Documentário | Prostituição, “herança” de mãe para filha na Índia
Descrição
A prostituição é uma atividade na Índia que passa de mãe para a filha. Especialmente entre as mulheres na base do sistema de castas do país, sujeitas a uma rotina de pobreza extrema. Elas contornam dificuldades financeiras, conseguem sobreviver, sustentam inclusive famílias inteiras. Mas ficam presas numa espécie de ciclo vicioso. A saída é conhecida e parece ser uma só: a educação. #prostituição #india #educação www.dw.com/brasil www.twitter.com/dw_brasil www.instagram.com/dw.brasil www.facebook.com/dw.brasil
Transcrição completa
Esta mulher espera clientes na estrada.
Ela tem um bebé e uma família para sustentar.
Mas não está com muita sorte.
Rajkumari é uma entre centenas de milhares de mulheres indianas que se prostituem, uma tradição com origem no sistema de castas.
Prostituição: legado de sofrimento na Índia.
Uma reportagem de Akanksha Saxena e Neerat Kaur.
A apenas três horas da capital indiana, Nova Deli, existe um mundo diferente.
Viajámos por uma região conhecida pela quantidade de pequenas cidades onde a prostituição é comum.
Este é Gegoli, um vilarejo no estado do Rajastão.
Aqui, nós encontrámos Ankit, uma profissional do sexo.
A pedido da entrevistada, o nome dela foi trocado.
Ela diz que é maior de idade, embora não aparente.
Ankit prepara-se para receber um cliente.
Muitos são de localidades vizinhas, motoristas de camião que passam por estradas próximas ou ainda jovens com menor rendimento.
Ela está nesta profissão há três anos e considera que a decisão de começar foi voluntária.
Com o dinheiro que ganha, ajuda a família.
O meu pai contou-me que a minha tia também trabalhava assim.
Não me restou outra opção porque somos pobres.
Entre 60 e 70 mil rupias por mês, uns 750 euros.
Além de mim, ninguém mais na família encontra trabalho.
Precisamos de um teto, precisamos de construir uma casa.
A minha irmã precisa de se casar.
Quanto era?
Sim, tudo.
As dívidas levam as famílias a um ciclo vicioso.
Os bancos não emprestam dinheiro a trabalhadoras do sexo porque não reconhecem a prostituição como uma fonte de rendimento.
Isso faz com que as prostitutas recorram a agiotas que cobram taxas de juro exorbitantes.
Elas afundam-se ainda mais na pobreza.
milhões de profissionais do sexo com idades entre os 15 e os 35 anos.
A atividade é legal, mas o recurso a intermediários não o é,
muito menos o tráfico de seres humanos.
Mas a polícia fecha os olhos a este tipo de rede clandestina.
Para muitas, submeterem-se ao esquema é uma questão de sobrevivência.
Os abusos são frequentes, mas as mulheres não têm
outra oportunidade para ganharem a vida.
Quando eu era muito jovem, tive um cliente em Bombaim que me tratou
de forma horrível.
Nem sequer me pagou.
Em vez disso, bateu-me e até me roubou as roupas.
Corri atrás dele, mas não consegui recuperá-las.
Foi extremamente humilhante.
Estas pequenas cidades são estigmatizadas.
A população, em geral, pertence à base do sistema hierárquico de castas.
As regiões de onde estas mulheres vêm foram tradicionalmente povoadas
por tribos nómadas.
As pessoas estão sempre a mudar-se de um lugar para o outro.
Existem comunidades assim por toda a Índia.
Contudo, são mais comuns em quatro estados:
Rajastão, Madia Pradexe, Utar Pradexe e Harianá.
No passado, as mulheres destes grupos étnicos
desempenhavam várias funções.
Eram bailarinas, malabaristas, acrobatas e mágicas.
Esse trabalho e o modo de vida foram vistos como uma espécie de ameaça
pelo poder colonial britânico que dominou a Índia no século XIX.
Em 1871, as atividades foram criminalizadas por meio de um decreto.
Com a independência, a medida foi, naturalmente, revogada.
O problema é que os preconceitos em torno destas tribos continuam presentes
na sociedade indiana de hoje,
o que torna quase impossível para eles encontrarem trabalho noutras profissões.
