Como era o Brasil na era dos dinossauros?
Descrição
Hoje viajaremos no tempo para conhecer o Brasil da era dos dinossauros! Como era seu clima? Como nosso território se formou? Quais dinossauros já habitaram nosso país? Tudo isso e muito mais nesse documentário baseado no Novo guia completo dos dinossauros do Brasil! Seja bem vindo ao Brasil da era mesozóica! Se interessou pelo livro? Compre pelo nosso link e apoie o canal: https://amzn.to/3VmPGFA Torne-se membro e tenha acesso ao curso: https://www.youtube.com/channel/UCtwxPt3iAGqtt3E_GKsk0KA/join Roteiro, narração e edição Abner Santos Gestão de projeto Deyverson Silva Produção audiovisual Bryan Emmendorfer @cdossos Corte Thabata Cristini Baseado na obra de Luiz Anelli Arte da capa Rodolfo Nogueira
Transcrição completa
Brasil.
O país que alberga a maior biodiversidade do planeta Terra.
A quinta maior nação do mundo, com uma variedade de biomas, ecossistemas e espécies que só muito recentemente começámos a valorizar.
Do ponto de vista natural, o país mais rico do mundo.
Mas será o seu passado profundo tão diverso quanto o seu presente?
A resposta vai surpreendê-lo.
O dinossauro mais antigo conhecido é do Rio Grande do Sul.
O maior dinossauro do Brasil é de Minas Gerais.
O Cretáceo do Nordeste transborda com alguns dos fósseis mais diversos e bem preservados do planeta.
E esse é só o começo.
Convido-o a viajar no tempo sem sair do lugar, para conhecer a diversidade de paisagens e animais brasileiros durante a era Mesozoica.
No caminho, conheceremos alguns dos mais importantes dinossauros do Brasil e entenderemos como o nosso território evoluiu durante esse tempo.
Tudo isso para responder à nossa pergunta: Como era o Brasil na era dos dinossauros?
Este documentário é inspirado e baseado na obra de Luiz Anelli, ilustrada por Júlio Lacerda, o Novo Guia Completo dos Dinossauros do Brasil.
Seja bem-vindo ao Brasil da Era Mesozoica.
Vamos localizar-nos no tempo geológico.
Popularmente, quando falamos sobre a era dos dinossauros, estamos a falar de algo exageradamente antigo.
Ela dura do início do período Triássico, atravessando o Jurássico, até ao fim do período Cretáceo, de 252 até 66 milhões de anos atrás.
Com 186 milhões de anos de duração.
Esses três períodos compõem a Era Mesozoica.
Antes dela, veio a era Paleozoica, muito mais longa.
E depois dela, começa a era dos mamíferos, a que vivemos hoje, a Cenozoica, bem mais curta.
Parece uma quantidade imensa de tempo.
E de facto é, mas se pensarmos em toda a duração da existência do planeta Terra, perceberemos que os dinossauros são relativamente recentes.
Se comprimirmos os 4,5 mil milhões de anos da Terra num único dia, começando à meia-noite com a formação da Terra e o presente situado à meia-noite na passagem para o dia seguinte,
tonel, em Salto, que preserva uma marca de arranhão deixada pela passagem do gelo.
perceberemos algo curioso: os dinossauros aparecem às 22:46
O fóssil de um glaciar. Mas também o lago do Varvito, em Itu, que era um lago subglacial durante o inverno,
e desaparecem apenas 21 minutos antes da meia-noite.
Os mais antigos membros da nossa espécie apareceram apenas 6 segundos antes da meia-noite neste relógio geológico.
com icebergs que transportavam rochas, por vezes bastante grandes, que caíam no sedimento
e ali permaneceram pelos últimos 300 milhões de anos.
Um pouco antes da Era Mesozoica, entre o fim do Carbonífero e o início do Permiano, o Brasil fazia parte das massas do supercontinente Gondwana,
Na superfície das rochas, que um dia foram o fundo desse antigo lago,
marcas de pegadas de pequenos artrópodes.
O chão no lago do Varvito está repleto de icnofósseis.
O sul do Brasil inteiro estava debaixo de uma camada de quase 1 km de gelo,
e por quase todo o território do Brasil, regiões áridas espalhavam-se nesse mundo frio e seco.
Muito parecido com os desertos gelados da Argentina atualmente.
Durante o Pérmico, último período antes da Era dos Dinossauros,
os animais tetrápodes, com quatro patas, adaptaram-se aos ambientes mais secos,
principalmente através dos ovos amnióticos, que permitiram a reprodução fora da água,
como a que os anfíbios usam até hoje.
