda metade do século XX, a terminologia mudou. Em vez de lesão, passou-se a dizer que a perturbação seria algum tipo de disfunção cerebral.
Em 68, o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais, o famoso DSM, incluiu pela primeira vez uma condição semelhante ao TDAH. Foi chamada de reação hipercínica da infância.
Mas essa não era uma definição muito precisa, já que nem todas as pessoas desatentas são hiperativas.
Por isso, a condição recebeu o nome de DDA, Défice de Atenção com ou sem hiperatividade.
No final dos anos 80, o DDA foi rebatizado para o nome que usamos hoje, TDAH.
Pode manifestar-se de três formas possíveis: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa e impulsiva, ou uma forma combinada.
A edição mais recente do DSM lista 18 sintomas: nove para desatenção e nove para hiperatividade.
Vamos deixar um link aqui na descrição para que possa ler todos eles com calma.
Mas afinal, como é que funciona a cabeça de alguém com TDAH?
O nosso cérebro tem 86 mil milhões de neurónios e cada um deles está ligado a pelo menos outros 10.000.
É um emaranhado de fios, tipo aqueles postes de luz com gato net, sabe?
Mas é uma confusão organizada. Parte destes neurónios integram redes neurais que conectam diferentes áreas do cérebro para que elas ativem ao mesmo tempo, dependendo do que estivermos a fazer.
Uma dessas redes é chamada de modo padrão. Ela funciona quando estamos naquele estado de sonhar acordado, pensando sobre o passado ou divagando sobre o futuro.
Quando surge uma tarefa complexa, o nosso cérebro diminui a atividade dessa rede de modo padrão e ativa outras conexões ligadas à atenção. É aí que paramos de divagar e conseguimos focar.
O problema para quem tem TDAH é que essa rede de modo padrão não desliga completamente. É como se o cérebro trabalhasse com um ruído de fundo, fica mais difícil focar em algo.
Quem tem TDAH costuma apresentar níveis desregulados de duas moléculas mensageiras: a dopamina e a noradrenalina. A dopamina é o neurotransmissor ligado à motivação.
Já a noradrenalina aumenta a nossa excitação e coloca-nos num estado de alerta.
É por isso que muitas crianças com TDAH só passam de ano na escola depois de muita prova de recuperação.
É que o stress gigante faz subir os níveis de noradrenalina e aí sim o cérebro acelera.
Também explica porque, mesmo com a desatenção, quem tem TDAH pode passar horas no videojogo. É que os joguinhos oferecem doses frequentes de dopamina e garantem a motivação.
Além disso, o córtex pré-frontal de quem tem TDAH amadurece mais devagar. Esta é uma região do cérebro associada ao nosso planeamento e ao raciocínio lógico. É ele quem trava os nossos impulsos e nos ajuda a concentrar.
Com o tempo, o cérebro pode terminar o seu desenvolvimento e entrar nos eixos. Ou seja, o TDAH pode desaparecer. É por isso que é mais presente em crianças do que em adultos.
Uma boa parte do TDAH pode ser explicada pela genética. Mas se esta é uma condição que traz tantos impactos negativos na nossa vida, porque é que a seleção natural não a eliminou?
É que, na verdade, a desatenção e a hiperatividade podem ter sido uma grande vantagem para os nossos antepassados.
Um estudo de 2024 colocou centenas de adultos a jogar um videojogo. O objetivo era recolher frutas nos vários arbustos que apareciam no ecrã. Podia escolher só um arbusto e ficar ali tranquilamente, ou sair pelo bosque à procura de vários deles.
Quem mudou mais vezes de arbusto conseguiu apanhar mais frutinhas. E adivinhe só, num questionário prévio, essas pessoas foram justamente as que deram sinais de TDAH.
Na selva, onde comida e alimento estavam espalhados, os melhores exploradores eram aqueles mais impulsivos.
E até a desatenção podia salvá-lo. Imagine ficar super focado em apanhar frutinhas e não perceber que um leão se aproxima.
O problema é que quando deixámos de ser nómadas, as necessidades mudaram. Para construir casas e cuidar de quintas, era preciso mais atenção e paciência.
Esta mudança no modo de vida aconteceu há uns 12.000 anos. Em termos evolutivos, é muito pouco para acontecer qualquer pressão nos genes.
Se lá atrás já foi uma mudança brusca, hoje em dia ainda é muito pior, com telemóveis e redes sociais a fragmentar a nossa atenção. Estas coisas não criam TDAH, mas pioram muito os sintomas de quem já o tem.
O TDAH é uma perturbação do neurodesenvolvimento, tipo o autismo. Ou seja, precisa de aparecer no início da vida, antes dos 12 anos.
Se suspeita de um caso de TDAH, existem questionários online que o ajudam a tomar a decisão de procurar um especialista ou não.
As consultas podem ser feitas com psicólogos, neurologistas e psiquiatras. No caso das crianças, também se pode procurar um neuropediatra.
O resultado não sai num simples exame. O diagnóstico leva em conta testes, o histórico do paciente e entrevistas com pessoas próximas.
Os problemas têm de aparecer em mais de uma esfera da vida da pessoa. Se a criança vai mal na escola, mas vive bem o resto do tempo, talvez não tenha TDAH.
Feito o diagnóstico, começa o tratamento, que se baseia num tripé de ações: educação, psicoterapia e medicamentos.
A primeira parte consiste em informar-se com fontes fiáveis. As redes sociais estão cheias de conteúdo sobre TDAH, mas é preciso ter atenção.
Em 2022, uma pesquisa mostrou que dos 100 vídeos mais populares sobre TDAH no TikTok, metade tinha informações falsas.
Já as terapias servem para habilitar o paciente a lidar com os próprios problemas. Para o TDAH, a mais estudada é a do tipo cognitivo-comportamental, mas outros tipos também são válidos, especialmente para tratar coisas que costumam vir acompanhadas com TDAH, tipo baixa autoestima, ansiedade e depressão.
Por fim, há os medicamentos. Eles não curam TDAH, mas regulam os sintomas. Existem vários tipos e atuam nos níveis de dopamina e noradrenalina da pessoa.
Os remédios são benéficos em 70% dos casos, mas mesmo assim, o SUS ainda não os disponibiliza por cá.
Desde 2021, há uma lei que garante o acompanhamento integral de alunos com TDAH. Está em vigor, mas ainda não foi regulamentada. Ou seja, não há detalhes sobre como deve ser a capacitação dos professores nem as adaptações em sala de aula. Sem isso, não é possível exigir das escolas que a norma seja cumprida corretamente.
Não faltam ferramentas para controlar o TDAH, mas elas precisam de estar disponíveis para toda a gente. Viver com uma perturbação já é um quebra-cabeças complexo e as peças não precisam de ficar ainda mais misturadas.
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