Imaginemos que estamos a investir milhões numa mina de ouro, mas, depois de escavarmos, poucos se dão ao trabalho de pesar o metal precioso para saber se a empreitada valeu a pena. Este cenário, que parece absurdo no mundo da extração, é uma realidade preocupante no universo da Inteligência Artificial (IA) empresarial. Enquanto a corrida à IA continua a acelerar, com orçamentos cada vez mais inflacionados, a capacidade de medir o retorno sobre o investimento (ROI) revela-se um calcanhar de Aquiles para a grande maioria das organizações.
Um novo relatório da KPMG, o Global AI Pulse Q3 2026, vem desvendar uma verdade inconveniente. Apesar de 89% das empresas já identificarem resultados mensuráveis — talvez uma melhoria na eficiência, um chatbot mais ágil, ou um processo otimizado —, apenas 12% avaliam sistematicamente se o dinheiro gasto na tecnologia está, de facto, a compensar. Os restantes 77% estão, em grande parte, a apostar às cegas. E isto num contexto em que o investimento médio previsto em IA para o próximo ano ascende a uns impressionantes 187 milhões de euros por organização, um salto de 13% em relação ao trimestre anterior. A Europa, Médio Oriente e África (EMEA) lideram o crescimento, com um aumento de 29%.
A Febre do Ouro Digital sem Balança 💰
A discrepância é notória: as empresas estão dispostas a arriscar somas consideráveis, mas a diligência financeira básica parece falhar quando se trata de IA. Embora 61% analisem os custos na aprovação do investimento e 59% os acompanhem durante a utilização, a capacidade de ligar sistematicamente essas despesas aos resultados concretos é rara. É como comprar o bilhete para o comboio, viajar, mas nunca chegar a ver a paisagem por ter os olhos vendados.
Ora, o problema não é a ausência de benefícios. A IA está a produzir valor. O desafio, sublinha Rui Gonçalves, Partner Head of Technology Consulting da KPMG em Portugal, não é o quanto se investe, mas sim investir sem saber o quê gera retorno em termos de eficiência, competitividade e capacidade de decisão. Para as empresas portuguesas, isto é um alerta crucial: mais do que o montante, é a inteligência estratégica que conta.
De Hype a Estratégia: A Maturação Necessária 📈
Felizmente, nem tudo é incerteza. O relatório aponta para uma fase de transição. A IA está a sair do campo da mera experimentação e a entrar numa etapa em que a prioridade é transformar investimento em resultados concretos e sustentáveis. A maturidade de uso empresarial da IA está a aumentar, sobretudo na região EMEA, que viu a percentagem de organizações em fase de implementação em escala ou mais avançada saltar de 40% para 56% em pouco tempo. A diferença entre as regiões mais e menos desenvolvidas diminuiu, o que sugere uma globalização da experiência e do conhecimento.
Assistimos também a uma ascensão notável dos agentes de Inteligência Artificial. 34% das empresas já registam uma adoção significativa, e 38% estão a desenvolver sistemas multiagente, onde diferentes IAs colaboram em tarefas complexas. Esta evolução sinaliza uma integração cada vez mais profunda da tecnologia no tecido operacional das empresas.
Para Além da Produtividade: Os Novos Pilares da IA Responsável 🛡️
Se inicialmente a produtividade era o foco exclusivo da adoção da IA, as prioridades empresariais estão a alargar-se. Embora continue a ser um objetivo primário, a sua importância relativa diminuiu. Agora, ganham terreno outras preocupações fundamentais:
- Colaboração entre humanos e IA: Apontada por 32% das organizações. Uma simbiose necessária para potenciar o capital humano.
- Utilização Responsável e Governança: Com 30%, demonstra a crescente consciência sobre a ética e as regras que devem reger a IA.
- Confiança e Segurança: Também com 30%, reflete a preocupação central com a integridade dos dados e sistemas.
Esta mudança é um sinal de que as empresas estão a amadurecer na sua abordagem à IA, focando-se não só no que a IA pode fazer, mas também no como deve ser implementada e gerida. A cibersegurança é um ponto de especial atenção: 86% das organizações estão a adaptar os seus modelos para enfrentar as novas ameaças potenciadas pela IA. E, curiosamente, entre as empresas que já conseguem provar o ROI da IA, 71% priorizam a cibersegurança e proteção de dados, um contraste gritante com os 36% das que ainda estão em fase experimental.
O Desafio da Soberania Tecnológica 🇵🇹🇪🇺
À medida que a IA se torna mais omnipresente, a questão da soberania tecnológica emerge com força. 72% das organizações já consideram formalmente questões como o controlo dos modelos de IA, dos dados e da propriedade intelectual nas suas decisões. Contudo, apenas 21% possuem uma estratégia transversal e regularmente revista nesta área. Este é um campo onde a Europa, com a sua forte aposta na regulação e proteção de dados, tem um papel crucial a desempenhar, salvaguardando a autonomia digital das empresas e dos cidadãos.
O Que Fica 💡
A lição do relatório da KPMG é clara: a era da IA como mera novidade tecnológica está a dar lugar a uma fase de integração estratégica e responsável. Não basta investir; é preciso fazê-lo com critério, com metas claras e, acima de tudo, com mecanismos de avaliação robustos. O verdadeiro valor da Inteligência Artificial não reside apenas no seu potencial disruptivo, mas na capacidade das empresas de o traduzir em retornos tangíveis, sustentáveis e eticamente sólidos. Aquelas que souberem medir e adaptar-se, serão as verdadeiras vencedoras desta nova era digital. As restantes, correm o risco de continuar a cavar, sem nunca saber se, no fim, encontraram mesmo ouro.