A nossa equipa decidiu falar com outros membros de uma família: os homens.
Há muita discriminação.
Ninguém nos quer dar empregos dignos — isso tirava-nos
desta situação de miséria.
As pessoas não querem isso. Portanto, nada muda.
Como é que isso acontece?
Como é que se nota no dia a dia?
As pessoas nem sequer querem caminhar ao nosso lado,
porque pertencemos a uma casta inferior.
Mandam-nos afastar dali.
Mas as coisas estão a melhorar porque estamos a fazer pressão para ir à escola.
Caso contrário, nem nos deixariam aproximar das casas deles.
Na escola, ninguém se sentava ao meu lado.
Eu nem mostrava a minha identificação, com medo de represálias e humilhações
por causa da nossa casta.
Algumas crianças não sabem quem é o pai.
Os clientes não revelam os próprios nomes às mães.
Isto cria um problema acrescido, já que, em muitas localidades,
só é possível obter um registo oficial com a identidade paterna.
Ou seja, alguns bebés ficam completamente fora do sistema.
Ainda assim, algumas mulheres conseguiram quebrar os papéis tradicionais de género
e emancipar-se.
Afinal de contas, são elas que trazem o dinheiro para casa.
Elas são vanguardistas. São imensamente respeitadas.
Elas são as responsáveis pelo rendimento das famílias, por comprar propriedades e construir casas.
Pagam dívidas, o que não é toda a mulher na Índia que consegue.
Algumas acabam por abandonar as cidades menores e ir para grandes centros urbanos do país.
Nova Deli, Mumbai ou Calcutá, e até mais longe, o Dubai.
Maridos, pais e irmãos estão envolvidos no mercado do sexo.
Atuam como intermediários, mas também ficam por conta de tarefas domésticas, cuidam dos filhos.
Só que algumas mulheres vivem sozinhas e a situação complica-se quando ficam mais velhas.
Sne Lata teve uma filha que também trabalhou como prostituta. A menina morreu, provavelmente de alguma doença sexualmente transmissível.
Ela era filha única. Morreu. Ficou muito doente.
Muitas mulheres com as quais a nossa reportagem conversou, gostariam de mudar de vida.
Ankita sonha em casar-se. No entanto, precisa de ajudar a família.
Rachna faz de tudo para que o filho tenha uma boa educação, o que ela espera que seja um caminho para a liberdade.
Apesar dos desafios, as coisas estão aos poucos a começar a mudar.
Conhecemos Gudu Nagar, um professor apoiado por uma ONG que promove alternativas de trabalho para as prostitutas.
A lição de hoje é sobre gramática.
Ele está convencido de que a educação é a chave para a mudança.
Já funcionou para algumas famílias.
Uma menina conseguiu entrar para a polícia em Jaipur, ela tem mestrado e bacharelato.
Outra família tem vários filhos em profissões da área médica.
Um rapaz é técnico de laboratório, duas raparigas estudam.
Nessas famílias, nenhuma mulher trabalha como profissional do sexo.
Gudu também pertence a uma etnia de nómadas. Parentes dele também foram trabalhadoras do sexo.
O professor quis romper esse ciclo. Aprendeu sozinho a ler e escrever e começou a ensinar aos familiares.
O nosso modo de vida nómada foi uma das razões pelas quais acabou por ser... Tenho quatro irmãos, nenhum deles foi à escola.
Irmãs, nenhuma delas foi à escola.
Mas eu liguei-me à educação. Depois de me ligar à educação, uma assistente social de uma ONG ajudou-me. Ela motivou-me e eu fiz mestrado e bacharelato em inglês.
E agora estou a ensinar as crianças.
Histórias assim ainda são exceção. Ainda. Cada vez mais jovens estão a tentar mudar o próprio destino e o das próximas gerações.
Sou Nancy e quero ser comissária de bordo um dia.
Porquê? É o meu sonho.
É o meu sonho.
Porque é que queres voar...
A esperança é que a educação e o conhecimento transformem o futuro destas mulheres.
Façam com que elas possam romper de vez com o passado.
GUIÃO Kerstin Hilt
DIREÇÃO Katharina Kroll
Feito para mentes.
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