Já alguma vez te encontraste naquela dança estranha no passeio, onde tu e um estranho se movem para a direita, depois para a esquerda, e ficam presos num ciclo hilariante de descoordenação? É uma imagem perfeita para os mestres Zen que, deliberadamente, usam estes truques para testar a adaptabilidade dos seus alunos. Mas é também, nas palavras do filósofo Alan Watts, uma metáfora assustadoramente precisa para a forma como, muitas vezes, nos enredamos nas complexidades do “jogo social”.
O Jogo que Nunca Vence ⏳
No nosso dia a dia, somos bombardeados por uma subtil, mas poderosa, expectativa de como a vida deve ser. Pessoas aparentemente seguras de si parecem navegar por estas águas com uma facilidade invejável, enquanto outras, hesitantes e nervosas, tropeçam, perpetuamente envergonhadas. A raiz desta insegurança? Uma vida programada em demasia, onde a espontaneidade é vista como um erro.
Pensa no clássico conflito conjugal: “Disseste que farias X à hora Y!” Não importa se a mudança de planos causou algum inconveniente real; o crime é teres alterado o guião. Watts aponta para a nossa adesão teimosa à pontualidade como um fetiche, uma rigidez que nos torna inadaptáveis. Quantos acidentes de viação são resultado da corrida desesperada para cumprir um horário rígido, seja para o jantar ou para o trabalho? Quantas refeições são estragadas por uma esposa que se sente obrigada a ter tudo pronto a uma hora exata, por medo de um marido exigente?
Gastamos uma energia avassaladora a tentar moldar as nossas vidas a imagens pré-concebidas do que elas deveriam ser, imagens nas quais elas nunca se encaixarão verdadeiramente. O Zen, nesta perspetiva, não é uma doutrina esotérica, mas uma prática de libertação destas amarras, destas projeções imaginárias.
A Arte de Não Errar 🧘♀️
Watts recorda uma anedota Zen encantadora: uma mulher oferece um pedaço de carvão ao mestre, que, sem hesitação, o usa para acender um cigarro, exclamando: “Era exatamente o que eu precisava!” Esta capacidade de improvisação, de ver a utilidade e a oportunidade em qualquer situação, sem pré-julgamentos, é a essência.
É o mesmo espírito que encontramos nos grandes comediantes, que transformam um deslize inesperado numa piada brilhante. Eles operam num domínio particular, mas um mestre Zen aplica essa mesma fluidez a todas as situações da vida. O segredo? E aqui está a pedra angular do pensamento de Watts: não podes cometer um erro. 🚫
Esta ideia é radicalmente contrária a tudo o que nos foi ensinado desde a infância. Desde tenra idade, somos moldados para nos conformarmos a um certo jogo social, onde o “certo” e o “errado” são fronteiras rigidamente definidas. Esta pressão constante para “fazer a coisa certa” cria em nós um “eu duplo”, uma versão de nós mesmos que está sempre a monitorizar e a julgar, impedindo-nos de crescer plenamente, de sermos autênticos.
Além da Hierarquia: A Beleza do Fluxo 🌳
Se o jogo social começa a aborrecer-te, a causar-te ansiedade, úlceras ou um profundo mal-estar, então, é natural que comeces a procurar uma saída. É por isso que muitos se interessam por filosofias como o Zen. Não é um sinal de superioridade espiritual, mas sim um sintoma do teu próprio crescimento e evolução, um novo ramo a nascer na árvore da tua existência. Não se trata de te tornares alguém “melhor”, mas sim de te tornares mais plenamente tu mesmo.
Watts desmistifica a ideia de que existem “coisas mais elevadas” ou pessoas “superiores”. Essa categorização é mais uma construção do jogo social. Não somos seres espirituais que se dedicam a algo nobre, em contraste com aqueles que “apenas” se interessam por cerveja e televisão. Somos, simplesmente, a nossa forma particular de vida. Assim como existem caranguejos, aranhas, tubarões ou pardais, cada um a seguir a sua própria natureza.
Lembra-te: um carvalho não é superior a uma bolota. A sua função é produzir mais bolotas. Uma galinha, como Watts gostava de dizer, é a maneira de um ovo fazer mais ovos. Onde está o ponto de superioridade? Na paisagem da primavera, “não há nada superior e nada inferior. Os ramos floridos são, naturalmente, uns curtos, outros longos.”
A Pergunta Que Sobra
Se não há erros, se não há superioridade, se a vida é um fluxo contínuo de transformação, qual é então o teu verdadeiro papel? Talvez seja simplesmente ser, sem o fardo do guião, sem a necessidade de justificar a tua existência. O convite de Alan Watts é para abraçares a espontaneidade, confiares na tua intuição e, acima de tudo, para te lembrares: não podes cometer um erro.