Esses animais amniotas dividiram-se em duas linhagens: os sinápsidos, como nós mamíferos e muitos outros grupos extintos,
e os saurópsidos, todos os répteis que possa imaginar,
e mais um monte de grupos extintos e as aves.
Isso significa que os dinossauros são saurópsidos, assim como os seus parentes mais próximos, os crocodilos,
mas também os lagartos, tartarugas e cobras.
Os saurópsidos ocuparam papéis humildes nos ecossistemas pérmicos, que eram dominados por sinápsidos que eram mais próximos dos mamíferos,
apesar de muitas vezes não parecer.
E anfíbios temnospôndilos gigantes nas regiões húmidas e oceanos.
O Pérmico brasileiro também é uma época com uma biodiversidade impressionante,
que vale um documentário por si.
Mas nós ainda nem chegámos à Era dos Dinossauros.
Ao longo do Pérmico, as massas do norte juntaram-se à Gondwana, formando o supercontinente Pangeia.
Não foi o primeiro, mas é certamente o supercontinente mais famoso conhecido.
Isso isolou ainda mais o território brasileiro da humidade do oceano,
tornando as condições ainda mais áridas e desafiadoras.
Com todas as massas de terra do planeta reunidas numa forma de C,
formaram-se dois oceanos: o gigantesco Pantalassa e o Mar de Tétis no interior da Pangeia.
O auge desse tempo extremamente ativo geologicamente foi quando grandes derrames basálticos aconteceram onde hoje é a Sibéria.
Essas erupções podem ter durado milhares a milhões de anos,
depositando quilómetros de rochas vulcânicas e envenenando a atmosfera.
A cascata de eventos ecológicos desencadeada pela aridez global, combinada com as mudanças climáticas e químicas trazidas pelos derrames,
provocou a extinção em massa mais aniquiladora da história dos animais.
A chamada Grande Morte ou extinção Permo-Triássica atingiu quase 90% das formas de vida do planeta,
pondo um fim às linhagens dominantes do Pérmico e abrindo as oportunidades de um recomeço.
Quando a poeira assentou e o planeta pôde lentamente recuperar-se,
o jogo da evolução tinha virado de pernas para o ar.
Os saurópsidos puderam aumentar de tamanho e diversificar-se,
apesar dos sinápsidos não terem ficado para trás, com linhagens muito bem-sucedidas e até gigantescas.
Muitos dos novos grupos de saurópsidos, entre eles os arcossauros, que abrigam os dinossauros e crocodilos,
diversificaram-se explosivamente nos primeiros milhões de anos do Triássico,
mas os dinossauros não estavam entre eles.
Foi só mais de 20 milhões de anos Triássico adentro que a linhagem dos dinossauros se separou dos seus arcossauros ancestrais.
qualquer grupo biológico, é que eles são todos parentes mais próximos entre si do que com qualquer outro grupo de animais, como os pterossauros, que são o grupo mais próximo dos dinossauros, mas não são dinossauros, embora ambos se unam para formar os avemetatarsalios.
Todos os animais desta linhagem dos dinossauros, que inclui um ancestral comum e todos os seus descendentes, partilham algumas características.
E por isso, as aves ainda são dinossauros e nunca deixarão de o ser.
Na biologia, uma vez que se faz parte de um grupo, pertencer-se-á sempre a ele.
Os dinossauros são definidos por algumas características partilhadas no seu esqueleto, no crânio, vértebras, membros, como a fusão de pelo menos três vértebras sacrais e um acetábulo aberto.
Os primeiros dinossauros eram pequenos, bípedes e generalistas.
Muito provavelmente vivendo de comer insetos e pequenos vertebrados.
Eles podiam ser presas dos grandes carnívoros dominantes, os pseudossúquios, mais próximos dos crocodilos.
Mas depois de um evento de mudanças climáticas do meio para o fim do Triássico, conhecido como o evento pluvial do Carniano, a sorte dos dinossauros mudou.
Um aquecimento dos oceanos levado por forças vulcânicas afetou a biodiversidade dos oceanos, mas também dos continentes, provocando um período extremamente húmido com chuvas anormais durante mais de 1 milhão de anos.
Isso reconfigurou os ecossistemas a favor, principalmente, dos dinossauros, extinguindo os animais dominantes da primeira metade do Triássico e inaugurando oficialmente a dominância dos dinossauros no planeta Terra.
A sua habilidade de regular a própria temperatura e os seus sistemas respiratórios eficientes foram essenciais para atravessar as chuvas do Carniano e saírem vitoriosos.
Os desertos deram passagem para ambientes menos áridos, facilitando a dispersão dos dinossauros pela Pangeia e tornando-os um dos grupos de vertebrados mais cosmopolitas da sua época.
