Era uma vez, no reino da estabilidade financeira, uma batalha silenciosa travada contra o risco excessivo. O inimigo? O endividamento desenfreado. O herói? As políticas macroprudenciais, aquelas regras apertadas que o Banco de Portugal, qual guardião vigilante, implementou para segurar as rédeas do crédito. Mas agora, Mário Centeno, o homem que um dia empunhou a espada das Finanças, e hoje é um observador atento na CNN Portugal, vê a sombra de um novo perigo. E não fala apenas como economista, mas como pai e cidadão, preocupado com o legado que deixamos à próxima geração. Será que, ao tentar estender uma mão, o Estado estará a empurrar os jovens para um abismo de dívida que Portugal julgava ter deixado para trás?
O Sonho da Casa e o Pesadelo da Dívida
Em Portugal, o mercado da habitação vive um período, para usar as palavras de Centeno, "disfuncional". Os preços disparam, o acesso torna-se um luxo e os jovens veem o sonho da casa própria a desvanecer-se. Perante este cenário, o Governo intervém com uma garantia pública para o crédito à habitação, uma medida que, à primeira vista, soa a alívio. Afinal, quem não gostaria de ter uma ajuda para dar o primeiro passo no mercado imobiliário? 🤔
Contudo, para o antigo ministro das Finanças e ex-governador do banco central, esta garantia não é um facilitador, mas um "escolho" – um obstáculo lançado ao bom funcionamento das políticas que, desde 2018, tinham vindo a estabilizar o sistema financeiro. É como construir uma rampa de acesso, mas acidentalmente derrubar o muro de contenção que impedia a derrocada.
O Valor Escondido do Risco: O Loan-to-Value (LTV)
Para compreender a gravidade do alerta de Centeno, é crucial olharmos para um indicador técnico, mas revelador: o loan-to-value (LTV). Este rácio mede a percentagem do valor de um imóvel que é coberta por um empréstimo bancário. Um LTV alto significa um maior risco, tanto para o devedor como para o banco, pois o comprador investe pouco capital próprio, ficando mais exposto a flutuações de mercado.
Em 2018, os dados do Banco de Portugal mostravam uma realidade preocupante: 21% dos empréstimos ultrapassavam os 90% do valor da casa, e uns massivos 32% eram considerados de risco elevado. Ninguém queria regressar aos tempos em que se compravam casas sem entrada, abrindo a porta a bolhas especulativas e crises financeiras.
Foi então que as políticas macroprudenciais entraram em ação. Com um controlo apertado sobre o risco, entre 2019 e 2024, o cenário transformou-se dramaticamente. O número de empréstimos com LTV superior a 90% caiu para zero. E os empréstimos de risco elevado? Desapareceram quase por completo, representando apenas 3% do total. Uma vitória para a estabilidade financeira, uma conquista de décadas de aprendizagem. 🏆
O Retrocesso de uma Decisão
Mas eis que, em 2025, os números contam uma história diferente. A percentagem de empréstimos com LTV acima de 90% dispara para uns alarmantes 19%, e os empréstimos de risco elevado voltam a escalar para 21%. É como se a garantia pública tivesse desfeito, num único ano, os esforços e as cautelas acumuladas durante tanto tempo.
Centeno não esconde a sua preocupação, expressa não só na sua qualidade de economista, mas também na de cidadão e pai. A sua angústia é palpável: "Estamos a lançar uma geração jovem para um grau de endividamento que não existia em Portugal há muitas décadas". É uma visão sombria, um prognóstico de que, no afã de resolver um problema, se está a criar um outro, com consequências potencialmente ainda mais graves para a solidez financeira das famílias e do país.
O Caminho é a Oferta, Não a Dívida
Para o antigo ministro, a solução não passa por facilitar o acesso ao crédito via garantia pública, mas sim por atacar a raiz do problema: a falta de oferta de habitação. O esforço, defende, tem de ser canalizado para o lado da oferta, para a construção e disponibilização de mais casas, a preços acessíveis. Só assim se poderá aliviar a pressão sobre os preços e, consequentemente, sobre o endividamento.
No fim de contas, a questão não é a intenção – ajudar os jovens a aceder à habitação é um desígnio nobre. A questão é o método e as consequências não intencionais. Mário Centeno, com a sua voz experiente, desafia-nos a olhar para além do imediatismo. Queremos casas, sim, mas a que custo? Queremos dar asas aos sonhos dos jovens, ou condená-los a um voo baixo, preso pelas correntes do endividamento? A aposta, diz-nos, tem de ser na oferta. Pois só aumentando o bolo de casas disponíveis, e não a capacidade de as endividar, é que se constrói um futuro sólido, livre de escolhos e de dívidas que não existiam há décadas. Um futuro onde a casa seja um lar e não um fardo. 🏡




