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A Coreia do Norte que Ninguém te Mostra: Um Olhar Íntimo 🇰🇵
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A Coreia do Norte que Ninguém te Mostra: Um Olhar Íntimo 🇰🇵

Para lá dos clichés de mísseis e líderes caricatos, existe um quotidiano complexo e surpreendente. Uma equipa de cineastas passou oito anos a documentar a vida dos norte-coreanos, revelando um país muito mais humano do que imaginamos.

📅 ⏱ 6 min de leitura📺 Vídeo original

Para a maioria de nós, a Coreia do Norte é uma caricatura: um reino hermitão governado por uma dinastia de líderes corpulentes, assombrado por gulags e pela ameaça nuclear. Imagens de desfiles militares grandiosos e uma propaganda implacável preenchem o nosso imaginário, tornando difícil vislumbrar algo para além da superfície. Afinal, é-nos constantemente dito que lá não se pode ir, que nada se pode ver e que, mesmo que se vislumbre algo, será certamente uma encenação. Recordo a incredulidade de um observador que morava no 24º andar de um prédio em Pyongyang quando alguém lhe garantiu que arranha-céus na capital eram uma invenção. Estaria ele a levitar o tempo todo? 🤔

Essa narrativa, muitas vezes unidimensional, obscurece uma realidade infinitamente mais rica e complexa. Durante oito anos, uma pequena equipa de três pessoas, incluindo um tradutor coreano, empreendeu mais de 40 viagens ao país. O seu objetivo não era capturar imagens de campos de prisioneiros ou rampas de mísseis – esses seriam, evidentemente, proibidos. Mas também o eram soldados, estaleiros, supermercados e até, por vezes, pessoas a comer. Contudo, a persistência abriu portas, permitindo uma janela para o dia a dia que raramente é partilhado.

Uma Luta Constante: A Vida Rural 🌾

Apesar das inúmeras montanhas que dominam a paisagem, a Coreia do Norte é, acima de tudo, uma terra agrícola, onde o sonho da autossuficiência é uma meta perene. Com apenas 20% da terra arável, cada metro quadrado é disputado, cultivado até nas encostas. Vemos tratores velhos e autocarros avariados nas bermas das estradas, um testemunho de uma economia em luta. Fotografias de fábricas que poderiam facilmente ser dos anos 20 do século passado, mas que são de 2016, mostram o contraste entre a aspiração e a realidade. A maior fábrica de fertilizantes do país, por exemplo, embora modernizada, continua a ser um símbolo da necessidade de alimentar uma nação.

Numa quinta cooperativa, encontramos uma trabalhadora rural. O seu rosto, marcado pelo sol e pelo frio, conta a história de invernos gélidos e verões abrasadores, de costas curvadas nos arrozais. O filho, de 14 anos, parece pequeno para a idade, uma lembrança dos "anos difíceis" e da grande fome que devastou o país entre 1994 e 2000. Na sua sala de estar, a televisão exibe melodramas históricos, reavivando memórias da revolução. Mas a sua verdadeira paixão manifesta-se quando descreve as suas viagens a Pyongyang, a capital, um farol de modernidade e esperança. Visitar o berço da República, a casa onde Kim Il Sung nasceu, é uma peregrinação obrigatória, um reforço da narrativa fundacional do país.

Pyongyang: A Ilusão da Modernidade ✨

Para a trabalhadora rural, Pyongyang é um mundo à parte: mais moderna, mais luminosa, com mais lojas, mais comida, mais trabalho e mais cultura. É a joia da coroa, o modelo a seguir, o coração vibrante do estado. Os edifícios exemplares, as casas de cientistas, soldados e funcionários públicos, incluindo os da famosa Rua dos Cientistas do Futuro, erguidos pela força de trabalho de soldados e operários, são um espetáculo para quem vem de uma aldeia sem sequer uma estrada pavimentada. A senhora da quinta maravilha-se com os arranha-céus, um deles em forma de átomo, e com a profusão de cores que substituíram o cinzento do passado.

E, no entanto, para lá da fachada oficial, desenvolveu-se um mercado imobiliário semi-legal fascinante. Quando o estado atribui um apartamento novo a um cidadão merecedor, este pode vender o direito de habitação do seu antigo imóvel. Os preços podem atingir mais de 100.000 dólares para as melhores localizações, com o estado a arrecadar apenas uma pequena percentagem em impostos. Uma acumulação primitiva de capital, como Marx talvez a descrevesse, silenciosamente a florescer numa economia supostamente planificada.