O palco estava montado para a diversificação do grupo mais icónico de animais da pré-história.
E é por aqui que começamos a conhecer os dinossauros do Brasil.
Cerca de 233 milhões de anos atrás, viveu o Staurikossauros, o primeiro dinossauro do mundo, na formação Santa Maria do Rio Grande do Sul.
Os seus ossos foram escavados há quase 90 anos, em 1938, mas só foi descrito e nomeado em 1970.
Sendo não apenas o mais antigo, como o primeiro dinossauro brasileiro.
Ele habitou esta região durante o evento pluvial do Carniano, um intervalo com vegetação muito mais exuberante do que o normal para o interior da Pangeia.
Ele pesava cerca de 12 kg e parecia-se muito com um dinossauro carnívoro tradicional, os chamados terópodes.
Mas olhando mais de perto, podemos perceber que ele pertence a outra linhagem de dinossauros.
Muito cedo na sua história, os primeiros dinossauros dividiram-se em duas linhagens: os ornitísquios e os saurísquios.
Os ornitísquios do Triássico são raros, e a sua diversidade aflorou mesmo no Jurássico e Cretáceo, com os dinossauros couraçados, os estegossauros, hadrossauros e ceratopsianos.
Ou seja, todos os dinossauros herbívoros, com exceção dos pescoçudos.
Os pescoçudos, chamados saurópodes, são mais próximos dos carnívoros bípedes, os terópodes, formando o grupo Saurisquia.
Aparentemente, os Herrerassaurídeos, como o Staurikossauros, eram um grupo irmão tanto dos saurópodes quanto dos terópodes, sendo um saurísquio basal, uma linhagem que se dividiu antes da divisão das duas linhagens principais de saurísquia, mas que não deixou descendentes para o Jurássico.
Um Herrerassaurídeo ainda maior, com 3 metros de comprimento, foi encontrado mais recentemente, em 2014.
Com um esqueleto praticamente completo, batizado Gnathovorax.
A formação Santa Maria, onde foi encontrado, não alberga apenas alguns dos dinossauros mais antigos do mundo,
mas também uma série de outros animais únicos do Triássico, representando uma transição entre dois mundos.
Alguns dos dinossauros mais abundantes do Triássico brasileiro eram os sauropodomorfos.
Apesar de muito diferentes dos dinossauros de pescoço comprido, eles são mais próximos deles do que de qualquer outro grupo de dinossauros.
Os primeiros dinossauros, como sabemos, eram pequenos, bípedes e generalistas com tendências carnívoras.
Mas os saurópodes subverteram tudo isso, tornando-se grandes, quadrúpedes e herbívoros.
Nessa transição evolutiva, estão várias linhagens de sauropodomorfos brasileiros.
Quanto mais perto da divisão entre a linhagem dos saurópodes e dos terópodes, mais difícil fica dizer quem é quem.
Algumas linhagens de sauropodomorfos permaneceram pequenas e principalmente carnívoras.
Como o pequeno Pampadromaeus barberenai e um pouco maior, Saturnalia tupiniquim.
Ambos são interpretados como animais muito próximos um do outro.
Uma linhagem de dinossauros bípedes, mas com pescoços longos e dentes adaptados para uma dieta variada, que incluía pequenos vertebrados, ovos, insetos,
e vegetais.
Ambos também gaúchos da formação Santa Maria.
Eles não eram os únicos.
Outros sauropodomorfos, como Buriolestes, Bagualosaurus e Macrocollum, também habitaram a mesma região.
Buriolestes era pequeno e vivia de forma semelhante a Pampadromaeus e Saturnalia.
Bagualosaurus era maior, tinha as patas traseiras mais largas e provavelmente alimentava-se mais de plantas do que de animais.
Mas Macrocollum era praticamente uma miniatura bípede dos dinossauros de pescoço comprido, com os seus dentes a denunciar uma dieta já quase completamente herbívora.
Isso significa que existiam sauropodomorfos de diversos tamanhos e hábitos, ocupando diversos nichos ecológicos simultaneamente.
Eles foram alguns dos primeiros dinossauros muito bem-sucedidos.
Mas percebemos que durante o início da diversificação dessa linhagem durante o Triássico, os famosos terópodes e herbívoros ornitísquios estavam quase ausentes.
Sauropodomorfos foram os primeiros dinossauros herbívoros verdadeiramente grandes.
E espalharam-se por todo o planeta, com parentes como Plateosaurus a serem conhecidos da Alemanha, por exemplo.
Através da confirmação dos fósseis do sul do Brasil e norte da Argentina, pudemos entender que essa região foi o berço dos dinossauros.
E que a partir dela, eles se espalharam pelo mundo e se diversificaram.
