Num domingo de silêncio pesado, o luto já nos envolvia quando uma nova urgência rasgou a fragilidade da família. O meu avô partira, e no rasto da dor, o meu pai, já fragilizado pelo Parkinson e pela bipolaridade, sucumbiu a um episódio de alucinações. O cenário era de alarme, e a resposta parecia óbvia: procurar ajuda. O que não sabíamos era que essa procura nos mergulharia num abismo de desumanidade, onde a burocracia e a indiferença pintavam um quadro desolador do nosso Serviço Nacional de Saúde.
A Promessa Vazia de Ajuda 📞
Acreditávamos, talvez ingenuamente, que a solução estaria ao alcance de um telefonema. Eram 16h47 de uma segunda-feira quando ligámos para a Saúde 24. O nome, como depressa perceberíamos, seria uma ironia cruel, um eco do tempo que se estende infinitamente na espera. Ninguém atendeu. O tempo correu, e a esperança de uma voz do outro lado desvaneceu-se. Às 18h30, a ambulância foi acionada. Uma hora depois, batíamos às portas do Hospital de São José.
Na triagem, a palavra que ecoou foi "AVC". Uma "suspeita de AVC" é um gatilho. O corpo reage, a mente antecipa a urgência. Mas, despidos de qualquer formação em gestão hospitalar, cometemos o erro fatal de confundir uma urgência clínica com a agilidade de um sistema. Sentámo-nos. E ali começou a nossa odisseia no purgatório dos corredores do SNS.
O Purgatório da Sala de Espera e o Grito Que Ninguém Ouve 🗣️
A sala de espera era um microcosmo de sofrimento e paciência forçada. Cada cadeira albergava uma história de dor, de desespero contido. Havia um homem, a quem carinhosamente apelidámos "o Mola", que se equilibrava numa dança incessante entre a exaustão e a inabalável vontade de se manter de pé, um espectro cambaleante que nunca caía. Víamos a sua aflição, sabíamos que continuava ali, e essa era, afinal, a nossa maior informação clínica sobre quase todos. Estavam ali.
Foi então que o ouvimos. Um homem gritava, de pulmões abertos, contra os "filhos da puta do governo". Ao princípio, a nossa racionalidade, cimentada em anos de polidez e decoro, classificou-o como "o maluco da sala". Horas depois, à medida que a noite avançava e o cansaço pesava, comecei a questionar: será que ele, e não nós, era o único com uma reação proporcional ao descalabro? Nós, os "equilibrados", encolhíamos os ombros, murmurando sobre telemóveis a descarregar, enquanto o sistema nos desnudava a todos, um a um.
Lá fora, a vida caótica da rua invadia o sossego das entradas. Lá dentro, famílias faziam turnos para usar a casa de banho, com medo de perder uma chamada que tardava. O meu pai, recém-órfão, procurava um espaço para a sua própria tristeza. Mas a tristeza, nos hospitais públicos, também parecia ter tirado senha, condenada a esperar pela sua vez.
O Pingue-Pongue Hospitalar e a Busca pela Cama 🏓
No meio da madrugada, um jovem médico de medicina interna apareceu. Pediu exames, e a suspeita de AVC ganhou, por um breve momento, ares de gravidade. Mas, ah!, o cérebro do meu pai, "esse tonto irresponsável", havia escolhido adoecer fora do horário de expediente. Sem neurologia disponível, a noite foi passada em cadeiras, aguardando que o sol e a equipa certa surgissem.
Ao raiar do dia, a neurologia avaliou o meu pai. Diagnóstico? Sintomas oftalmológicos. A oftalmologia, por sua vez, descartou a sua área. Épico. Inaugurava-se assim o torneio de pingue-pongue hospitalar. O meu pai era a bola. De São José a Santa Maria, e de Santa Maria novamente para São José, e de novo para Santa Maria. Uma odisseia de transferências e encaminhamentos, onde a cada paragem um familiar, qual "cabo USB humano", repetia, pela décima vez, a história, o historial, a razão de ser.
Quando finalmente decidiram interná-lo para estudo, a esperança acendeu-se. Uma cama! Um plano! Mas, para ser preciso na escolha das palavras, "decidiram interná-lo". O "fazê-lo" era outro projeto. Um homem com Parkinson, com uma suspeita de AVC, e uma noite inteira em claro, continuava em cadeiras, em pé, há mais de 24 horas. No papel, a sua situação "melhorava". Na realidade, a saga continuava.
