The Paradox of Debt | Richard Vague | TEDxCapeMay
Descrição
Nesta palestra iconoclasta, Richard Vague examina os ativos, passivos e rendimentos de todo o país, tanto do setor privado como do público, para revelar o seu património líquido. A sua análise holística demonstra que o fator real que impulsiona as crises financeiras e o aumento vertiginoso da desigualdade — mas também, paradoxalmente, o crescimento económico — é o endividamento privado sempre crescente. O paradoxo reside no facto de que, embora a dívida seja essencial e a nossa economia dependa dela, esta também traz instabilidade. Richard Vague serviu como Secretário da Banca e Valores Mobiliários da Pensilvânia, como Presidente da Agência de Financiamento de Habitação da Pensilvânia e como curador do conselho dos dois maiores fundos de pensões da mesma região, o Sistema de Reforma dos Funcionários das Escolas Públicas e o Sistema de Reforma dos Funcionários do Estado da Pensilvânia. É o autor de "The Paradox of Debt", que apresenta uma nova visão da macroeconomia e será lançado em julho de 2023. Escreveu ainda "The Case for a Debt Jubilee", uma exploração política do perdão de dívidas, "An Illustrated Business History of the United States", a história do progresso empresarial da nossa nação, "A Brief History of Doom", uma crónica das maiores crises financeiras mundiais, e "The Next Economic Disaster", uma nova abordagem para prever e prevenir crises financeiras. Richard é presidente da University of Pennsylvania Press, presidente do Conselho Consultivo de Inovação do Abramson Cancer Center e faz parte do Conselho de Administração do Institute for New Economic Thinking. Esta palestra foi realizada num evento TEDx, utilizando o formato das conferências TED, mas organizada de forma independente por uma comunidade local. Saiba mais em https://www.ted.com/tedx
Transcrição completa
Quero começar com um quiz rápido.
Em 2020, com a COVID e todas as despesas de apoio relacionadas, o défice do governo federal dos EUA foi de 3 biliões de dólares, e o seu património líquido, obviamente, diminuiu quase o mesmo valor. O que aconteceu ao património líquido das famílias nesse mesmo ano?
O património líquido das famílias dos EUA aumentou 14,5 biliões de dólares em 2020.
Porquê? Bem, o que é preciso notar é que quando o governo gasta dinheiro, ele não desaparece.
Em vez disso, vai para as contas correntes das famílias.
E aqui vemos que em 2019, o défice do governo foi de -1,37 biliões, e o rendimento líquido das famílias foi de 870 mil milhões.
Portanto, não é exatamente o mesmo, mas é muito simples, são semelhantes, há algumas outras coisas a acontecer.
Quando chegamos a 2020, o ano de que acabámos de falar, o défice do governo é de -3,21 biliões, o rendimento das famílias subiu para 2,52 biliões.
Quando o governo gasta dinheiro, ele não desaparece, vai para as contas correntes das famílias.
A despesa tem de ser igual ao rendimento.
E caso se esteja a perguntar se isso foi apenas em 2019 e 2020,
aqui vemos o rendimento líquido dos EUA como percentagem do PIB de 1945 até ao presente.
E vê-se que esta linha preta escura é o défice do governo como percentagem do PIB. Pode ver que termina aqui. E esta linha preta pontilhada, linha de bolinhas, talvez, é o rendimento das famílias.
E pode ver que estão invertidos. Sempre que o governo perde mais, as famílias ganham mais. Quando o governo perde muito, as famílias ganham muito. Há uma inversão entre o rendimento das famílias e os défices do governo.
E vamos ver como isso se reflete nas demonstrações de património líquido destas entidades. Este slide é complexo, obviamente, mas vou simplificá-lo para si.
Aqui está o património líquido do governo federal no final de 2019, que é de -15 biliões. O património líquido das famílias nesse mesmo ano foi de +116 biliões.
O património líquido das famílias supera o défice do governo federal.
Aqui pode ver que com a perda de 3 biliões de dólares de que acabámos de falar, o património líquido do governo federal diminui para -18 biliões. O património líquido das famílias sobe até aos 131 biliões.
Há três componentes para isso.
O primeiro são os ativos financeiros, basicamente contas correntes. E isso vai de 48 biliões para 52 biliões. Assim, pode ver o dinheiro a fluir para as contas das famílias.
Mas os dois maiores componentes da riqueza das famílias são os imóveis e as ações. E a inundação de dinheiro que entrou na economia devido aos gastos do governo fez subir o valor dos imóveis e das ações das famílias.
Aqui pode ver que os imóveis passaram de 33 biliões para 36 biliões,
e a maior mudança de todas foram as ações, onde as ações das famílias passaram de 45 biliões para 52 biliões. E as três coisas juntas foram o que compôs esse ganho de 14,5 biliões de dólares.
E, novamente, vemos isso não apenas nesses dois anos, mas de 1945 em diante.
Aqui pode ver o património líquido das famílias como percentagem do PIB, lá em 1950, cerca de 350% do PIB. Pode ver que, quando chegamos ao presente, subiu para quase 600% do PIB.
Isso ofusca o que está a acontecer no património líquido do governo,
onde em 1950, o património líquido do governo era de cerca de -40% do PIB, e chega a cerca de -84% do PIB. O ganho do lado das famílias supera o aumento do défice no património líquido do lado do governo.
Olhando para os três anos completos da pandemia, que, digamos, terminou em dezembro do ano passado, o património líquido do governo estadual e local diminuiu 1,7 biliões de dólares.