Isso significa que existe uma grande probabilidade de os primeiros dinossauros terem sido brasileiros, assim como é o dinossauro mais antigo conhecido.
Até ao fim do Triássico, os dinossauros já se tinham estabelecido como a megafauna dominante do planeta Terra.
Assim como os répteis aquáticos tinham dominado os oceanos e os pterossauros se tornaram os primeiros vertebrados a voar.
Mas um novo evento de extinção em massa marcou o fim do Triássico e o início do Jurássico, promovendo uma diversificação dos dinossauros e a extinção de muitas das formas únicas do Triássico.
A essa altura, o território brasileiro permanecia parte de um interior continental árido e desafiador.
Chegamos ao Jurássico.
Um período cujas rochas são raras aqui no Brasil e, consequentemente, não conhecemos quase nada sobre a sua diversidade de animais e plantas durante esse período.
Em regiões mais a sul do nosso continente, bem como regiões da Antártida e da África, fósseis jurássicos são bem conhecidos e várias espécies de animais já foram documentadas.
Mas o Jurássico brasileiro não deixou rastos por uma razão que afeta a vida da maioria de nós: a formação das serras, mares de morros e planaltos do nosso país.
A Pangeia já estava...
a romper-se num eixo norte-sul, separando novamente a Gondwana e a Laurásia, enquanto se fragmentava lentamente.
Também durante o Jurássico, uma cadeia de montanhas começou a formar-se entre o que é hoje a América do Sul e a África.
Forças do interior do planeta forçaram a Gondwana a comprimir-se, formando uma imensa zona de elevação onde hoje é o Brasil, criando uma área de fraqueza onde as placas se fragmentaram.
Esta elevação constante favoreceu o desgaste e não a deposição das rochas nesta região, destruindo fósseis em vez de os formar.
Até ao fim do Jurássico, esta zona de fraqueza, onde as montanhas se tinham formado, começou a separar-se,
abrindo caminho para o jovem Oceano Atlântico e formando, pela primeira vez, o formato reconhecível da costa brasileira.
As cicatrizes deste processo ficaram de ambos os lados, com áreas elevadas e acidentadas na América do Sul e em África.
São Paulo, por exemplo, fica a cerca de 40 km da costa.
No entanto, a metrópole fica à beira de uma imensa escarpa de quase 700 metros de altura, a Serra.
O interior do sudeste do Brasil é muitas vezes caracterizado pelo que chamamos de mares de morros,
montes arredondados que se espalham pela paisagem como ondas.
As antigas montanhas formadas durante o Jurássico, que foram erodidas e atenuadas pela chuva e pelas demais forças da natureza durante 150 milhões de anos.
Segundo a Nelly, no Brasil, rochas jurássicas aparecem aqui e ali,
como os fósseis de uma antiga floresta petrificada no Ceará, um importante crocodilo no Maranhão,
pegadas de dinossauros em Pernambuco.
A geologia poderia ter sido mais generosa, mas não foi.
Os 46 milhões de anos do Jurássico brasileiro permanecerão um grande mistério para nós até que novas e improváveis descobertas ocorram.
O fóssil de dinossauro mais significativo do Jurássico brasileiro também vem de terras gaúchas, na formação Guarani, na cidade de Rosário do Sul.
É um rasto de 2,40 metros de comprimento com cinco pegadas,
quatro delas de patas traseiras com 32 cm de comprimento,
que pertencem a um anquilossauro, um grupo de dinossauros herbívoros fortemente armados.
São também os anquilossauros mais antigos da América do Sul, com 150 milhões de anos de idade.
Isto significa que, por mais que não tenhamos muitos fósseis, existiam dinossauros até mesmo bastante grandes por aqui durante o Jurássico.
Estas pegadas são um tipo de icnofóssil,
um registo indireto da presença de animais ou atividade biológica.
São fósseis muitas vezes subestimados e pouco conhecidos,
mas para algumas perguntas, são até mais reveladores do que os somatofósseis,
ou fósseis de partes do corpo de animais e plantas.
Isto porque são uma janela para o comportamento animal e, muitas vezes, até mesmo a sua fisiologia.
Durante o Jurássico, os dinossauros tornaram-se verdadeiramente gigantescos pela primeira vez,
com os saurópodes a ocupar o lugar dos maiores animais terrestres que a vida tinha produzido até então.
Mas mudanças importantes estavam a ocorrer entre alguns dos menores dinossauros:
os dromeossaurídeos, um grupo muito bem-sucedido de terópodes carnívoros emplumados de pequeno e médio porte.
Acreditamos que tenham sido os dinossauros mais inteligentes, sociáveis e sofisticados cognitivamente.
