Há dez anos, comprar uma casa em Portugal, especialmente nas grandes cidades, já era um desígnio. Hoje, para uma geração inteira, é uma quimera, um sussurro distante de um tempo que parece já não existir. Imagine isto: há uma década, com 158 mil euros, conseguia-se comprar uma casa usada na Grande Lisboa. Atualmente, esse mesmo sonho exige um valor que se aproxima perigosamente dos 400 mil euros. Não estamos a falar de um aumento linear; estamos a assistir a uma escalada vertiginosa que está a reescrever as regras do jogo imobiliário.
O Despertar da Grande Lisboa para uma Nova Realidade 🤯
No segundo trimestre deste ano, a compra de uma casa usada na Grande Lisboa custava, em média, 392,8 mil euros. Se compararmos com o mesmo período de 2016, quando o valor se cifrava nos 158,3 mil euros, estamos a falar de um incremento colossal de 148%. É uma taxa de valorização que faria corar os mercados financeiros mais voláteis. Os números são frios, mas a realidade por detrás deles é quente, ardente mesmo: mais de 84% das transações na região — que abrange concelhos como Amadora, Cascais, Loures, Oeiras e Sintra — são de habitações em segunda mão. Isto não é apenas uma estatística; é um espelho de uma demanda insaciável, que o stock de novas construções, muito mais caro (583,8 mil euros em média), não consegue absorver.
A Península de Setúbal: O 'Plano B' que Deixou de o Ser 🏡
A pressão de Lisboa, como a maré, estende-se. E para onde se vira essa maré? Para sul. A Península de Setúbal, que inclui cidades como Almada, Barreiro e Seixal, era, até há bem pouco tempo, uma espécie de refúgio. Onde antes se encontrava uma alternativa mais acessível, agora os preços também dispararam a um ritmo alarmante. Em 2016, uma casa usada custava, em média, 83,3 mil euros. Hoje? 273,5 mil euros. Sim, leu bem: mais do que o triplo em apenas dez anos. O “plano B” para quem não conseguia comprar na capital tornou-se, por sua vez, um novo desafio, empurrando as famílias para mais longe, numa procura incessante pelo metro quadrado ainda abordável.
O Norte Não Fica Para Trás: Porto na Rota da Valorização 🇵🇹
Não é um fenómeno exclusivo do sul do país. A Área Metropolitana do Porto seguiu uma trajetória igualmente impressionante, ou talvez ainda mais, em termos percentuais. Há uma década, uma casa usada no Porto valia, em média, 97,6 mil euros. Atualmente, esse valor atingiu os 259,2 mil euros. Um salto de 165,6% em dez anos, superando até a Grande Lisboa na valorização percentual. O panorama é claro: as grandes urbes portuguesas, e as suas periferias, estão a viver uma reconfiguração profunda, com o custo da habitação a assumir contornos dramáticos.
Usadas vs. Novas: Uma Parcela do Enigma 🔍
Curiosamente, enquanto as casas usadas registaram aumentos percentuais mais elevados, as novas construções mantêm-se consideravelmente mais caras em termos absolutos. Uma nova casa na Grande Lisboa ainda custa, em média, 583,8 mil euros. A nível nacional, as habitações usadas encareceram 131,5% na última década, passando de 108,4 mil euros para 251 mil euros, enquanto as novas subiram 85,8% (de 177,8 mil euros para 330,3 mil euros). Esta dicotomia sugere uma escassez estrutural e uma procura robusta por qualquer tipo de habitação, independentemente da sua idade, refletindo a dificuldade crescente de acesso.
O Que Fica?
Esta corrida desenfreada aos preços, impulsionada por múltiplos fatores, do investimento estrangeiro à escassez de oferta, está a gerar uma profunda desigualdade social. O acesso à habitação, que deveria ser um direito fundamental, transforma-se num privilégio reservado a poucos. As cidades, que deveriam ser centros de oportunidades, correm o risco de se tornarem museus habitados por uma elite, expulsando os trabalhadores, os jovens e as famílias que lhes dão vida e alma. A pergunta que se impõe, e que nos deve perseguir, é: que tipo de país estamos a construir quando o teto sobre a nossa cabeça se torna um sonho proibitivo para tantos? A resposta a esta questão definirá não só o futuro do nosso mercado imobiliário, mas a própria coesão da nossa sociedade.
Fonte: Casas usadas custavam 158 mil euros há dez anos na Grande Lisboa. Agora aproximam-se dos 400 mil



