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Os filhos da Puta do Governo

No domingo morreu o meu avô. O meu pai, que tem Parkinson e bipolaridade, teve um episódio de alucinações depois de deixarmos o pai dele no crematório. Fomos procurar ajuda. E essa foi a nossa primeir

📅 8 min de leitura Áudio pronto

No domingo morreu o meu avô. O meu pai, que tem Parkinson e bipolaridade, teve um episódio de alucinações depois de deixarmos o pai dele no crematório. Fomos procurar ajuda. E essa foi a nossa primeira alucinação coletiva. Achámos que havia um sítio onde a podíamos encontrar. Às 16h47 de segunda-feira ligámos para a Saúde 24. Ninguém atendeu. O nome deve referir-se ao número de horas durante as quais uma pessoa fica à espera que atendam do outro lado. Às 18h30 chamámos uma ambulância. Às 19h30 estávamos no Hospital de São José e, na triagem, levantou-se a suspeita de AVC. Uma pessoa ouve “suspeita de AVC” e pensa que vai acontecer alguma coisa depressa. Mas os burros somos nós porque não temos formação em gestão hospitalar. Confundimos uma urgência com uma coisa urgente. Sentámo-nos. A sala de espera tinha toda a espécie de sofrimento distribuído por cadeiras. Havia um homem a quem, já abraçados pelo aborrecimento, chamámos “o Mola”. Andava de um lado para o outro, a cambalear, sempre na iminência de cair, mas recuperava sempre e voltava a andar. Não sabíamos o que tinha. Víamos que bem não estava e sabíamos que continuava ali. Naquele momento, era a informação clínica que tínhamos sobre quase toda a gente. Que continuavam ali. Outro gritava contra os “filhos da puta do governo”. Ao princípio achei que era o maluco da sala. Ao fim de umas horas de espera comecei a achar que era o único com uma reação proporcional às circunstâncias. Nós, os “equilibrados”, estávamos caladinhos, a assistir àquilo e a perguntar onde se podia carregar o telemóvel. Entrava polícia. Saía polícia. Escoltas. Gritos. Lá fora, pessoas a importunar quem entrava e saía. Lá dentro, famílias a tentar perceber se podiam ir à casa de banho sem perder a chamada que esperavam há mais de cinco horas. O meu pai tinha acabado de perder o pai. Ainda não tínhamos tido tempo de estar tristes sossegados. A tristeza também deve ter tirado senha no hospital público e tem de esperar pela sua vez. A meio da madrugada apareceu um médico jovem de medicina interna. Viu-o, pediu exames e, pelo que nos foi explicado, a suspeita de AVC ganhou força. Descobrimos então que, àquela hora, não havia equipa de neurologia disponível. O cérebro do meu pai, esse tonto irresponsável, tinha escolhido adoecer fora do horário laboral. Passámos a noite nas cadeiras. De manhã, quando entrou ao serviço, a equipa de neurologia avaliou o meu pai e considerou que os sintomas seriam oftalmológicos. Esperámos pela oftalmologia. Nesta altura, as horas começaram a perder utilidade. Há um momento em que já não sabes se são dez ou onze. Sabes que a máquina tem café, que aquele senhor ainda não foi chamado e que estás a fazer um braço de ferro com a tua paciência. A oftalmologia descartou uma causa da sua área. Espetacular. Veio uma carta de encaminhamento para Santa Maria, onde o meu pai já era acompanhado por causa do Parkinson. Nova ambulância. Novo hospital. Estava inaugurado o torneio oficial de pingue-pongue hospitalar. O meu pai era a bola. Em Santa Maria voltou a ser observado pela neurologia. A hipótese de AVC continuava em cima da mesa. O meu pai, infelizmente, continuava numa cadeira. Já era perto da uma da tarde. Achamos nós. Tínhamos chegado a São José às 19h30 da noite anterior. Pelo meio, houve exames, médicos, esperas e aquela atividade gira em que um familiar explica a um profissional, pela décima vez, quem é o doente, onde estava e o que outro profissional disse, na esperança de funcionar como cabo USB entre departamentos. Por volta das 20h decidiram interná-lo para estudo. Finalmente. Uma decisão. Um plano. Uma cama. Não havia cama. É preciso respeitar a precisão das palavras. Tinham decidido interná-lo. Fazê-lo era outro projeto. Um homem com Parkinson, suspeita de AVC e uma noite inteira por dormir levava mais de 24 horas entre cadeiras e períodos em pé. Mas já tinha indicação para internamento. No papel, estava a melhorar imenso. Retomou-se o pingue-pongue. “O seu pai vai ser transferido para...” “São José. Esqueça, não é o hospital de residência.” “Santa Maria. Esqueça, não temos camas.” “Outra vez São José. Já dissemos que não é o hospital de residência.” “Depois São Francisco Xavier. Não atendem o telefone.” “Depois, afinal, Egas Moniz. Não tem vagas.” A bola era o meu pai e a rede era a enfermeira, coitadinha, que nos tinha de dar estas notícias à medida que as ia recebendo. Não sei quem estava a ganhar, mas nós estávamos a levar baile de certeza. De cada vez que nos anunciavam um hospital novo, tentávamos perceber se era uma decisão ou apenas um nome que alguém se tinha lembrado de dizer. Às 22h30 apareceu uma maca. Uma maca. Nunca pensei chegar à idade adulta e sentir gratidão profunda por um móvel com rodas. Apeteceu-me abraçá-la. Fazer-lhe um pequeno discurso. Perguntar-lhe se tinha disponibilidade para acompanhar a nossa família nos próximos anos. O meu pai pôde finalmente deitar-se. Às onze acabavam as visitas. E aqui, sim, o sistema revelou uma capacidade de execução irrepreensível. Podia não haver cama, quarto, destino ou comunicação entre serviços, mas havia quem soubesse exatamente a que horas tínhamos de sair. Deram-nos um número de telefone. Podíamos ligar a partir das sete da manhã para saber onde estava o meu pai, mas não davam informações clínicas. Fomos embora. Ele ficou numa maca, num canto de um corredor. Tentei dormir. De manhã comecei a ligar. 