Os seus sacos aéreos e penas acabaram por ser cooptados para uma função revolucionária evolutivamente:
o voo batido.
Alguns dos primeiros dinossauros aparentados com as aves do Jurássico, como o Archaeopteryx, não tinham os músculos necessários para bater as asas e sustentar o voo batido.
Mas tinham garras afiadas adaptadas para escalar árvores e planar de um ponto para outro com muita precisão.
Até ao fim do Jurássico, a linhagem das aves já tinha aperfeiçoado.
do, até mesmo voo batido.
Começando a competir com os pterossauros por recursos no nicho de vertebrado voador.
Muitos têm a ideia de que as aves só evoluíram depois da morte dos dinossauros tradicionais.
Mas isso não é verdade.
Do fim do Jurássico até ao fim do Cretáceo, elas eram apenas mais um tipo de dromeossauro hiper especializado para o voo.
Seres muito parecidos com passarinhos já atormentavam os dinossauros gigantes há muito tempo quando eles finalmente morreram.
Se pudéssemos conhecer o Jurássico brasileiro, certamente nos surpreenderíamos com algumas das primeiras aves e primeiros dinossauros colossais.
Com o fim do enigmático Jurássico, começa o Cretáceo brasileiro, um dos períodos e lugares mais vibrantes e ricos da paleontologia.
Durante o Cretáceo, as plantas com flores e frutos diversificaram-se e expandiram-se, tornando-se cada vez mais comuns,
co-evoluindo com os insetos sociais mega diversos, no que chamamos de revolução terrestre do Cretáceo.
Nós, mamíferos, já nos tínhamos dividido entre os placentários e os marsupiais há muito tempo e vivíamos de formas mais diversas do que somos levados a crer.
À medida que Gondwana se fragmentava, o Oceano Atlântico crescia, trazendo cada vez mais humidade para as massas de terra continentais.
O Cretáceo é um período muito longo, com quase 80 milhões de anos de duração, nos quais o território do nosso país se transformou profundamente.
As regiões mais a norte, chuvas fortes e volumosas vindas das águas equatoriais quentes, sustentavam ecossistemas exuberantes e repletos de dinossauros.
Muitos deles com modos de vida ligados aos rios e lagos, como os grandes carnívoros piscívoros aparentados com os espinossauros africanos,
mas também os pterossauros pescadores.
Mais a sul, as chuvas eram bem mais raras e grandes desertos com vegetação baixa estabeleciam-se.
Como a separação entre os continentes de Gondwana era mais recente do que a separação com os continentes do norte, a nossa fauna assemelhava-se muito à africana.
Tanto na América do Sul quanto na África, os principais dinossauros herbívoros eram os saurópodes pescoçudos.
Já os carnívoros mais dominantes eram os espinossaurídeos, carcarodontossaurídeos e abelissaurídeos.
A dança tectónica do fim do Mesozoico acabou por formar a dorsal mesoatlântica.
Essa cadeia de montanhas, chaminés e vulcões submarinos, parece uma costura que atravessa do Polo Norte até ao Polo Sul do planeta.
E é aqui que a nova plataforma oceânica é formada.
Nela estão as rochas mais recentes do assoalho do Oceano Atlântico.
E quando nos distanciamos dela na direção da América do Sul e da África, encontramos bandas de rochas cada vez mais antigas.
Do outro lado, a placa oceânica é forçada para baixo da placa continental, causando a elevação da imensa cordilheira dos Andes, a mais longa do planeta.
É por isso que o Brasil e a África se encaixam, assim como o norte da África encaixa no sudeste da América do Norte.
Até agora, todos os dinossauros que conhecemos vinham da grande bacia do Paraná, que abriga, entre muitas formações, a Santa Maria.
Ela parou de ser depositada no início do Cretáceo, quando grandes camadas de magma oriundas do vulcanismo gerado pela separação entre a América do Sul e a África foram expelidas.
Acima dessas espessas camadas de rochas vulcânicas, estão as rochas formadas no grande paleodeserto de Botucatu.
Segundo a análise, nas suas areias, 140 milhões de anos atrás, dinossauros, mamíferos, lagartos e artrópodes deixaram impressas milhões de pegadas.
Essas pegadas são icnofósseis, muitas vezes muito curiosos, como é o caso de um, de dois urólitos conhecidos de dinossauros pela paleontologia, uma marca de xixi fossilizada.
Em Araraquara, no interior de São Paulo.
Paulo, foi recuperado um fóssil acompanhado de pegadas, interpretado como a marca da urina de um dinossauro ornitísquio de 7 metros de comprimento.
A força da excreção de mais de 1 litro de urina, a quase 2 metros do chão, foi capaz de deixar uma marca característica na rocha.
