Metanoia: O Estágio Das Pessoas Mais Raras
Descrição
Tenta voltar. Agora, enquanto você está parado aí. Tenta voltar a achar graça naquilo que te fazia rir três anos atrás. Tenta se empolgar de novo com a coisa que te empolgava. Tenta acreditar outra vez numa explicação que você já derrubou. Você não consegue. E não é falta de vontade. Seria muito mais fácil se desse — voltar a caber, voltar a se divertir, voltar a achar aquilo tudo suficiente. Só que não tem o botão. Os gregos tinham uma palavra pra isso. Metanoia. E a primeira coisa honesta a dizer sobre ela é que ninguém faz uma metanoia. Ela acontece com você. Neste vídeo: por que a mudança real não tem passo nem técnica, o que Paulo perdeu antes de ganhar qualquer coisa, o salto de Kierkegaard e por que não existe meio metanoia, Jung e a competência que morre junto com a versão antiga, o período em que você executa a pessoa que não existe mais, Heidegger e o impessoal que não tem dono, o que a clareza compra e o que ela não compra, e a porta que não abre pros dois lados. CAPÍTULOS 00:00 Tenta voltar 01:58 Não foi um momento de luz 04:12 O salto não tem meio 06:11 Quem morreu sabia fazer coisas 08:25 O mundo antigo não encolheu 10:19 Não tem com quem brigar 12:29 O que você ganha não é felicidade 14:17 Uma porta que não abre dos dois lados 16:10 Reconhecimento 🔔 Inscreva-se pra reflexões diárias sobre a mente e o comportamento humano: https://youtube.com/@DiógenesOcão?sub_confirmation=1 Diógenes de Sínope — filosofia e psicologia para quem quer enxergar além da superfície. Carl Jung, estoicismo, Nietzsche, Schopenhauer, autoconhecimento e comportamento humano. #filosofia #psicologia #autoconhecimento #kierkegaard #reflexão
Transcrição completa
Não há nada permanente, exceto a mudança.
— Heráclito
Tenta voltar.
Agora, enquanto estás parado aí, tenta voltar a achar graça naquilo que te fazia rir há três anos.
Tenta entusiasmar-te de novo com a coisa que te entusiasmava.
Tenta acreditar outra vez numa explicação que já derrubaste.
Tenta.
Não consegues.
Não é falta de vontade.
Tu queres.
Seria muito mais fácil se desse.
Voltar a caber, voltar a divertir-te, voltar a achar aquilo tudo suficiente.
Só que não há o botão.
Repara no que acabou de acontecer.
Consegues lembrar perfeitamente como era ser aquela pessoa.
Lembras-te do que ela achava importante?
Consegues até descrevê-la com detalhe e não consegues ser ela por cinco segundos.
Essa é a única evidência fiável de que uma coisa aconteceu contigo.
Não é clareza.
Não é paz.
Não é sabedoria.
Nada disso aparece da forma que prometem.
É a ausência de retorno.
Os gregos tinham uma palavra para isso.
Metanoia.
Depois foi traduzida como arrependimento, o que estragou tudo, porque arrependimento é uma coisa que a pessoa sente sobre um ato.
Metanoia é outra coisa.
É a mente que ficou do outro lado de si mesma.
E a primeira coisa honesta a dizer sobre isso é que ninguém faz uma metanoia.
Não há passos.
Não há técnica.
Não há quatro etapas para matar a tua versão antiga. A tua versão antiga não é morta.
Ela morre.
Sem assinares nada, sem escolheres o dia, e normalmente, sem perceberes que foi aquele dia.
E o que vem depois é o assunto que quase ninguém trata.
A expectativa que toda a gente tem é de um clarão. Um instante alto, cinematográfico, em que a pessoa entende tudo de uma vez e sai dali diferente.
"A morte não é o maior dos males, mas o medo da morte." — Epicteto
Não costuma ser assim.
Costuma ser o contrário.
Uma coisa que estava a segurar o chão, para de segurar.
E quase nunca acontece numa tragédia. Isso é a parte mais desorientadora.
Sobrou o período em que não tem estrutura nenhuma.
E precisa continuar a acordar, a trabalhar,
a responder a mensagens e a ir a aniversários.
Exatamente como antes.
Com as ferramentas de leitura do mundo todas desligadas.
Ninguém filma esse período. Ele não rende.
É só um sujeito calado que anda mais devagar do que andava.
Kierkegaard chamou a isso um salto qualitativo.
E a palavra importante é salto.
A ideia dele é que as mudanças de verdade não acontecem por acumulação.
Não vai deslizando de um estágio da existência para o seguinte, um bocadinho por mês, como quem melhora numa habilidade.
Está de um lado e depois está do outro.
Não existe a posição intermédia.
Não existe estar 60% convertido.
Não existe meia metanoia.
E isso explica uma frustração muito específica.
Não consegue contar isso a ninguém como processo.
