No Grande Salão do Povo, em Pequim, a cena é um ritual meticuloso, repetido a cada cinco anos: os sete homens mais poderosos da China emergem, um a um, perante o olhar atento do mundo. Em outubro de 2022, a ordem de aparecimento não deixou margem para dúvidas. O primeiro, o Presidente Xi Jinping, caminhou para o centro do palco, não por um segundo, mas por um terceiro mandato histórico. Um feito sem precedentes que o eleva a um patamar de poder inquestionável, desmantelando décadas de consenso sobre limites de mandato. A mensagem é clara: Xi pretende permanecer. E a sombra de outro líder, o revolucionário Mao Zedong, paira sobre esta decisão, questionando se a história chinesa estará, afinal, a repetir-se.
A Sombra de Mao e as Cicatrizes de uma Juventude
A ligação entre Xi Jinping e Mao Zedong, embora separada por gerações, é profunda e paradoxal. O pai de Xi, Xi Zhongxun, era um respeitado revolucionário, um dos fundadores da base guerrilheira que ofereceu refúgio ao Exército Vermelho de Mao após a épica e brutal Longa Marcha em 1935. Esse evento, que cimentou Mao como líder de facto do Partido Comunista Chinês (PCC), salvou a revolução e lançou as bases para a República Popular da China. Para os "princelings", como Xi júnior, o legado dos seus pais conferia um estatuto especial. Mas a história tem uma forma cruel de reviravoltas.
Mao, entretanto, não era apenas um líder; era uma força da natureza. Após a fundação da RPC, ele arquitetou uma estrutura de poder onde o Comité Permanente do Politburo, a cúpula do PCC, decidia tudo. Mas a sua sede de poder não conhecia limites. Em 1945, elevou a sua ideologia – o "Pensamento de Mao Zedong" – a dogma inquestionável. E quando a sua autoridade foi ameaçada, lançou a desastrosa Revolução Cultural. Entre 1966 e 1976, milhões foram perseguidos, humilhados e mortos. Ninguém estava a salvo, nem mesmo os seus mais próximos aliados. O pai de Xi foi publicamente denunciado pelos Guardas Vermelhos, aprisionado durante oito anos.
O jovem Xi, com apenas 15 anos, foi expulso da sua escola de elite e exilado para o campo, forçado a viver em cavernas e a realizar trabalhos manuais pesados. A sua alimentação era precária, a vida era dura. Um trauma que, ironicamente, moldaria a sua compreensão intransigente do poder. É quase incompreensível que, apesar de tudo, Xi Jinping tenha optado por se juntar ao Partido Comunista precisamente quando a Revolução Cultural chegava ao fim. Talvez porque, como ele próprio terá compreendido, "no sistema do Partido Comunista Chinês, o poder é tudo. Sem poder, não és nada".
A Era de Deng e a Ascensão Silenciosa
A morte de Mao em 1976 abriu caminho para uma nova era, liderada por Deng Xiaoping. Deng, um sobrevivente das purgas da Revolução Cultural, reabilitou as vítimas de Mao e lançou as bases para uma China moderna. Consciente dos perigos do culto de personalidade, Deng instituiu a liderança coletiva, dividindo cargos e promovendo a partilha de poder. Não ocupou a chefia de estado, nem o cargo máximo do partido, preferindo influenciar de uma comissão consultiva. A "era Deng" trouxe prosperidade económica sem precedentes e um grau de inovação política e descentralização que impulsionou a China para o topo global.
Enquanto a China florescia sob esta nova filosofia, Xi Jinping escolheu um caminho inesperado para a ascensão. Longe dos holofotes da feroz competição em Pequim, ele moveu-se pelas províncias mais pobres e rurais da China. Primeiro em Hebei, depois em Fujian, e mais tarde em Zhejiang. Era uma estratégia astuta: construir uma base de apoio fora do núcleo de poder, onde a concorrência de outros "princelings" era escassa. Ele cultivou uma reputação de líder trabalhador e prudente, sempre alinhado com a linha do partido. Fez amigos importantes nos militares e no setor civil.
A sua breve passagem por Xangai, onde reabilitou a imagem da cidade após um escândalo de corrupção, cimentou a sua reputação. Quando, em 2007, regressou finalmente a Pequim, não era um "princeling" ambicioso e impetuoso, mas sim um líder discreto, testado no terreno, visto como "seguro" pelo Comité Permanente. A sua paciência e manobras silenciosas tinham valido a pena: estava agora entre os nove homens mais poderosos do país.
O Desmantelar do Consenso e o Eco do Passado
Em 2012, o filho do exilado e ex-revolucionário, o "príncipe vermelho" discreto, tornou-se o líder supremo da China. Xi Jinping, tal como Mao, acredita que a união em torno de uma única figura é crucial para a sobrevivência do partido, rejeitando a liderança coletiva que Deng havia normalizado. E não perdeu tempo a impor a sua visão.
Lançou uma campanha anticorrupção massiva. À superfície, era uma iniciativa louvável. Mas, nas entrelinhas, tornou-se uma ferramenta eficaz para purgar rivais políticos e consolidar o seu poder. Centenas de altos funcionários e militares foram detidos, e as suas posições rapidamente preenchidas com apoiantes leais a Xi. De repente, a China viu-se novamente com um líder a desmantelar os pilares da liderança coletiva. O pico desta transformação ocorreu com a remoção dos limites de mandato presidencial, uma inovação de Deng destinada a evitar a concentração de poder vitalícia. O caminho estava livre para Xi governar indefinidamente.
Finalmente, tal como Mao, Xi cimentou a sua supremacia ideológica. Em 2021, uma terceira resolução histórica unificou a ideologia do partido em torno de uma linha de pensamento clara: o "Pensamento de Xi Jinping". As suas ideias não são mais discutíveis; são o cerne da postura política e da ação do partido. Em essência, as ideias de Xi Jinping tornaram-se a doutrina inquestionável, ecoando o "Pensamento de Mao Zedong" e completando um círculo de regresso ao controlo centralizado de poder.
Onde a História se Repete e o Futuro se Desenha 🇨🇳
O que a ascensão de Xi Jinping nos ensina é que, por mais que um sistema político tente inovar e aprender com os seus erros, a tentação do poder absoluto permanece uma força poderosa. A China moderna, tão diferente da China de Mao, encontra-se agora sob a égide de um líder que, de forma consciente ou inconsciente, parece seguir o manual de um dos seus mais infames antecessores. A busca por unidade através da figura de um líder forte pode trazer estabilidade, mas a que custo? A era de Deng Xiaoping demonstrou os benefícios da abertura e da partilha de poder para a inovação e o crescimento. A era de Xi Jinping promete uma China forte e unida sob uma única visão. A grande pergunta que se coloca é se esta concentração de poder é a chave para o futuro da China ou se, ao desmantelar as salvaguardas que evitavam os excessos do passado, Xi Jinping estará a convidar os fantasmas da história a regressar.