Que foi soterrada e preservada pelos últimos 140 milhões de anos.
Nas areias da bacia do Rio do Peixe, no estado da Paraíba, outra pegada importante foi encontrada, pertencendo a um dinossauro ornitópode gigantesco, com cerca de 12 metros de comprimento.
E viveu na Paraíba há 125 milhões de anos.
Ele deixou uma sequência de cerca de 40 metros, composta por 32 pegadas, cada uma delas com o diâmetro médio de 45 centímetros.
Descobertos em 1920, no sítio paleontológico do Vale dos Dinossauros em Sousa, na Paraíba.
Uma das bacias sedimentares mais ricas, extensas e impressionantes do Brasil é a São Franciscana, que se estende de Minas Gerais até ao Piauí.
Ela guarda trechos do início do Cretáceo, mas também muitos fósseis muito mais antigos e muito mais novos.
Dois dos dinossauros mais importantes do Brasil foram encontrados na formação Quiricó, em Minas Gerais, onde aflora o Cretáceo Inferior, há 130 milhões de anos.
64 milhões de anos antes da queda do asteroide.
O Spectrovenator e o Tapuiasaurus são especiais por duas razões.
Eles são dois de apenas três crânios completos de dinossauros conhecidos do Brasil, e porque foram encontrados juntos.
O nome Spectrovenator, ou caçador fantasma, foi dado porque, durante a sua descoberta, ele apareceu por baixo do Tapuiasaurus, o que sugere que ele pode ter morrido sufocado pelo imenso peso do Tapuiasaurus.
O Spectrovenator era um predador abelissaurídeo de médio porte, com 2 metros e meio de comprimento.
Ele não tem as características acentuadas dos abelissaurídeos mais recentes, como a cara achatada do Carnotaurus, mas é uma peça importante para entender a evolução deles em Gondwana, onde se tornaram predadores muito bem-sucedidos.
Já o Tapuiasaurus é um saurópode de 13 metros de comprimento que, apesar de não ser tão colossal quanto os seus parentes argentinos que se tornaram os maiores animais terrestres conhecidos, é importante por preservar um dos poucos crânios de saurópodes titanossauros muito bem preservados e completos.
Além disso, ele tem traços anatómicos surpreendentemente derivados para um animal da sua idade, antecipando a existência de titanossauros mais modernos em quase 30 milhões de anos.
Ambos morreram na beira de um lago, onde foram soterrados antes de serem consumidos.
À medida que o Cretáceo avançava e a América do Sul e a África se separavam, as forças tectónicas abriam grandes fendas onde hoje é o nordeste do Brasil, que foram lentamente sendo preenchidas com sedimentos.
Uma dessas fendas tornou-se a grande bacia sedimentar do Araripe, que atravessa o Ceará, Pernambuco e Paraíba.
Cuja camada mais famosa é composta pelo grupo Santana, que inclui as formações Crato, Ipubi e Romualdo, paleoambientes de lagos rasos e vegetação semiárida.
A qualidade dos fósseis de plantas, insetos, anfíbios, peixes, tartarugas, crocodilos, pterossauros e dinossauros, preservados excecionalmente, faz deste um dos 10 sítios paleontológicos mais importantes e ricos do planeta Terra.
Uma verdadeira janela para o Cretáceo Médio.
Só da formação Santana são conhecidos oito dinossauros, todos terópodes.
O Irritator, Angaturama, Mirischia, Santanaraptor, Cratoavis, Kariravis, Aratasaurus, Ubijara e um Megaraptor.
O Ubirajara ficou famoso recentemente e ganhou as manchetes dos jornais em virtude do seu vitorioso...
movimento de repatriação.
Acontece que este dinossauro foi ilegalmente contrabandeado para a Alemanha no final da década de 90.
Mais tarde, foi comprado por um museu, onde ficou até 2023.
A pressão nas redes e na justiça, por parte da comunidade paleontológica,
pedindo para que o Estado alemão reconhecesse a legislação brasileira e nos devolvesse o fóssil,
acabou por surtir efeito, e hoje ele está mais perto de casa.
Muitos argumentam contra a repatriação,
dizendo que fora do Brasil, estes fósseis estão mais protegidos.
E apesar disso, acusar justamente o descaso dos nossos governantes com a ciência brasileira como um todo,
precisamos entender que a Europa, assim como qualquer outro lugar do mundo, está vulnerável a catástrofes que levam à perda do património histórico.
Muitos fósseis importantes, como o holótipo do espinossauro, foram destruídos em bombardeamentos na Segunda Guerra Mundial.
Mas poderiam ser citados muitos outros incidentes mais recentes.
O facto é que, segundo a legislação brasileira, nenhum fóssil brasileiro pode ser comprado ou vendido.