A parte do governo federal diminuiu 6 biliões. O património líquido das famílias aumentou 30 biliões de dólares nesse período de três anos.
Então, por que é que isso acontece?
Para explicar isso, precisamos primeiro de explicar que a dívida cresce sempre.
Este é um dos factos mais negligenciados e mal compreendidos em toda a macroeconomia.
Aqui está a dívida, a dívida total, do governo, das famílias e das empresas em relação ao PIB de 1970, desculpe, até ao presente.
E pode ver que, para os EUA, que é esta linha preta escura, vai de cerca de 125% do PIB para 260% do PIB.
No Japão, vai de 125 para 400. A China vai de muito pouco para quase empatar com os EUA em termos de dívida.
A dívida supera o PIB em essencialmente todas as economias.
O crescimento da dívida é uma característica do sistema, não uma aberração.
A desalavancagem, políticos e economistas falam repetidamente, vamos superá-la, blá, blá, blá. A desalavancagem essencialmente nunca ocorre em nenhuma economia. Quando ocorre, é de curta duração e cria uma circunstância adversa.
Por que é que a dívida cresce em relação ao PIB? Porque é preciso dívida para as economias crescerem.
Se quiser construir um novo edifício, se uma empresa quiser construir uma fábrica, se quiser construir uma nova casa, quase sem exceção, é preciso dívida para o fazer.
E aqui temos um gráfico onde traçamos o crescimento do PIB, que é a linha vermelha, para o aumento do que chamo dívida tipo um.
Dívida para gastos, em oposição à dívida para adquirir um ativo como um edifício ou empresa. Assim, a dívida para gastos impulsiona o PIB, e pode ver o quão próxima é essa correlação neste gráfico em particular.
A riqueza cresce porque a dívida cresce.
Como já mencionámos, os gastos do governo vão para as contas das famílias,
e os gastos do governo afetam o valor dos imóveis e das ações.
Inunda o mercado com dinheiro novo, o que faz subir esses valores.
Quero mostrar-lhe um pouco mais claramente a correlação entre o crescimento da dívida e o crescimento do património líquido das famílias.
Aqui vê a dívida do governo em relação ao PIB, e era essencialmente estável até cerca de 1980.
E pode ver que o património líquido das famílias era praticamente estável em relação ao PIB até 1980. A dívida do governo estava, na verdade, a melhorar, mas a dívida do setor privado estava a crescer e o resultado era essa estabilidade que vemos.
Então, em 1981, começa o que chamo a grande explosão da dívida,
que continuou até ao presente. E pode ver que a dívida total em relação ao PIB vai dos 125% de que já falámos para os 260%.
É quando vemos a marcha ascendente constante no património líquido das famílias. O crescimento da dívida realmente causa o crescimento do património líquido das famílias.
Então, se a dívida sempre sobe, e quando sobe, os preços dos ativos, a riqueza e o PIB sobem, qual é o problema?
Bem, há dois problemas, e são problemas significativos.
O problema número um é que o aumento da dívida tende a aumentar a desigualdade económica.
Pode ver aqui o património líquido dos 10% mais ricos das famílias de 1989, que é o mais recuado que podemos ter uma ideia clara disto,
até ao presente, vai de 150% do PIB para 300%. Isso é uma duplicação do património líquido das famílias mais ricas.
Pode ver que o património líquido de quase todos os outros é bastante estável.
É por isso.
A maior parte do património líquido são ações e imóveis. A maior parte do património líquido são ações e imóveis. E os 10% mais ricos do país detêm 65% de todas as ações e imóveis do país.
Os 60% mais pobres, ou seja, 6-0, que é a classe média, detêm apenas 14% das ações e imóveis do país.
Assim, à medida que os preços dos ativos sobem, a desigualdade invariavelmente aumenta.
É o facto central que impulsiona a desigualdade no nosso país.
O segundo problema é, pensando apenas na dívida do setor privado, a dívida das famílias,
quanto mais temos, maior este número se torna, mais do rendimento das pessoas tem de ser desviado para pagar juros e capital da sua dívida.
Chamamos a isso o rácio de serviço da dívida, o valor que tem de pagar em juros e capital em relação ao seu rendimento disponível.
E de 1950 até ao presente, para os 50% mais pobres do país, isso passou de cerca de 15 a 18% do seu rendimento disponível para 20, quase 27%.
É por isso que a economia está a crescer mais lentamente hoje do que nos anos 50 e 60. Podemos ver que para os 10% mais ricos, mal se mexe.
Não é um problema para os mais ricos. É um problema material, significativo, do dia a dia para a classe média e, de facto, para a maior parte do país.
Então, essa é a história.
Se quiser compreender a desigualdade, se quiser compreender a criação de riqueza, o ponto de partida é olhar para a dívida.
Então pode começar a fazer perguntas legítimas, pertinentes e válidas sobre o que fazemos para retificar a situação?
E muito do nosso trabalho gira em torno dessa questão. Pode envolver a reestruturação da dívida de uma forma muito mais profunda do que temos hoje.
Pode envolver estratégias periódicas de desalavancagem, que estão realmente para além do âmbito do que consideramos hoje na política económica.
Pode envolver a política fiscal. Se há tanta disparidade, podemos usar incentivos fiscais para incentivar a propriedade de ações e imóveis?
Podemos aumentar o rendimento para que as pessoas possam começar a acumular riqueza e a investi-la em ações e imóveis?
Talvez devêssemos acelerar a formação profissional em todo o país.
De qualquer forma, esses são os meus comentários, e agradeço o seu tempo hoje.
Obrigado.