Amor, Família e Lazer: O Cotidiano que Persiste 👨‍👩‍👧‍👦

Casamentos são eventos de grande importância. Vemos casais a posar em locais icónicos, em vídeos profissionais, sob o calor e a humidade da estação das monções. A primeira paragem para um recém-casado é sempre junto às estátuas dos Grandes Líderes, um gesto de lealdade e reverência. Depois, vêm os parques de flores ou as fontes, culminando em sumptuosos banquetes cujo tamanho reflete a riqueza da família.

Curiosamente, na Coreia do Norte, os casamentos arranjados ainda são a norma, com intermediários a desempenhar um papel crucial. Historicamente, isto significava casar dentro da sua classe social, uma hierarquia rígida que separava os descendentes dos companheiros revolucionários de Kim Il-sung dos herdeiros dos "colaboradores japoneses". No entanto, a fome e a desintegração parcial do estado durante a "Marcha Árdua" (1994-2000) abalaram essa ordem social, concedendo mais liberdade de escolha. Hoje, cientistas, diplomatas, oficiais militares e, claro, empresários são as profissões mais desejáveis para um bom partido.

A educação, totalmente gratuita, é uma prioridade estatal, resultando numa taxa de alfabetização de 100%. As crianças aprendem matemática, física, música, coreano e, obviamente, as vidas dos Grandes Líderes. Os melhores alunos passam as férias em campos de pioneiros, praticando desporto e reforçando a ideologia. Vemos uma competição animada entre "equipas azuis" e outras, com um cabo de guerra que envolve um boneco de um "malvado soldado americano" – um elemento inabalável da propaganda que coexiste com a alegria da infância.

Entre a Propaganda e a Alegria Genuína 🎭

Os parques de diversões e aquáticos, uma das prioridades de Kim Jong-un, oferecem uma rara oportunidade de descontração. Embora a entrada seja relativamente cara (2 euros), as pessoas misturam-se, riem e escorregam nos tobogãs. A ideia de que nem todos sabem nadar, levando a aulas de natação na televisão nacional, é um detalhe revelador. À noite, no Parque Moranbong, atrás do Arco do Triunfo, reformados dançam num estilo que alguns descrevem como bizarro ou quase xamânico, uma cena que Chris Marker, em 1956, já havia documentado. O canto é um pilar da cultura, uma forma de comunicar e de pertencer. "Não cantar é estar sozinho. Inimaginável", diz um frequentador do parque.

Nas proximidades, um bairro apelidado de "Dubai" exibe um inesperado luxo: lojas de eletrónica, farmácias, supermercados com ar condicionado onde se encontram chocolates suíços, azeite e vinhos franceses. Os "Donju", os "mestres do dinheiro", os novos ricos, frequentam restaurantes que servem sushi e bifes a 20 dólares. A Coreia do Norte, para aqueles que podem pagar, já não é um estado anticonsumista. Esta emergência de luxo e consumo é, talvez, uma sequela da memória da "Marcha Árdua", uma compensação pelo horror da fome.

Contudo, a presença militar é constante. Soldados em todo o lado, as tensões latentes em Panmunjom, e os intermináveis filmes de guerra na televisão lembram que o país vive num estado de "guerra latente". Mesmo assim, as pessoas de Pyongyang parecem mais interessadas em como ter um bom casamento ou uma boa carreira, temas de sitcoms exibidas em ecrãs gigantes, do que nas longas ladainhas da propaganda.

O que fica 🇰🇵

Por detrás do véu da propaganda e da narrativa ocidental, existe uma nação de pessoas que labutam, amam, sonham e encontram alegria em pequenos momentos. Pyongyang, com as suas luzes e paisagens, inspira lealdade, mas essa lealdade também é temperada pelo medo de ser exilado para "um lugar onde terão menos de tudo". A Coreia do Norte que raramente vemos é um lugar de contrastes gritantes, de resiliência e de uma humanidade que se recusa a ser totalmente apagada pelos contornos de um regime. Não é menos complexa nem menos contraditória do que qualquer outra nação, apenas mais oculta. E, talvez por isso, mais fascinante.

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