Todos pertencem ao Estado e devem ser guardados em museus e acervos de instituições de pesquisa e ensino.
Isso evita o mercado do colecionismo e o tráfico de fósseis,
que, na maior parte do mundo, tornam inacessíveis aos cientistas e pesquisadores o estudo de alguns dos fósseis mais completos e impressionantes do mundo,
guardados por colecionadores ricos.
Mas o Ubirajara tem outro motivo para ser famoso.
Ele pode ser o primeiro dinossauro com penas usadas como exibição sexual.
Estas longas penas em formato de bastão parecem-se muito com as penas extravagantes de aves do paraíso,
que as usam para atrair parceiros sexuais.
Isso significa que as aves herdaram isso de dinossauros não-avianos,
e que o Ubirajara provavelmente tinha cores chamativas e dançava para atrair parceiros.
Com cerca de 1,5 m de comprimento, o Ubirajara é um dos muitos fósseis extremamente bem preservados desta região.
A preservação de estruturas moles e delicadas, como pele e penas de muitos animais, pode trazer-nos informações sobre as suas aparências e modos de vida,
que apenas os seus esqueletos jamais revelariam.
Se encontradas pequenas células de pigmento fossilizadas, podem até mesmo ser inferidas as cores em vida destes animais.
Tamanha é a fineza da preservação destas camadas.
Cratoavis foi uma pequena ave enantiornites que viveu, como o nome denuncia, na região do Crato, há 115 milhões de anos,
alimentando-se de insetos.
Com 13 cm de comprimento, os seus ossos frágeis e delicados só podem ser preservados em condições excecionais,
o que faz com que os fósseis destes antigos grupos de aves sejam raros.
De longe, parecia um pássaro qualquer.
Mas de perto, percebemos que não é nada disso.
Diferente das aves, ele tem um bico com dentes verdadeiros e três dedos com garras afiadas nas asas.
Apesar de voarem muito bem, características intermédias entre os dinossauros não-avianos e as aves.
Tanto o Irritator quanto o Angaturama eram dinossauros espinossaurídeos,
aparentados com o famoso espinossauro africano.
Apesar de não serem tão grandes quanto ele, com 8 metros de comprimento.
Eles tinham um hábito maioritariamente piscívoro, alimentando-se das mais de 30 espécies de peixes conhecidas da mesma formação que ambos.
Nestas lagoas do Cretáceo, há 120 milhões de anos, os dinossauros semi-aquáticos estavam entre os principais predadores.
Infelizmente, o Irritator, apesar de pertencer ao Brasil, está também na coleção de um museu alemão,
tendo sido contrabandeado durante a década de 90 para lá.
Movimentos de repatriação têm ganhado força após o regresso do Ubirajara a casa,
e focam agora em trazer o crânio do Irritator de volta para o Piauí, a sua casa.
O nome foi dado porque o seu crânio foi de difícil interpretação, sendo considerado irritante pelos cientistas que o descreveram em 1996.
os maiores predadores do seu ecossistema.
Outro abelissaurídeo foi encontrado em 2014,
no noroeste do estado de São Paulo,
entre as cidades de Ibirá e Uchôa,
tendo sido batizado com o curioso nome Thanos,
que significa morte,
em referência ao vilão das histórias em banda desenhada.
Thanos, o dinossauro, tinha cerca de 5 metros de comprimento
e viveu há 70 milhões de anos.
É conhecido por apenas uma vértebra do pescoço,
que, apesar de parecer pouco, é muito diagnóstica,
o que significa que podemos inferir muito sobre este dinossauro
apenas por esta peça do seu esqueleto,
como todas as suas características únicas.
Claro que o esqueleto completo provavelmente mudaria a sua representação,
mas extrapolar a sua aparência a partir dos seus parentes próximos
é o melhor que a ciência é capaz de fazer a partir de um material conhecido.
O Uberabatitan e o Austroposeidon são dois dos animais que disputam o posto de maior dinossauro brasileiro.
Ambos com um comprimento estimado em 26 metros.
Eles eram saurópodes titanossaurídeos,
a família de animais que deu origem ao colosso Patagotitan argentino,
considerado o maior animal terrestre conhecido pela ciência,
com mais de 40 metros de comprimento.
Mesmo os maiores titanossauros brasileiros não eram nem de perto tão grandes quanto os titanossauros mais a sul do continente,
muito provavelmente devido a diferenças nos seus ecossistemas.
Mas o Austroposeidon, por exemplo, viveu quase 30 milhões de anos depois desses maiores titanossaurídeos do sul.
Pode ser que titanossaurídeos tão grandes quanto, ou o próprio Patagotitan,
possam ter caminhado sobre terras brasileiras.