Quando alguém pergunta o que aconteceu consigo,
a resposta honesta é inútil.
Não houve divórcio.
Nada aconteceu. Não houve demissão, não houve morte.
Houve uma conversa num domingo e depois dela as coisas pararam de funcionar como funcionavam.
Dito em voz alta.
Então fica com duas opções más.
Isso parece drama.
Ou inventa uma causa proporcional que seria mentira,
ou cala a boca.
Quase toda a gente cala a boca.
E o silêncio é lido de fora como fecho, o que é mais uma coisa que vai carregar sem poder corrigir.
Há ainda uma segunda consequência do salto, e é a mais prática de todas.
Como não houve transição, não tem treino.
Quem muda devagar, vai aprendendo a operar na nova posição enquanto lá chega.
Chegou pronto no lugar errado, com perceção nova e nenhuma habilidade nova.
A ver mecanismos que não sabe o que fazer com, dentro de uma vida inteira que foi montada pela pessoa anterior e que continua à sua espera todas as segundas-feiras de manhã.
Jung tratava isso como morte e reconstrução, não como melhoria.
E a palavra morte aqui não é metáfora de autoajuda, porque a versão que morreu era competente.
Isso é o que ninguém lhe conta.
A pessoa que era sabia fazer coisas que já não sabe fazer.
Sabia o que responder na mesa.
Sabia rir na hora certa sem pensar.
Sabia entrar numa roda e entrar inteira, sem metade a ficar de fora a observar.
Tinha opinião sobre futebol e sobre política e sobre a vida dos outros.
E essas opiniões saíam prontas, sem custo, e serviam perfeitamente para ocupar duas horas de convivência.
Era um sistema que funcionava.
Não encravava. Rodava sozinho.
Não ganhou uma versão melhor desse sistema. Perdeu o sistema.
O substituto chegou incompleto. Chega sempre incompleto.
E é por isso que os primeiros anos depois parecem regressão e não evolução.
Está pior em tudo o que é medido socialmente.
Mais lento, mais estranho, mais difícil de conversar.
Jung percebeu também qual é a reação mais comum a esse estado, e é uma reação que estraga tudo.
A pessoa transforma aquilo em patente.
Começa a usar o
que lhe aconteceu, como prova de que é de outra categoria.
Trata o desconforto como insígnia.
Olha para a mesa e pensa: Eles não chegaram onde eu cheguei.
É compreensível e é a forma mais rápida de transformar uma coisa que lhe aconteceu numa fantasia que está a vestir.
Porque quem está mesmo nesse estado, tem um problema prático e nenhuma medalha.
Está a tentar descobrir como passar um domingo inteiro com a família sem parecer um morto.
E não como ser reconhecido por uma superioridade que ninguém na sala pediu.
A segunda fase disso é mais silenciosa e dura mais tempo.
As conversas param de funcionar.
Não todas e não de uma vez.
Primeiro é um tipo específico de conversa.
Depois são dois.
Depois percebe que das seis coisas que se falam numa mesa comum, quatro já não o alcançam.
E há uma leitura errada disso, que é muito fácil de fazer.
Achar que o seu mundo encolheu.
Ele não encolheu.
Ele continua exatamente do mesmo tamanho.
As mesmas pessoas, as mesmas mesas, as mesmas quartas-feiras, o mesmo grupo no telefone com o mesmo volume de mensagens por dia.
Quem deixou de caber foi você.
E por um tempo, continua a ir.
Essa é a parte que ninguém descreve.
Há um período que pode durar anos em que a pessoa ainda comparece.
Vai ao churrasco, vai à reunião, vai ao aniversário.
E lá dentro faz uma coisa específica: executa a versão antiga de si mesmo, manualmente.
Dá as respostas que aquela pessoa daria.
Ri nas horas em que ela ria.
Usa as opiniões dela que ainda estão guardadas e ainda funcionam.
E funciona.
Ninguém desconfia.
Que é precisamente o problema.
Porque a solidão mais pesada deste estágio não é a de ficar em casa.
É a de estar numa sala cheia, a ser tratado com carinho verdadeiro por pessoas que estão a relacionar-se com um sujeito que não existe mais há três anos.
Não está a ser rejeitado ali.
Está a ser bem recebido.
Só que estão a receber bem outra pessoa.
E é o único na sala que sabe disso.
Heidegger deu o nome ao que saiu de dentro.
E o nome não é as pessoas.
Ele chama de agente, o impessoal.
Aquilo que decide o que fazemos, o que dizemos, com o que nos preocupamos, qual é a piada engraçada e qual é a resposta certa para: E então, tudo bem?
E o detalhe decisivo é que isso não tem dono.
Ninguém é agente.
Nenhuma pessoa específica da sua vida inventou aquelas regras.
Nenhuma delas o obrigou a seguir.
Nenhuma delas o vai cobrar formalmente quando parar.