A Maca e o Milagre da Digna Horizontalidade ✨
Às 22h30, apareceu uma maca. Uma simples maca. Confesso que nunca pensei atingir a idade adulta e sentir uma gratidão tão profunda por um pedaço de metal com rodas. Quis abraçá-la, sussurrar-lhe promessas, perguntar-lhe se estaria disponível para acompanhar a minha família nos anos vindouros. O meu pai, finalmente, pôde deitar-se.
Às onze da noite, as visitas terminavam. E aqui, sim, o sistema revelava uma capacidade de execução irrepreensível: podiam faltar camas, comunicação entre serviços, mas as horas de saída eram rigorosamente cumpridas. Deixaram-nos um número, para ligar a partir das sete da manhã e descobrir onde o meu pai estaria, mas sem informações clínicas. Fomos embora, ele ficou. Numa maca, num canto de um corredor.
De manhã, a maratona telefónica. 48 chamadas. Não é uma figura de estilo; foram mesmo 48 chamadas em sequência. A dada altura, já não procurava informação clínica, mas apenas a certeza de que havia um mamífero do outro lado. Finalmente, uma voz cansada informou: transferido para São José à uma da manhã. Nova ronda de números descontinuados, centrais confusas, secretismos inabaláveis. O meu pai, o doente, tornou-se um fantasma na máquina, a sua localização um segredo de estado.
Às nove da manhã, ele próprio nos ligou. Continuava em Santa Maria. No mesmo canto. Tinham-no "transferido" sem sequer lhe tocar. A única coisa que se movimentou foi a informação, e essa, erradamente.
O Corredor, A Nova Fronteira da Espera 🏥
No terceiro dia, o meu pai continuava na mesma maca, no mesmo canto, no mesmo corredor. Esse corredor, aliás, tornara-se o ponto mais estável de toda a organização. "Há quem esteja pior", disseram-nos, uma explicação que geria as expectativas ao lembrar-nos que éramos, afinal, novatos no bairro e que devíamos "baixar a bolinha". Ele passaria ali mais uma noite, nos corredores do grandiosíssimo Hospital de Santa Maria. Um dos maiores do país, supostamente capaz de dar resposta a tudo e a todos. Que espetáculo!
Começo a pensar que as inaugurações de hospitais deviam mostrar os seus corredores. O ministro a cortar a fita entre macas, a desviar-se de um ou outro "vagabundo moribundo", a anunciar mais quinze metros de esperança. Seria, no mínimo, mais honesto.
A minha raiva, para que fique claro, não se dirige a quem veste a bata. Vi pessoas a tentar remendar falhas que não criaram, a cobrar favores pessoais para pacientes desconhecidos, a fabricar milagres com as próprias mãos. A minha raiva é para quem decide, para quem define quantos médicos chegam, quantas camas bastam, quantas horas se pode deixar alguém sem informação ou, pior, sem tratamento adequado. É para quem posa em cenários hospitalares com falsas promessas, e se vai embora antes sequer de sentir o frio de uma cadeira de sala de espera.
A Pergunta Que Sobra: Onde Está a Dignidade? 😡
Gostaria que a próxima apresentação de um plano para a saúde fosse numa sala de espera. Sem púlpito, sem lugares reservados. O ministro, ou a ministra, tirava uma senha e aguardava a sua vez. Se quisesse saber como estava a correr a reforma, daríamos um número de telefone, para ligar a partir das sete da manhã.
Isto não é uma crítica partidária. Já não interessa a cor da gravata. Interessa-me que o meu pai, ou qualquer outro que precise, tenha uma cama. Que a ajuda seja encontrada onde é suposto. Que se saiba onde ele está, que saibam o seu nome, e que não me mandem procurá-lo num hospital para onde nunca foi. É uma ambição política modesta. Não peço a colonização de Marte; peço a localização de um homem numa maca e um sítio digno onde o tratar.
"Trabalham para nós" soa quase revolucionário, de tanto que nos habituámos a comportar como se nos estivessem a fazer um favor. Pagamos, esperamos, agradecemos e ainda temos de ter cuidado com o tom, para não "parecer mal" a nossa indignação. Pois, que fique aqui o tom possível: Senhores ministros, líderes de partidos, deputados e políticos em geral: vão-se foder.
Deem condições a quem cuida, a quem ensina, a quem trabalha. Deem descanso a quem está doente. E tenham a decência de responder pelo que deixam acontecer. Já chega de areia para os olhos. O meu avô morreu. O meu pai prepara-se para passar mais uma noite num corredor. E eu escrevo isto porque ainda preciso que alguém me diga o que vai acontecer daqui para a frente. O homem que gritava contra os "filhos da puta do governo" afinal não era assim tão maluco. Ele apenas percebeu tudo muito antes de mim. Espero que, entretanto, também o tenham atendido.