Só não conhecemos os seus esqueletos.
O Austroposeidon foi descrito pela paleontóloga Camila Bandeira
e foi o único animal brasileiro a aparecer na série recente Prehistoric Planet.
Foi descoberto na cidade de Presidente Prudente, na margem da autoestrada Raposo Tavares, em São Paulo.
Outro gigante brasileiro é o Uberabatitan,
descoberto, como o nome denuncia, em Uberaba, na formação Marília, em Minas Gerais.
As estimativas mais recentes apontam que ele seria cerca de 1 metro maior do que o Austroposeidon.
E como o seu esqueleto é significativamente mais completo,
é considerado por muitos o maior dinossauro conhecido do Brasil.
E, na verdade, o maior animal terrestre que já pisou no nosso país,
há cerca de 70 milhões de anos.
Tendo vivido no fim do Cretáceo,
este pode ter sido um dos dinossauros que estavam aqui para presenciar a queda do asteroide que pôs um fim ao Mesozoico.
Outros titanossauros brasileiros eram muito menores,
como os nanicos Ibirania e Brasilotitan,
que pesavam menos do que um elefante africano.
O Ibirania foi um pequeno titanossauro herbívoro de cerca de 6 metros de comprimento,
o menor conhecido da sua linhagem,
tendo sido descoberto em 2005 na cidade de Ibirá, em São Paulo.
Já o Brasilotitan é um pouco maior, com cerca de 8 metros,
mas ainda pequeno para um saurópode,
encontrado em 2000, também na margem da Raposo, em Presidente Prudente, em São Paulo.
Os herbívoros desta região podem ter diminuído de tamanho em função da pressão seletiva por herbívoros que consumissem menos energia,
já que eles viveram em ambientes áridos, cuja vegetação não era nada exuberante.
E titanossauros muito maiores provavelmente não sobreviveriam.
Saurópodes pequenos são também conhecidos em ilhas,
onde a disponibilidade mais limitada de alimento favorece o encolhimento das linhagens de herbívoros gigantes.
A era dos dinossauros chegou ao fim com o impacto extraterrestre que marcou a passagem do Cretáceo para a era dos mamíferos.
O evento que criou a cratera de Chicxulub, no Golfo do México,
há quase 66 milhões de anos,
foi gerado por uma rocha de cerca de 10 quilómetros de diâmetro,
maior do que o Monte Everest.
Os terramotos, explosões, ondas de choque, tsunamis,
incêndios e oscilações climáticas bruscas
...por milhares de anos foram suficientes para extinguir todos os animais maiores do que 15 kg.
Entre eles, todos os dinossauros não-avianos.
Um grupo de terópodes sobreviveu, com algumas linhagens, todas aves sem dentes e com bicos,
que passaram a diversificar-se na ausência dos seus antigos concorrentes dos céus:
os pterossauros.
Hoje, são os vertebrados terrestres mais diversificados, com cerca de 10 mil espécies,
sendo o Brasil o país mais rico em aves do planeta Terra.
Isto significa que vivemos no país que alberga a maior parte dos dinossauros vivos atualmente
e que, mais do que qualquer outra nação, somos responsáveis pela sua preservação.
A devastação quase total da Mata Atlântica
e os graves impactos da fragmentação e desflorestação no Cerrado, Amazónia, Pantanal e Caatinga,
bem como a presença de animais domésticos invasores,
têm sido o principal desafio de muitas populações de aves,
cada vez mais isoladas e à beira da extinção.
Como pudemos verificar, o Brasil é um país rico em diversidade,
tanto no seu presente como no seu passado profundo,
e é nossa responsabilidade zelar pela preservação e recuperação dos nossos biomas,
uma tarefa inadiável para a nossa geração.
Mas também pelo nosso património histórico, mineral e fóssil,
já tão pilhado e criminosamente apropriado por países com mentalidade colonial.
Num tempo sombrio em que muitas pessoas, negligenciadas pelo sistema de ensino,
nem sequer acreditam na evolução, na existência dos dinossauros
ou no impacto negativo das nossas ações no clima e nos ecossistemas,
é mais crucial do que nunca reafirmar o valor de todos estes nossos tesouros.
Os dinossauros brasileiros que hoje conhecemos estão extintos e jamais regressarão à vida.
Contudo, ainda vamos a tempo de travar a extinção de muitos dos dinossauros brasileiros da atualidade.
O nosso agradecimento ao professor Anelli pelo trabalho exemplar em prol da ciência e divulgação científica,
que serviu de inspiração a este documentário.
Sem a arte notável de Julio Lacerda, nem o livro nem este vídeo seriam os mesmos.
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