Toda a gente está apenas a executar o mesmo programa, incluindo quem mais ama.
Incluindo você, durante 30 anos.
Isso resolve a parte mais venenosa deste processo.
Porque quando as conversas param de funcionar, a cabeça procura um culpado.
E o culpado disponível são as pessoas.
Elas são superficiais.
Elas não querem pensar.
Elas contentam-se com pouco.
Não é verdade.
E sabe que não é, porque conhece essas pessoas.
Sabe o que elas carregam, o que elas aguentaram, o quão boas algumas delas são.
“Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.”
– Nietzsche
O que mudou não foi o caráter de ninguém.
Foi que o programa parou de funcionar em si.
E um programa que para de funcionar não deixa um bilhete a explicar.
E há uma coisa que o próprio Heidegger faz questão de dizer.
Que desmantela qualquer leitura de patente.
Ninguém sai disso de uma vez por todas.
Não existe viver fora do impessoal.
Também volta para ele todos os dias, no automático, em dezenas de situações.
E é bom que volte, porque é assim que se atravessa uma fila de banco e uma reunião de condomínio sem enlouquecer.
A diferença não é que está fora.
É que a sua versão automática avariou.
E agora faz à força o que toda a gente faz sem perceber.
É preciso ser exato sobre o que isso rende.
Porque promessa vaga é o que este assunto mais atrai.
Não rende paz.
Não rende alegria.
Não rende relações melhores.
Rende apenas uma coisa.
E ela é mais restrita e mais útil do que tudo o que lhe prometeram.
Deixa de poder ser vendido.
Alguém faz um discurso na empresa sobre propósito.
E enquanto a pessoa fala, está a ver a estrutura do discurso.
De onde veio, o que está a pedir e o que está a esconder.
Não é cinismo, é leitura.
Não consegue desligar.
Uma promoção aparece e consegue calcular o preço real dela em horas, em anos de vida, no tipo de pessoa que terá de ser para ocupar aquela cadeira.
Antes só via o número.
Alguém diz que se importa e mede o tamanho do que está a ser dito.
Não com desconfiança, com régua.
Percebe se o interesse é pela sua situação ou pela própria.
E percebe sem precisar de prova, porque já esteve dos dois lados disso.
E principalmente, reconhece o mecanismo enquanto ele está a funcionar em si.
Isso é a clareza.
Não é ver a verdade do universo.
É ver em tempo real o que o está a mover.
É uma moeda forte.
Numa economia pequena.
Ela compra precisão.
Não compra companhia.
Não compra entusiasmo e não compra o domingo de volta.
Quem diz que compra está a vender alguma coisa, volta ao teste do início.
Tentou voltar e não conseguiu.
Agora repare no que isso significa porque é diferente do que parece.
Não significa que subiu.
Não existe uma escada aqui.
Não há andar.
Não há quem esteja mais alto.
As pessoas da sua mesa não ficaram para trás, porque não existe um lugar para onde deveriam estar a ir.
Significa outra coisa, mais simples e mais definitiva.
Passou por uma porta que não abre para os dois lados.
E é isso que muda a natureza da sua solidão.
Porque a pergunta que faz de madrugada é: o que fiz de errado para chegar aqui?
E essa pergunta pressupõe que existia uma versão sua que teria feito certo e continuado na sala.
Não existia.
Não escolheu entender o que entendeu.
Não houve um dia em que optou por não conseguir mais achar piada.
Isso aconteceu consigo da mesma forma que acontece com qualquer um que passa pelo mesmo tipo de coisa.
Quem não passa, não passa.
E quem passa, passa.
Quem não passa, não passa. E nenhum dos dois...
não decidiu nada.
Então, não há erro para corrigir.
E não há mérito para reivindicar.
Há uma posição.
E a solidão daqui não é o castigo por ter vindo.
É o relevo do lugar.
É assim que este terreno é para toda a gente que está nele, em qualquer época.
Com qualquer história.
Não está sozinho porque falhou.
Está sozinho porque já não consegue ser duas pessoas ao mesmo tempo.
E a que sabia ficar na sala já não existe.
Se chegou até aqui, é porque isto não foi novidade.
Foi reconhecimento.
E a maioria prefere não parar tempo suficiente para reconhecer.
Diógenes andava com uma lanterna acesa em plena luz do dia, à procura do que quase ninguém tinha coragem de procurar.
Pessoas inteiras, honestas consigo mesmas, dispostas a olhar de
frente.
Este canal é essa lanterna.
Se este vídeo mexeu com alguma coisa aí dentro, deixe o "like".
Isso ajuda mais gente a deparar-se com esta lanterna.
E se isto faz sentido para si, subscreva.
O canal é novo e cada pessoa certa que chega aqui vale mais do que mil de passagem.
E antes de sair, diga-me uma coisa nos comentários.
Qual foi a coisa que desentendeu e que já não conseguiu desentender mais?
Eu leio cada resposta.
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