48 chamadas. Não é uma maneira de dizer “muitas”. Foram 48, de seguida. A certa altura já não estava à espera de informação clínica. Queria apenas descobrir se do outro lado existia um mamífero. Finalmente atenderam. Uma pessoa com uma voz cansada tentou ajudar-me e informou-me de que o meu pai tinha sido transferido para São José por volta da uma da manhã. Muito bem. São José. O número que encontrei no site do SNS estava descontinuado. Encontrei outro número. Uma central de vários hospitais. Encaminharam-me. Atenderam. Não era São José. Outro número. Ninguém atendeu. Finalmente consegui falar com um senhor que me disse que não podia dar informações sobre pacientes. A confidencialidade estava impecável. Tão impecável que já nem sabíamos em que hospital o paciente estava. Às nove da manhã, o meu pai acordou e falou connosco. Felizmente, deve ter encontrado um sítio onde carregar o telemóvel. Continuava em Santa Maria. No mesmo canto. Tinham-no transferido sem lhe tocar. A única coisa que tinha saído de Santa Maria era a informação errada. O meu pai entrou no hospital porque estava a ver coisas que não estavam lá. Na manhã seguinte, o hospital onde ele estava deixou de o ver a ele. Vamos no terceiro dia e o meu pai continua deitado na mesma maca, no mesmo canto do mesmo corredor. Depois de tanta conversa sobre transferências, aquele tornou-se o ponto mais estável de toda a organização. Dizem-nos que há pessoas naquele corredor há mais de três dias à espera de cama. A informação chega quase como uma explicação tranquilizadora. “Há quem esteja pior” é uma maneira extraordinária de gerir expectativas. Uma pessoa pergunta quando é que o pai vai ter uma cama e descobre que, afinal, ainda é novo no bairro e que tem de baixar a bolinha. Por isso, tudo indica que vai passar ali outra noite. Nos corredores do grandiosíssimo, magnífico Hospital de Santa Maria. Num dos maiores hospitais centrais do país, capaz de dar resposta a tudo e a todos. Que espetáculo! Começo a achar que deviam pôr os corredores nas fotografias das inaugurações de hospitais novos. Era mais honesto. O ministro cortava a fita entre duas macas, desviava-se de um ou dois vagabundos moribundos que estão ali porque são preguiçosos, ou pior, imigrantes, e anunciava a abertura de mais quinze metros de esperança. E antes que alguém aproveite isto para descarregar em quem anda de bata, vi pessoas a tentar ajudar. Vi gente a trabalhar dentro desta confusão, a procurar respostas, a remendar falhas que não criou. A cobrar favores pessoais por pessoas que não conhece de lado nenhum. Não quero que uma enfermeira tenha de fabricar uma cama com as próprias mãos. Quero que não precise de um milagre para encontrar uma. A minha raiva não é para quem está de bata. Vai para quem decide tudo. Para quem decide quantos médicos chegam, quantas camas bastam e quantas horas se pode deixar alguém sem informação. Ou pior, um doente sem tratamento adequado. A minha raiva vai para quem aparece a anunciar soluções com o hospital em pano de fundo e se vai embora antes de experimentar uma cadeira. Gostava que a próxima apresentação de um plano para a saúde fosse numa sala de espera. Sem púlpito. Sem lugares reservados. O senhor ministro ou a senhora ministra tirava uma senha e esperava que o chamassem para poder falar. Se precisasse de saber como estava a correr a reforma, dávamos-lhe um número de telefone. Podia ligar a partir das sete. Honestamente, isto não é uma crítica a um lado do governo ou a outro. Acho que, no ponto em que estamos, não interessa a cor da gravata. Interessa-me que o meu pai, ou qualquer outro que precise, tenha uma cama. Que quem procura ajuda a encontre nos sítios onde é suposto ela estar. Interessa-me que alguém saiba onde ele está. Que saibam o nome dele. Que não me mandem procurá-lo num hospital para onde nunca foi. É uma ambição política bastante modesta. Não estou a pedir a colonização de Marte. Estou a pedir a localização de um homem numa maca e um sítio digno onde o tratar. “Trabalham para nós” parece uma frase revolucionária porque passamos a vida a comportar-nos como se nos estivessem a fazer um favor. Pagamos, esperamos, agradecemos e ainda temos de ter cuidado com o tom, não vá parecer mal estarmos chateados com qualquer coisinha. Pois então fica aqui o tom possível. Senhores ministros, líderes de partidos, deputados e deputadas, políticos no geral: vão-se foder. Vocês mais as vossas falsas promessas para angariar votos. Deem condições a quem cuida, a quem ensina, a quem trabalha. Deem descanso a quem está doente. E tenham a decência de responder pelo que deixam acontecer. Já chega de areia para os olhos, porque o povo já começa a criar resistência. O meu avô morreu no domingo. O meu pai prepara-se para passar outra noite num corredor. E eu estou a escrever isto porque ainda preciso que alguém me diga o que vai acontecer daqui para a frente. O homem que gritava contra os filhos da puta do governo afinal não era assim tão maluco. Só percebeu tudo muito antes de mim. Espero que, entretanto, também o tenham atendido.

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