Desde que nos lembramos, fomos condicionados a acreditar que a felicidade é um destino, um prémio a ser alcançado depois de superada a próxima montanha. ⛰️
“Quando fores para o ginásio, será bom.” “Quando estiveres no secundário, vais ser livre.” “Quando entrares na faculdade, a vida será espetacular.” “Quando tiveres o estágio, a efetividade, o diploma, o emprego...”. A melodia é sempre a mesma, apenas a letra muda. Esta é a canção hipnótica que nos embala desde tenra idade, prometendo um paraíso que recua a cada passo que damos na sua direção. E, no final, encontramo-nos a olhar para trás, com os cabelos brancos, questionando onde perdemos o fio à meada do que é realmente viver. 👴👵
O Desejo como Motor e Armadilha 🎯
O professor Clóvis de Barros Filho, com a sua eloquência cativante, desarma a nossa conceção mais básica de felicidade: a de que é ter o que se quer. Mas há aqui um paradoxo cruel. O desejo, por definição, só existe na ausência. Queremos o que não temos, e quando o possuímos, o desejo por aquilo esvai-se. Pense nos brinquedos de Natal: a febre da espera, a emoção de os abrir, e depois... jazem descartados num baú de “desejos assassinados pela presença”. Parece brutal, mas é a verdade nua e crua. Não é que o brinquedo seja mau, é que a falta do brinquedo já não existe.
A sociedade, por sua vez, tem um papel fundamental nesta orquestração do desejo. Não podemos simplesmente desejar o caos. As nossas energias precisam ser canalizadas para “troféus legítimos”, conquistas que se alinham com a ordem social. Assim, somos educados a desejar aquilo que o sistema nos diz que é digno de ser desejado: um bom emprego, um diploma, um estatuto. E esta educação transforma-se numa longa e incessante perseguição.
A Escada da Promessa Vazia 🪜
A narrativa de Clóvis é um espelho hilariante e simultaneamente doloroso da nossa própria jornada. Desde a preparação do “ginásio” na primária, passando pelo “secundário” da liberdade inexistente, até à faculdade onde a única preocupação parecia ser o “estágio” — um passe vital para escapar à sarjeta. E quando se obtém o tão ansiado estágio, a efetividade, o diploma, um emprego... Adivinha? Não é o fim da linha. É apenas o degrau G15, o nível mais baixo de uma escada corporativa infinita, onde a meta é sempre a próxima “cenoura” — outra metáfora genial para os objetivos que nos mantêm a correr sem nunca nos satisfazerem plenamente. 🥕
É um ciclo vicioso: sobes a escada corporativa, adquirem-se títulos sonantes em inglês (CFO, CEO, C-qualquer-coisa), mas há sempre alguém acima, sempre uma nova meta, um novo desafio. Até que um dia, a empresa te faz uma festa de despedida, entrega-te uma placa de “perseguidor de cenouras” reformado, e substitui-te por alguém mais jovem e, claro, mais iludido. A promessa final? A reforma, altura em que finalmente se viverá em paz. Só que, aos 80 anos, com a família à volta, percebemos que fomos enganados durante oito décadas.
A “Happy Hour” da Vida 🍹
Se a felicidade está sempre no futuro, então a vida que vivemos agora é apenas uma “portagem” que pagamos na expectativa de algo melhor. O professor Clóvis compara isto à nossa ideia de happy hour: é a sexta-feira às 18h, quando o trabalho acaba, não a segunda-feira de manhã. Imaginem a tristeza de viver a vida inteira à espera que “acabe” para se ser feliz. Que pensamento medíocre e infeliz, não acham? E, no entanto, é o que muitos de nós fazemos.
O Instante Mágico do Agora ✨
A grande virada acontece quando percebemos que o momento presente é a única realidade. Cada instante é uma oportunidade mágica, irrecuperável e inédita. Não é sobre esperar pelo “depois”, mas sobre fazer o melhor agora. É uma busca pela excelência naquilo que se está a fazer, seja dar uma palestra, escrever um artigo, ou simplesmente ter uma conversa. É a consciência de que a vida acontece neste segundo, e não noutro lugar.
E isso leva-nos à definição de felicidade mais bonita e palpável: a felicidade é aquele pequeno segundo que tu gostarias de repetir. Não é um estado permanente, uma conquista final. É um fragmento, um relance de satisfação que desejamos reviver. Pode ser um filme no cinema, uma conversa no bar, ou a pergunta de um aluno que te quer de volta na sala de aula porque, nas tuas aulas, ele foi feliz. 🎬 bar 👨🎓
No Fim de Contas: Onde Começa a Mudança 🤝
Se a felicidade é construída a cada pequeno instante, então a nossa responsabilidade coletiva é enorme. Se cada um de nós se esforçar para proporcionar a alguém um instante que essa pessoa gostaria de repetir, estamos a construir uma sociedade mais solidária, justa, coesa e feliz. Não há super-heróis a caminho. Não há soluções milagrosas. A tarefa é nossa, de procurar a felicidade através de uma convivência feliz. É no respeito mútuo, na busca pela justiça para nós e para os outros, que reside a verdadeira arte de viver bem. E Clóvis de Barros Filho, ao fazer-nos sentir felizes e querendo mais da sua sabedoria, cumpriu a sua própria definição de felicidade. E nós, aqui e agora, também o podemos fazer.




